Sobre o B727 derrubado no México que o Fantástico mostrou

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Acho que todo mundo que se interessa por aviação ficou sabendo que o “Fantástico”, da Rede Globo, iria mostrar a queda controlada de um Boeing 727 no deserto mexicano para fins de “experimentos e coleta de informações científicas” no seu programa do último domingo, 26 de maio (para quem esteve em coma no hospital na semana passada, a chamada para o programa foi essa). Muito bem, e eis que chega o domingo à noite! Pipoca no micro-ondas, crianças na cama, e papai na frente da TV, louco para ver o programa!

Vem a primeira parte do show, com as explicações sobre como o programa foi feito: porque um 727 (ele tem uma porta traseira, o que permitiria que os tripulantes deixassem a aeronave de paraquedas em segurança); como ele iria ser controlado (por um R/C de aeromodelo); e como seria a escolta (por um Cessna ‘push-pull’). Peraí… Mas o Cessna não seria muito lento para acompanhar o 727? Um R/C de aeromodelo? Por que não um controle melhor, com mais alcance e confiabilidade? E o 727 não foi o escolhido por causa do preço? Afinal, se os paraquedistas saltassem pela porta traseira de uma aeronave com motores sob as asas, não haveria o tal risco de ser sugado pela turbina… Já comecei a achar o programa meio furado. Mas nem deu tempo de criticar, eles pararam o programa, e disseram que o resultado ficaria para depois.

Algum tempo aguentando aquele chato do Tadeu Schmidt com suas gracinhas mal ajambradas, e eis que chega a segunda parte. O Cessna foi substuído por um mono-turboélice (de que não me recordo o modelo), de melhor desempenho, que foi chamado de “Ferrari dos céus” pela reportagem. Putz, começou a avacalhação… Mas a “Ferrari”, olha só!, deu chabu na hora do voo, e o ‘push-pull’ volta à ação. Ok. O 727 decola, sobe, alinha para o local da queda, a tripulação tira o time de campo, o Cessna controla o avião até o “acidente”, e o avião cai: a fuselagem se rompe logo atrás do cockpit, levanta poeira para todo lado, e para. Belo espetáculo, mas quais as principais conclusões? O que se aprendeu com a queda? Bem… Pelo que entendi, a grande “descoberta” do experimento foi que os passageiros que adotaram a posição recomendada pelos comissários tiveram menos ferimentos que os que não adotaram… Oooooohhhhh!!!!

Na verdade, o “experimento” não trouxe nada em termos de contribuição científica para a segurança de voo. Não se aprendeu nada de novo com aquilo, nenhuma nova tecnologia vai ser desenvolvida com a perda do 727. O único ganho foram as imagens do poeirão sendo levantado… Coitado do Boeingão: sua morte poderia ter sido por uma causa mais nobre.

Para encerrar: vejam aqui e aqui que o “show” nem é recente – faz mais de um ano que essas imagens já estão na net. E aqui, uma simulação parecida, que a NASA fez com um B707. E para quem quiser ver um ‘crash test’ com muito mais aplicabilidade, não deixe de ler este post.

11 comments

  1. gpilati
    5 anos ago

    O ensaio serviu para muito mais coisas do que mostrou no fantástico. Fizeram uma reportagem porca (sem nenhum fim científico, só para mostrar um avião caindo) de um estudo feito com um propósito sério.

    Mais informações: http://www.avioesemusicas.com/caindo-caindo-o-que-o-fantastico-nao-mostrou.html

  2. Amgarten
    5 anos ago

    Sem querer fazer o papel de advogado do Raul, mas já fazendo… A gente observa que mesmo em países desenvolvidos e teoricamente com menos problemas, as críticas acontecem com freqüência sobre mais variados assuntos, aí a gente que vive outra realidade lê ou vê aquilo e se pergunta: ” mas eles estão se queixando de que? Vão lá em Lisarb pra ver o que eh bom!” Mas penso que eles estão certos porque se nao criticam, a coisa piora, e um dia ninguém percebe, e a coisa toda estah perdida.
    Pelo que entendi na crítica sobre o tal crash test , foi uma observação de que o teste eh antigo, nada de novo. Também foi espetáculo de mídia. E as descobertas já foram descobertas há tempos, daí a conclusão de que nao serviu pra nada a nao ser para tentar aumentar Ibope. