Sobre o fim das operações de asa fixa no Campo de Marte

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Neste artigo, irei realizar algumas considerações sobre a proposta do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, de restringir as operações no Campo de Marte somente para helicópteros – ou, visto de outra forma, de proibir as operações com aviões no aeroporto da Zona Norte de São Paulo. Trata-se de uma continuação do que foi abordado nos posts “Prefeito de SP quer proibir aviões no Campo de Marte” e “Aeronáutica estuda impacto de veto a aviões no Campo de Marte”. Então vamos lá: preparem-se que o texto é longo!

O motivo alegado para o impedimento de aviões no Campo de Marte – e porque ele é furado

O atual prefeito de São Paulo tem um plano urbanístico, chamado “Arco do Futuro”, que prevê uma série de mudanças no zoneamento urbano da cidade. Dentre estas, está a permissão para que se construam prédios altos no entorno da Marginal Tietê, inclusive nos prolongamentos da pista do Campo de Marte – onde hoje é proibido para não interferir com as operações de pouso e decolagem de aviões naquele aeródromo.

Vejam na primeira imagem a seguir o que é o tal Arco: a área em vermelho seria onde o plano prevê um incentivo à ocupação com moradias; e o quadradinho verde em destaque é a região do Campo de Marte e seu entorno. Na segunda imagem, numa ampliação do quadradinho verde, vê-se o aeroporto do Campo de Marte ao centro, e as duas áreas avermelhadas no prolongamento das cabeceiras da pista: à direita, com a letra L (leste), a área que hoje possui restrições urbanísticas (referentes à altura das edificações) na região que vai do alambrado da pista até a vizinhança do Shopping Center Norte; e à esquerda, com a letra W (oeste), a área com as mesmas restrições no espaço que fica entre o aeroporto e o morro da Casa Verde. Dê uma olhada nas imagens, que depois eu retomo o texto.

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Arco do Futuro

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Arco do Futuro - Campo de Marte

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No quadrado vermelho L da 2ª imagem, o maior, é preciso ressaltar que boa parte da área corresponde a um antigo lixão (inclusive, o próprio Shopping era um lixão, e até hoje há problemas de vazamento de metano por lá), que a torna inadequada para a ocupação residencial. Já o quadrado vermelho W é reduzido devido à topografia: depois do cume do morro da Casa Verde, não faz mais sentido restringir a altura dos prédios, pois dali em diante, o avião já passou (na decolagem), ou terá que passar pelo cume, que é mais alto (no pouso).

O quadrado azul N da 2ª imagem, ao norte do Campo de Marte, é uma área sem restrições de tamanho para os prédios (inclusive, eu moro nessa área, em um prédio de 17 andares), mas que passa pela região reestrita para chegar ao centro da cidade (ou à zona sul, oeste, leste…). Se os quadrados vermelhos receberem prédios altos, o trânsito nestas regiões se adensarão, e quem mora na área azul vai ter problemas para sair dali – logo, serão necessárias pesadas obras viárias para resolver o problema.

Essa é a descrição da questão. Agora, vamos analisar a proposta da prefeitura:

O prefeito está dizendo que quer restringir a operação de asa fixa no Campo de Marte para viabilizar o tal do Arco do Futuro. Ok. Sem entrar no mérito do tal Arco – se é bom, se é ruim, se faz sentido ou não, etc. –, vejam na 1ª imagem acima o tamanho completo do Arco versus o tamanho da área correspondente ao entorno do Campo de Marte, que o prefeito quer alterar os limites de altura dos prédios; e depois vejam as limitações dos quadrados vermelhos da 2ª imagem e o problema do trânsito que o pessoal do quadrado azul vai enfrentar. Agora, digam: faz sentido penalizar toda a aviação geral de asa fixa de São Paulo somente para viabilizar construções altas em uma fração irrisória do tal Arco do Futuro? E que será só parcialmente aproveitada por causa da contaminação do solo de parcela considerável da área? E, ainda por cima, que irá gerar um problema terrível de trânsito para uma área enorme da cidade?

