“Ao contrário do previsto, há excesso de pilotos”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Pois é, né… Desde 2011 que eu tenho martelado aqui a tecla da falácia do “apagão de pilotos“, e só agora a ficha está caindo na grande imprensa. Leiam a matéria “Ao contrário do previsto, há excesso de pilotos, do Valor Econômico (o jornal não permite que se reproduzam seus textos, sob ameaça de pena de morte ou coisa pior, então é preciso se cadastrar no site para ler a reportagem do link acima – ou acessá-lo diretamente no forum Contato Radar, se preferirem), e depois retornem aqui para meus comentários. Vou reproduzir só os trechos a serem comentados, e espero que o Valor não fique bravo comigo por isso.

Comento

No ano passado, o menor crescimento econômico, a escalada do preço do combustível e a desvalorização do real em relação ao dólar, aliados ao processo de redução da oferta doméstica de assentos nos aviões, adiou a projeção de que a partir de 2013 haveria falta de pilotos para a aviação comercial. Em 2010, essa perspectiva era consenso entre empresas aéreas, universidades e especialistas do setor, diante de taxas de crescimento de demanda consistentes nos seis anos anteriores, cinco deles com dois dígitos.

Essa história de que foram fatores externos que levaram a aviação à atual crise é uma meia verdade – e é preciso que se esclareçam algumas coisas. Houve, de fato, problemas com o preço do querosene, e a alta do dólar ocorreu realmente. Mas, então, como se explica o caso da Avianca, que se não ganhou dinheiro no ano passado, pelo menos não perdeu muito? Simples: ela não entrou no jogo da competição desenfreada por market share, que foi o que detonou a Gol e a TAM. E, no caso das “Linhas Aéreas Inteligentes” (sic), decisões estratégicas equivocadas – em que a compra e posterior extinção da Webjet é o exemplo mais contundente – agravaram o quadro. Sim, o cenário foi difícil em 2012, mas o resultado poderia ser muito menos nefasto se as duas principais concorrentes tivessem sido mais eficientes administrativa e estrategicamente. Já sobre o tal “consenso” de 2010… Bem, já dizia Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra, né?  Está aí mais um exemplo. (Vamos falar mais desse consenso na conclusão deste post)

“Vamos ter problemas com pilotos entre três a cinco anos. Vai depender de como for a recuperação da economia mundial e de como vai ser a taxa de crescimento econômico brasileira”, afirmou o consultor técnico da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Adalberto Febeliano. Estudo feito por ele, no ano passado, mostra que o Brasil vai precisar de 24 mil pilotos nos próximos 20 anos. A projeção foi feita com as previsões de vendas das fabricantes de aviões Boeing, Airbus e Embraer para o mesmo período. No total, são 5.439 aeronaves.

E lá vem mais um “apagão de pilotos”, agora para 2016-2020… Interessante que o autor da reportagem não achou nada demais no fato destes estudos terem sido feitos por um consultor da ABEAR, que é a entidade que congrega as companhias aéreas – as mesmas que alardearam o “apagão de pilotos” de 2010/11.

Segundo Ribeiro, da PUC-RS, a última turma de 60 alunos que se formaram em 2012 estão sem emprego. A PUC-RS e a Azul Linhas Aéreas têm um acordo no qual a Azul aproveitava todos os graduados da faculdade gaúcha, mas no ano passado nenhum deles foi contratado pela empresa.

Para vocês verem a gravidade da situação: nem os graduados da PUC-RS estão conseguindo emprego neste momento!

“Enviamos uma proposta ao governo para criar uma universidade pública com formação de pilotos. Essa proposta foi feita em 2003. Hoje quem pode fazer curso de piloto é filho de milionário”, afirmou a diretora do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziella Baggio. “Hoje a situação é totalmente contrária à tese de que em 2013 haveria um gargalo”, acrescentou.

