O caso da bonificação por economia de combustível da Gol – A retratação

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Ontem, no post “Gol estabelece bônus polêmico para pilotos por economia de combustível”, eu reconheço que me equivoquei na minha análise sobre a iniciativa da empresa, e este post é uma retratação quanto a isso. Refletindo melhor, e me informando mais sobre o assunto, eu mudei de opinião, e acho que pode fazer sentido, sim, que a empresa bonifique a tripulação por economia de combustível. Então, cumprindo com o princípio básico deste blog de não ter compromisso com o erro, quero apresentar os argumentos que me fizeram mudar de opinião.

A seguir, eu reproduzo o comentário do leitor FVeiga, mostrando que esse tipo de prática existe, sim, em outras partes do mundo (além deste, há o desmonte teórico do meu argumento pelo leitor André de Sousa Araújo, que concordo igualmente). E também estão reproduzidas as reportagens publicadas no Estadão, em O Globo, e no Jornal do Brasil – sendo que, nesta última, há a informação de que a TAM e a TRIP também contam com programas semelhantes. Isso desmente minha afirmação de que esta é “uma ideia que, se fosse boa, já estaria sendo utilizada por todas as companhias do mundo”, do post anterior.

Mas o que mais me fez mudar de opinião foi analisar a questão pela ótica da Teoria dos Jogos, que é minha especialidade acadêmica. Inicialmente, eu entendi que a bonificação seria individualizada por tripulante, ou seja: aquele comandante/copiloto que efetuasse um determinado procedimento que economizasse combustível seria o premiado. Isso, realmente, poderia gerar atitudes contrárias à segurança de voo, em minha opinião. Mas como a proposta é de que TODOS os tripulantes sejam recompensados por uma economia GLOBAL da empresa, não há um estímulo a atitudes não recomendáveis, na prática. O que eu quero dizer com isso é que um comandante motivado para receber seu bônus individual pode “forçar a barra” numa aproximação, e não arremeter quando deveria, para que seu bônus não seja impactado. Mas quando o benefício é distribuído entre todos, deixa de ser interessante que somente ele corra o risco de evitar a arremetida, já que o benefício de sua decisão não ficaria somente para si. Trata-se, na verdade, de um experimento clássico da Teoria dos Jogos que não vou detalhar aqui para não deixar o assunto mais complicado do que precisaria ser, mas acreditem: mudar o benefício do individual para o coletivo muda completamente a dinâmica do “jogo” da bonificação por economia.

A seguir, os textos do leitor e da imprensa (fonte: Aeroclipping do SNA) que podem ajudar a compreender melhor a iniciativa da Gol:

O texto do leitor FVeiga:

Caro Raul, aqui na Asia muitas empresas usam esses bonus. Na verdade, muito Cmtes que conheco egordam salarios, mas nao fazem invencoes.
Devido acumulo de trafego, muitas navegacoes aqui vem com FL’s mais baixos e os 10% de contingencia.
A meta é apenas nao acrescentar muito Fuel (e se acrescentar, ter um motivo razoavel: Ex. Met) e tentar gastar igual ou menos que a navegacao.
Entao fica facil. Voa-se num nivel mais alto (Nivel Otimo), pede proa direta (evitando certas “curvas” da Sid, aerovia ou Star) voa no Mach economico e faz (ou tenta fazer) uma descida constante.
Sem milagres, por aqui deve-se passar o externo configurado. Sem negociacoes kkk
(Nada de evitar reversos, ar condicionado, motor desligado, etc…como diz a materia. Bem simples)
Abs!

A reportagem do Estadão:

Gol paga mais para piloto que economiza combustível
Empresa criou sistema de bonificação extra para tripulação após prejuízo decorrente de alta de custos
15 de abril de 2013 | 18h 38
Fabio Motta/Estadão

SÃO PAULO – Após apontar o crescimento do custo com combustíveis como o principal fator responsável pelo prejuízo operacional da companhia em 2012, a Gol decidiu ampliar suas medidas de gerenciamento desse insumo. A companhia aérea iniciou este ano um projeto de bonificação para tripulantes de voos eficientes e pontuais.

A empresa explicou que o melhor gerenciamento de consumo de combustível nos 950 voos da companhia é possível com medidas tomadas pelos pilotos e copilotos como subidas e descidas mais constantes e a utilização de rotas mais curtas. Já os comissários de bordo colaboram no gerenciamento das atividades de solo, contribuindo para a pontualidade das operações.