É claro que não! O Arco do Futuro é plenamente viável sem a necessidade de prédios altos nessa parcela ínfima de sua área. Por outro lado, para quem possui imóveis nas áreas vermelhas da 2ª imagem, a proibição de aviões no Campo de Marte fará uma grande diferença: serão estes, no fim das contas, os grandes beneficiados. Então, é preciso que fique claro que a proposta do prefeito não é essencial para que o tal Arco do Futuro se viabilize: trata-se, pura e simplesmente, de uma jogada para valorizar uma determinada região da cidade, em benefício de alguns.

Passemos, agora, para um outro aspecto do problema:

O lento declínio da aviação de asa fixa no Campo de Marte

O Campo de Marte já foi uma base de operações importante para a aviação militar – hoje, só funcionam lá as oficinas do PAMA (e, mesmo assim, com um nível de atividade infinitamente menor do que já foi), e órgãos administrativos da FAB, como o SERIPA-IV. O Campo de Marte já teve procedimentos de aproximação e decolagem por instrumentos – hoje, mesmo com os avanços tecnológicos do GNSS que permitiriam procedimentos RNAV, ele só opera visual. O Campo de Marte já sediou muitos táxis aéreos importantes, e até fábricas de aviões – hoje, fora a JP Martins (representante da Piper no Brasil), que é uma empresa importante para a aviação geral do país, há algumas oficinas grandes, como a Aristek, e hangares da aviação executiva (RBAC-91), como é o caso do enorme hangar das Casas Bahia (que também está tendo as operações reduzidas). Táxis aéreos, como a Fretax, também estão lá, mas com a maioria das operações acontecendo fora daquele aeroporto, cuja importância atual é muito pequena para a operação segundo o RBAC-135. Fora isso, o que mais há no Campo de Marte em termos de asa fixa? O Aeroclube de São Paulo, de que falaremos mais à frente; duas ou três escolas de aviação com um par de aviões cada; uns três ou quatro aviões da PM; e… Acabou!

Sabem aquela história do sapo na panela? É mais ou menos assim: se você jogar um sapo numa panela com água fervendo, ele vai sair pulando na mesma hora; mas se você jogar o sapo na panela com água fria, colocar a panela em fogo baixo, e for esquentando a água devagar, o sapo vai se adaptando à água cada vez mais quente, até que ele irá morrer cozido sem se dar conta. Foi isso o que aconteceu com a aviação de asa fixa no Campo de Marte! Os operadores de jatos foram quase todos embora depois que o aeroporto deixou de operar IFR; a maioria dos táxis foram procurar localidades com custos mais baixos; muita gente acabou se mudando para Jundiaí, Sorocaba, São José dos Campos; e o que restou foi um aeroporto tão desimportante para a aviação de asa fixa, que um prefeito fala em encerrar suas operações, e não há praticamente nenhum protesto visível. Quem é que discordou publicamente do prefeito até agora? A ABAG falou alguma coisa? A APPA? Alguém escreveu um artigo no jornal reclamando? Por incrível que pareça, a única entidade que eu vi contestando o fim dos aviões no Campo de Marte até agora foi a ABRAPHE – que não será afetada diretamente pela medida!

Não sei a que resultado o estudo do DECEA irá chegar sobre o impacto do fim da aviação de asa fixa no Campo de Marte. Pode até ser que ele conclua que é inviável vetar os aviões nesse aeródromo, mas uma coisa é certa: a situação da aviação de asa fixa no Campo de Marte está frágil, extremamente frágil. Não há uma organização coletiva entre as entidades que atuam nesse aeroporto, ninguém está preocupado com o todo, somente com o seu próprio umbigo. Assim, vai ser difícil manter a aviação de asa fixa no Campo de Marte, e se não for desta vez que ela vai acabar, não demorará até que seu fim chegue – a menos que sejam tomadas urgentes medidas, que abordaremos mais à frente.