Então o SNA está tentando fazer com que o governo crie uma universidade pública para formar pilotos há 10 anos, e até agora nada!? Poxa, isso é que é poder, hein!? Ainda mais considerando a quantidade de novos cursos que foram criados neste mesmo período! Agora… Dizer que quem faz curso de piloto é filho de milionário não corresponde aos fatos – basta ir a qualquer aeroclube e ver o perfil dos novos PCs. O curso é caro, sim, mas quem se forma PC é gente batalhadora, que faz das tripas coração para pagar as horas de voo. Por que um filho de milionário iria entrar numa carreira com ganhos relativamente modestos, como é a de pilotos? Não seria muito mais rentável administrar os milhões do papai? Na verdade, o que existe é gente que vem de família de classe média – médicos, profissionais liberais, pequenos empresários ingressando na aviação -, mas você não vê nenhum PC com sobrenome Ermírio de Moraes ou Setúbal. Ah, e se “hoje a situação é totalmente contrária à tese de que em 2013 haveria um gargalo”, porque o SNA não alertou a população em 2010/11 (como eu fiz, aliás) de que o “apagão de pilotos” era uma falácia?

“Naquela época [meados de 2010] havia um número enorme de jovens que entraram em aeroclubes e cursos de ciências aeronáuticas porque a profissão estava demandada e os salários subiram”, afirmou o vice-presidente técnico e de operações da TAM Linhas Aéreas, Ruy Amparo. “Esses jovens agora estão terminando seus cursos de piloto e vão encontrar um pouco de dificuldade ao longo deste ano para se posicionar no mercado”, acrescentou.

“Vão encontrar um pouco de dificuldade ao longo deste ano para se posicionar no mercado”, Sr. VP da TAM? Não, eles vão ficar desempregados, mesmo – e por tempo indefinido. Isso porque, lá em 2010, foi a própria TAM uma das empresas que alardeava o “apagão de pilotos”. Se recordar é viver, vamos examinar este post de 2011, em que um diretor da TAM afirmava categoricamente que faltam pilotos no Brasil. Quantas pessoas não tomaram a decisão de se matricular num aeroclube naquela época, depois de ler essa reportagem? E agora, o que será delas?

Encerrando

Esta reportagem é interessante porque reúne diversos personagens, de diferentes áreas da aviação – companhias aéreas, sindicatos, consultoria, ensino, etc. – comentando o fato do “apagão de pilotos” não ter se confirmado, ao contrário de TODAS as previsões. Como se fosse muito difícil perceber que o tal apagão era uma falácia… Poxa, pessoal, ninguém se atentou para o fato de que o salário dos pilotos não estava subindo? Não precisa ser expert em Economia para notar a obviedade da afirmação que o economista Cláudio Moura e Castro escreveu na sua coluna da revista Veja de 2011 sobre escassez de mão-de-obra (comentada neste post): “é quando aumenta a demanda e, como resultado de mais gente querendo contratar, os salários sobem”.

Mas vocês sabem o que mais me espanta? É que já há um especialista dizendo que o verdadeiro apagão virá em 2016-2020, e que muita gente vai cair nessa…

15 comments

  1. joaquim mauricio campione
    4 anos ago

    para comprimento do postado anteriormente a aeronave seria um cesna 172

  2. joaquim mauricio campione
    4 anos ago

    Boa noite li em alguns blog e comentário seus que não é uma boa alunos comprarem o avião para realizar o cursos para se tornarem pilotos, mas o que vc aconselharia para quem quer comprar um avião e arrendar para um aeroclube, vc acha que vale o investimento?

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Pode ser interessante, sim, mas é bom que vc fique ciente dos riscos a que vc estará exposto. Procure no blog, que vc encontra uma resposta que eu dei a um leitor com dúvida semelhante, explicando tudo o que pode acontecer num contrato dessa natureza.

  3. Ribeiro
    4 anos ago

    Raul, já tenho o PP checado e estou prestes a realizar a banca do PC/IFR Avião. Visto que o mercado não está bem, você acha viável continuar a formação ou aguardar para avaliar o mercado daqui a alguns meses?? Tenho colegas no aeroclube que estão desistindo do curso pois perceberam que a oferta está altíssima e investirão dinheiro em outra área…

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Leia os artigos do blog nas categorias “apagão de pilotos” e “compensa ser piloto”, que eu acho que vc consegue formar uma opinião sobre o que vc pergunta.

  4. Franz Handy
    4 anos ago

    Boa tarde Raul.

    Sempre q possível passo aqui e no canal piloto para ficar por dentro do que esta acontecendo, na área da aviação e estão de parabéns.

    Mas tenho q admitir que o que acabei de ler me deixou muito preocupado, mas muito mesmo.

    Acabei de iniciar o teórico de PPA no ACSP, sendo um sonho antigo mas somente agora podendo dar inicio a ele.