A meta da companhia é obter uma economia de 700 toneladas mensais de combustível com o projeto, ou R$ 1,9 milhão por mês. Se o objetivo for alcançado, R$ 820 mil serão reservados para distribuição de prêmiso entre os tripulantes.

“A iniciativa visa aproveitar oportunidades de economia durante o voo e em solo, em conjunto com a pontualidade e a eficiência das operações”, explicou a empresa aérea, em nota, salientando que esta não é a única medida desenvolvida pela companhia visando maior eficiência no gasto de combustível.

A Gol disse ter identificado a oportunidade a partir de um sistema de monitoramento das operações da companhia, analisando 280 mil voos. “Este monitoramento permitiu identificar processos de voo mais econômicos e eficientes. A iniciativa captura uma boa prática e a estende, como orientação, para 100% do grupo de voo.”

A bonificação aos tripulantes será semestral, com referência no alcance de metas dos meses anteriores, e contemplará o time de pilotos e comissários. “Será um trabalho em equipe, não há metas individuais, apenas coletivas”, salientou a aérea.

Questionada sobre eventuais riscos ou prejuízo aos serviços da companhia, a Gol reiterou que “só adota procedimentos que contribuam para a segurança de voo, o conforto de seus clientes e que estejam de acordo com a legislação vigente”.

Entre as medidas já tomadas pela Gol visando o melhor gerenciamento do combustível estão a utilização de motores modelo CFM56-7BE, que reduzem em cerca de 2% o consumo de combustível e o uso de unidades auxiliares de energia mais eficientes quando a aeronave está no solo.

Segundo a Gol, o combustível é responsável por 43% dos custos da empresa. Em 2012, a companhia registrou R$ 3,742 bilhões em despesas com combustível de aviação, montante 22,3% superior ao apurado no ano anterior. O aumento de R$ 680 milhões nos custos representou cerca de 95% do prejuízo operacional. O preço do combustível ficou em R$ 2,26 por litro consumido, 18% superior ao verificado em 2011.

A reportagem de O Globo:

Gol pagará bônus a piloto que reduzir consumo de combustível
Para especialista, prática pode comprometer segurança de voos da companhia
SERGIO VIEIRA
sergio.vieira@oglobo.com.br

-RIO E BRASÍLIA- Após registrar prejuízo de R$ 1,5 bilhão no ano passado, a Gol implementou uma polêmica estratégia para economizar 700 toneladas de combustível por mês. Pilotos e comissários receberão uma bonificação salarial se conseguirem cumprir metas de redução no consumo.

Em comunicado distribuído em fevereiro, a empresa orienta os pilotos a desligarem um dos motores durante o taxiamento do avião. Sugere, ainda, que travem um dos reversos (equipamento de frenagem) em pousos em pistas longas. Recomenda a redução em 40 segundos do tempo de voo e procedimentos como a descida direta, não em níveis, na aterrissagem.

Se a companhia economizar R$ 1,9 milhão por mês, cerca de R$ 820 mil serão destinados a pilotos e comissários. O combustível responde por mais de 40% dos custos da empresa.

— A segurança continua sendo o pilar de nossas operações. Estamos falando em melhor gerenciamento de nossas práticas e esta é uma oportunidade de ampliar a todo o grupo o que já era praticado em menor escala — disse Pedro Scorza, diretor de Operações da Gol.

Para Carlos Camacho, diretor de Segurança de Voo do Sindicato Nacional dos Aeronautas, a medida pode colocar em risco as operações da empresa:

— Querendo ou não, isso pode gerar ganância. As chances de se colocar as operações de voo em risco são grandes.

Em nota, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) diz que programas semelhantes são usados por vários operadores como forma de otimização do voo e não trazem riscos às operações, desde que todos os requisitos de segurança sejam cumpridos. A TAM também tem um programa para reduzir o consumo do combustível, o Smart Fuel, mas não remunera os pilotos pelo cumprimento de metas.

Fontes do setor dizem que pilotos da Gol demoram mais na pista porque a remuneração é por hora de voo. Na TAM, ela é medida por quilômetro voado. ●

Colaborou Geralda Doca

A reportagem do Jornal do Brasil:

Medidas de economia de combustível da Gol preocupam
A mais perigosa é a restrição ao uso do reverso
Jornal do Brasil

A meta adotada pela Gol para economizar combustível depois de um prejuízo de R$ 1,5 bilhão em 2012, que tem como objetivo reduzir os gastos, pode trazer riscos aos voos da empresa, apesar de a própria negar a insegurança. Descidas diretas, desativação do reverso, desligamento de um motor e a realização de rotas mais diretas para conter os atrasos das decolagens são algumas das ações da empresa na busca pela economia.