Mas, antes, vamos falar do

Aeroclube de São Paulo – Ou: se é para falar em declínio…

Nada é mais emblemático do declínio do Campo de Marte do que o que aconteceu com o Aeroclube de São Paulo. Nos anos 1980, havia mais de 40 aeronaves de instrução no ACSP, o que significa que, hoje, ele teria que ter umas 60, 70 aeronaves para continuar do mesmo tamanho relativo – mas, na realidade, tem menos de 20. E, nesse período, a EJ, que nem existia nos anos 1980, transformou-se na maior formadora de pilotos do país, os aeroclubes de Bragança e de Jundiaí cresceram, e até entidades mais distantes ou de menor expressão se beneficiaram do encolhimento do ACSP. Hoje em dia, cerca de 90% dos paulistanos interessados em instrução prática pegam a estrada, mesmo com um aeroclube na capital.

Além disso, o fato do ACSP sempre ter sido beneficiado por subsídios estatais – até hoje, ele não paga nada por ocupar a área da INFRAERO, um benefício milionário – e de ser uma instituição sem fins lucrativos, sempre foi um fator inibidor para o estabelecimento de escolas de aviação fortes no Campo de Marte. Na instrução de asa rotativa, por outro lado, a situação é completamente diferente, com várias escolas de pequeno e médio porte concorrendo entre si, o que faz com que pouquíssimos paulistanos tenham que sair da cidade para realizar a formação de PPH/PCH. Qual modelo funciona melhor? (É realmente necessário responder?).

Mas imaginem se, hoje em dia, o ACSP tivesse a mesma importância que tinha em décadas passadas, quando era um dos principais centros formadores de pilotos do país: será que o prefeito estaria avançando sobre o Campo de Marte com o mesmo ímpeto? É claro que não! O que me leva à conclusão deste item, que é a seguinte: o declínio do ACSP nunca foi um problema somente da diretoria e dos associados daquele aeroclube, e sim de toda a aviação. Mas a comunidade aeronáutica tem uma enorme dificuldade em enxergar que tudo funciona integrado, e que se o ACSP vai mal, uma hora isso irá atingir o restante das atividades da aviação. É o que está acontecendo agora…

Mas nem tudo está perdido! Vejam

O exemplo da ABRAPHE: alguém enxerga a floresta!

Para a ABRAPHE, que diferença faz os aviões saírem do Campo de Marte? Em princípio, seria até melhor, pois haveria mais espaço para os helicópteros, o preço da hangaragem cairia, a torre de controle ficaria exclusiva para a asa rotativa… Então, porque o presidente da entidade se posicionou de maneira contrária à proposta do prefeito? Simples: porque, depois de tirar os aviões, o alvo passará a ser os helicópteros. Assim que os novos vizinhos chegarem, eles irão começar a reclamar do barulho, da “insegurança potencial” dos helicópteros voando sobre suas cabeças, e mimimi… (como se o barulho e a tal insegurança fossem desconhecidas antes de eles se mudarem para lá, mas enfim). E o presidente da entidade percebeu isso: ele tem consciência de que a aviação funciona integrada, de que não tem essa de “asa fixa X rotativa”. Parabéns ao Rodrigo Duarte, presidente da ABRAPHE!

Pena que ele é um só…

Concluindo

Em primeiro lugar, o que precisa ficar claro para a opinião pública é que a proposta do prefeito não faz sentido. Não é necessário acabar com a aviação de asa fixa no Campo de Marte para viabilizar o tal do Arco do Futuro! E, em segundo lugar, a aviação precisa se organizar para reagir a esse tipo de ataque – e, quando falo em aviação, quero dizer TODA a aviação: de asa fixa e rotativa; geral, comercial, agrícola e de instrução; pilotos, operadores, oficinas, revendedores; TODO MUNDO, enfim, pois tudo funciona integrado na aviação. É preciso ter um plano para RESSUSCITAR a aviação de asa fixa do Campo de Marte, com atitudes como, por exemplo:

  • Homologar procedimentos IFR/RNAV, que viabilizariam a volta de operadores mais sofisticados que hoje atuam em Congonhas e em aeroportos do entorno de São Paulo;
  • Estimular a instrução de asa fixa no Campo de Marte, reerguendo o ACSP (instrução prática) e/ou incentivando escolas de aviação de asa fixa, evitando a evasão de alunos para outras cidades;
  • Criar uma aviação comercial regional diferenciada – p.ex.: com linhas de curtíssimo alcance para o litoral (Santos/Guarujá e Ubatuba) ou aeroportos centrais de cidades próximas (Campinas/Amarais, Sorocaba, etc.) com aeronaves de menor porte (ex.: Cessna Caravan, Embraer Brasília);
  • Incentivar a instalação de empresas de manutenção aeronáutica e de venda ou locação (propriedade compartilhada) de aeronaves no Campo de Marte;
  • Trazer uma FATEC com cursos de aviação (manutenção, formação de pilotos em nível superior/tecnológico, etc.) para ocupar o vácuo deixado pelo encerramento iminente das atividades do PAMA…

Enfim, há muita coisa que pode ser feita nesse sentido, que traria progresso para a cidade, emprego para os paulistanos, impostos para o município, e que fariam realmente sentido em termos de administração pública municipal. Pelo menos, é assim que eu penso…

13 comments

  1. César
    2 anos ago

    Esse arco futuro so visa especulação imobiliária, sem campo de marte para viação comercial pequeno jatos executivos o brasil e são paulo perde muito, eventos, cultura, ate espaço aéreo em relação outros países

  2. César bucallon
    2 anos ago

    Vai deixar saudade campo de marte isso acontecer , todos que adoram viação não podemos deixar que campo de marte deixe de existir, temos fazer petição contra arco do futuro, na ha futuro se esse aeroporto ✈ para viação comercial,

  3. Ana
    2 anos ago

    Muito bom seu artigo! Sempre pensei o mesmo em relação a rotas de curtíssima distância e o porque ninguém investe nisso…Será que falta mercado? Talvez seja só uma questão de boa vontade também. Pena que eu não tenho dinheiro! Rs

  4. Alex Sandro
    4 anos ago

    Infelizmente no país tudo é questão de quanto R$ eu levo nisto.
    Você foi perfeito nas colocações Raul.
    Agora seria bom a resposta de todos que utilizam o Campo de Marte ver se aparece nota no site.

  5. Júlio Petruchio
    4 anos ago

    ABRAPHE = 100%
    APPA = ???
    ABAG = “FEIRINHA”
    A.C.S.P.= BAR BRAHMA

    O restante, terá de se mudar…

  6. Pedro Villa Lobos
    4 anos ago

    houve 143 mil operações (voos) partindo ou pousando no campo de marte em 2012 ante 115 mil de viracopos… apesar das diferentes categorias de aeronaves, que é incomparável, o número bruto não é tão insignificante quanto se prega… O campo de marte é sim de grande importância para a aviação, uma vez que CGH ja se encontra completamente saturado e os novos projetos de aerodromos para a aviação paulista mal sairam dos rascunhos

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Lembrando que 60% destas 143mil operações se referem a pousos e decolagens com helicópteros.

      • Julio Petruchio
        4 anos ago

        Quase meio a meio… Esse preconceito de que asa fixa em Campo de Marte “já era” não é verdadeiro. Penso eu que se a comunidade Aeronáutica interessada não se manifestar contrariamente a idéia do Pref. “supercoxinha”, ou é muito covarde ou está levando “uma bola por fora”.

        • Löhrs
          4 anos ago

          Acredito na segunda hipótese!

          • Carlos Gilson Pereira da Hora
            3 anos ago

            Ok, Caro colega, me sensibilizo, Com, Este argumento, Gostaria, de se Possível, Fazer Parte, Diligentemente, deste, Grupo, Para Compartilhar, Interagindo, Com Bastante, Argumento, Em Defesa das Operações, das Aeronaves, asas Fixas, No Aeroporto de Campo de marte; é Preciso Organizar, e Mobilizar Toda à Comunidade, Aeronáutica, Local, Para Reagirmo-nos, Contrario, Aos, Argumentos, do, Prefeito, Bem Como, Os Argumentos dos, Vereadores, Deste Munícipio , Coloco-me, à Inteira Disposição.

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