    Iniciei o curso sabendo que não seria fácil entrar no mercado de trabalho, mas pelo visto a coisa esta pior do que se fala, pilotos checados com Multi IFR, ICAO, não conseguindo colocação, imagina aqueles q estão iniciando o curso agora. O que foi falado no inicio do curso é que as companhias aéreas são por volta de 10% do mercado da aviação, mas eu não consigo visualizar onde estão os 90% restantes e logo estou achando que não existe isso.

    Hoje vou procurar o coordenador do curso para uma conversa franca, estou preocupado, se for o caso para agora mesmo, será uma pena, mas se for o caso retomo daqui algum tempo.

    Abraço.

    Franz

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      O problema é o seguinte: qdo as cias param as contratações, os pilotos começam a se acumular na aviacao geral, e aí toda a aviacao trava. É o que esta acontecendo agora… A coisa tá ruim mesmo.

  5. Fernando Teles
    4 anos ago

    Ola Raul, boa noite. Pode me tirar uma duvida?
    Sou PPA checado, chequei com 55 horas. Depois de checado, fiz mais 70horas em comando, todas em navegação exceto as 5 noturnas que estão dentro dessas 70. No total tenho 125 horas no momento. Se eu fizer o meu Multi/IFR agora e completas 150 horas totais já posso pedir o cheque? Ou seja com 55horas antes do PP e mais 95 após o PP Tenho 150 totais…
    No aeroclube eles falam que eu preciso ter 110hr APÓS o cheque do PP, mas nao vejo isso escrito no RBAC… Entendo que tendo 150 totais estou dentro da regra. O que vc acha?

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      O que deve estar acontecendo é que o seu aeroclube quer seguir o Manual do Curso de Piloto Comercial da ANAC à risca, e nele há a previsão, realmente, de 110h de voo no curso de PC, independente de quantas horas vc levou para checar o PP (o manual do curso de PP prevê 40h, então era para dar certo). Ocorre que, se vc cumprir com os requerimentos do RBAC-61 – 150h totais, 70h em comando, blá blá blá – o seu cheque, muito provavelmente, também será aprovado, mesmo com menos de 100h no curso de PC. Eu, pelo menos, nunca vi alguém tomar pau por causa disso, e eu mesmo não cumpri o Manual no meu cheque de PC (aliás, eu chequei com 140h!).
      OK, mas vc me perguntou o que eu acho, então vamos lá. Se eu fosse vc, eu ‘peitaria’ o aeroclube, e exigiria ser checado com 150h e ponto final. Eles vão fazer o maior terrorismo na sua cabeça, falar que vc vai tomar pau na ANAC, etc. Eu ficaria firme e assumiria o risco. Fiz isso no meu cheque de PC com 140h, e não tive problema algum. Mas fique ciente de que risco existe mesmo, e o aeroclube não está errado em seguir o Manual à risca.
      Bem, mas eu estou falando isso e não estou sabendo da sua proficiência. Vc tem que estar voando direitinho, e mandar bem no cheque. Senão, meu caro, não tem jeito mesmo, vc vai ter que checar com 170, 190h, o que for.

  6. João
    4 anos ago

    A escola XPTO… virou padaria estão vendendo muitos sonhos ao preço de R$ 360,00 a hora… o pior de tudo é que esse sonho irá virar pesadelo…

  7. Julio Petruchio
    4 anos ago

    Ahh os “Especialistas”… Sempre dando seus “pitacos” no assunto…

  8. Chumbrega
    4 anos ago

    Falou e disse. Desde 2011 aliás.
    E o fato de um “especialista” estar prevendo “novo apagão” é piada de péssimo gosto.

  9. Renato
    4 anos ago

    Só para constar, estou 1 ano desempregado já. Esse mês vence meu IFR, e vou ter que correr atrás e tirar dinheiro do bolso para rechecar. E assim segue!!

    • Você e toda a torcida do flamengo…. do vasco, do atlético, cruzeiro, botafogo, corinthians, são paulo… rssss infelizmente.

      O que mais tem por ai é piloto (desta safra de 2010 ~ 2011) com IFR vencido e MULTI por vencer, por não ter conseguido nada pra voar profissionalmente e manter as carteiras em dia.

      Tenho conhecidos q o ICAO 4 venceu e tão desanimado pra estudar e gastar com revalidação. A verdade é que quando mais tempo desempregado, mais caro fica se manter “em condições” de ser contratado.

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