O uso do reverso – equipamento que ajuda o avião a frear –, por exemplo, apesar de ser opcional em determinadas pistas mais longas, é “obrigatória nas pistas curtas, também chamadas de pistas críticas”, segundo informou o comandante Carlos Camacho, diretor de Segurança de Voo do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA). Apesar disso, o não acionamento do reverso é uma das medidas recomendadas pela Gol para contribuir com a redução do gasto de combustível.

Já o tenente-brigadeiro-do-ar, Mauro Gandra, – também ex-ministro da Aeronáutica no governo Fernando Henrique Cardoso, de 1995, e atual diretor do Instituto do Ar da Universidade Estácio de Sá –, afirma que a medida mais arriscada entre as descritas no informe da Gol seria o não acionamento do reverso. “Quando você tem uma pista mais curta, por exemplo, como a do aeroporto de Congonhas, dificilmente um piloto vai deixar de usar o reverso se precisar dele. Agora, no Galeão, ou em Brasília, pode deixar de utilizá-lo tranquilamente”, compara o tenente-brigadeiro-do-ar.

Incentivo do bônus divide opiniões

Entretanto, para Carlos Camacho, o fator que mais preocupa a classe é a oferta de um bônus aos pilotos. “[A conduta da Gol] nos preocuparia muito por conta da [possibilidade de] bonificação individual, porque geraria uma espécie de competição e aí poderia sim haver o risco, em função do programa de remuneração do fim do ano. Mas sem estar individualizado, o sindicato diminui seu nível de preocupação”, analisa o diretor de Segurança de Voo do SNA.

“O piloto que troca a vida dele por um bônus não é um piloto. Não acredito que alguém, conscientemente, vá colocar em risco a própria vida e a de passageiros por uma bonificação”, ressalta George Sucupira, diretor presidente da Associação de pilotos e proprietários de aeronaves (APPA).

Outra questão levantada por Camacho, no entanto, se refere à imagem da empresa perante os seus funcionários, já que a atitude beneficia pilotos, por ser o começo do processo para ser um PRL (Participação nos Lucros e Resultados). Segundo o comandante, não é uma atitude positiva a empresa “dividir a lucratividade com os pilotos”, alerta Camacho, esclarecendo que o benefício deveria ser extensivo a todos os funcionários para evitar um conflito desnecessário.

Brigadeiro prevê possível revisão antecipada dos motores devido à medida

Com a redução do consumo de combustível, conforme avalia Mauro Gandra, “a companhia pode se atentar, em longo prazo, para o fato de que no fim, deve aumentar o número de horas de voos no motor, o que pode antecipar a revisão destes. Mas esta é uma coisa quase que subjetiva. É preciso fazer uma análise muito mais profunda”, interpreta o tenente.

Sobre as rotas diretas, o brigadeiro ressalvou apenas que a medida pode não funcionar por conta de um intenso tráfego aéreo, mas, em geral, considera possível.

“Bolo cresceu mais que a forma”, diz Carlos Camacho

“O que acontece no Brasil é que o bolo cresceu mais que a forma”, critica o diretor de segurança aeronáutica. “A infraestrutura não dá vazão para a aviação regular no país. Nós não nos preparamos para este bolo exponencial. E é muito difícil correr atrás agora, apesar dos governos estarem tentando”, reconhece o sindicalista.

“O que a Gol está fazendo não é diferente do que a Tam faz com o plano Smart Fuel, e também a Trip, com a sigla IP, o índice de desempenho. Na verdade, o que a Gol criou foi uma problemática salarial nessa fusão com a necessidade de economizar combustível e a reconstrução dos pagamentos. Mesmo caso da Azul, empresa que, segundo os pilotos, reduziu os salários e pede a economia de combustível”, diz o diretor.

Portar menos carga e peso nas aeronaves também já são medidas adotadas, segundo Camacho, exemplificada pela retirada, inclusive, dos alimentos a bordo, para diminuir o consumo do combustível dos aviões.

“Escala torna a vida do piloto um inferno”, afirma diretor da SNA

O comandante Carlos Camacho aponta ainda que o maior conflito na Gol hoje não é a meta de economia de combustível propriamente dita, mas sim as medidas econômicas. “As empresas precisam investir bastante no nível de satisfação das categorias. A Gol começou a mexer nas escalas e parece que a grande jogada da empresa é que o piloto não durma. A escala torna a vida de um piloto um inferno”, exclama o profissional.

De acordo com o sindicalista, “a mudança de escalas leva o tripulante a uma situação de absoluto desconforto e aumenta o nível de risco presente na função”.

“A verdade é que a insegurança está presente onde há uma tripulação infeliz, devido às escalas, onde há, por vez ou outra, o descuido. Fora do avião, quem tem mais poder é o escalador. E a chefia está sempre do lado da empresa. Nove em dez chefes não estão ao lado do trabalhador”, conclui o comandante.

 

7 comments

  1. FVeiga
    4 anos ago

    Meu amigo Raul,
    Muito legal seu comentário.
    Deixa eu acrescentar mais informacoes do que vejo aqui na Asia (Nao que eu concorde com a política).
    O bonus aqui é Individual. Mas nao incentiva a competicao entre pilotos, pois nao existe primeiro e segundo colocado. Apenas, uma estatistica individualizada onde: se o piloto gasta menos que o planejado (simplifico: Trip Fuel) no fim do periodo (varia por empresa: mes, quarto, semestre ou ano) o piloto ganha o bonus.
    Sim, isso pode forçar alguns colegas a “forçar a barra” como voce disse, e acontece! Vi um comandante ser demitido por causa disso agora em 2013.
    Mas, na minha opiniao, isso ocorre com uma minoria absoluta, pois todos concordam que ir ao limite e correr o risco de ser chamado por QAR (Foqa), receber mais treino em simulador, perder dias de trabalho, frequentar o triste cafe com rosquinha (onde o chefe da o cafe e o piloto da…) e correr o risco de ser demitido, nao vale tentar garantir o bonus.
    A maioria tenta ao maximo economizar. Mesmo assim cumprem a configuracao de pouso a 1500ft e aproximacao estavel a 1000ftm com bastante folga (as vezes ate demais! Ja que nao é dificil “bater” a navegacao).
    Minha empresa nao tem esse bonus, entao conto o que recebo dos colegas brazucas aqui na Asia.
    Agradeco sua analise pela teoria dos jogos. Preciso ler mais a respeito.
    Abs!

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Esse caso que vc cita, do sujeito que foi demitido por ‘forçar a barra’ é o que se pode esperar quando o ‘jogo’ se mostra desta forma, oferecendo recompensas individuais. Na aviação, onde violar regras de segurança representa risco de morte, é claro que isso será menos evidente do que, por exemplo, no mercado financeiro, qdo o risco é de demissão e/ou processo, mas o mecanismo é o mesmo. O assunto é muito interessante, e tem muita coisa da Economia Comportamental nesse sentido, geralmente enfocando exemplos do mercado financeiro, mas que seriam facilmente adaptáveis para qualquer outra atividade – aviação, inclusive. Se vc gosta do assunto, procure por Kahneman & Tversky, que são os melhores autores da Economia Comportamental. E se quer uma indicação, compre “Microeconomia & Comportamento”, do Robert H Frank, que traz uma série de artigos do K&T mastigados para qualquer leigo entender.

      • FVeiga
        4 anos ago

        Otimo!
        Obrigado.
        Seu material a respeito tambem seria uma sugestao? Abs.

        • Raul Marinho
          4 anos ago

          O meu livro, “Prática na Teoria” (ed. Saraiva, 2a edição 2011), seria uma boa opção introdutória à Teoria dos Jogos e à Economia Comportamental, sim (com o perdão da falta de modéstia). Mas ele é focado no mecanismo de Altruísmo Recíproco, que não explica o fenômeno do comandante com bonificação por desempenho tão bem como os experimentos do Kahnemann. Esse é O cara da Economia Comportamental, que já ganhou até Prêmio Nobel pelo seu trabalho. E o livro do Frank que te indiquei é excelente porque torna o trabalho dele acessível para qualquer um (vc não iria gostar de ler um paper do kkahneman na íntegra, pode acreditar).

  2. Anônimo
    4 anos ago

    Posso afirmar categoricamente que na TRIP não existe incentivo financeiro para economia de combustível. Acho que deveria ter, mas não tem.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      E o tal do ‘IP’ que o Carlos Camacho se referiu na reportagem do Jornal do Brasil?

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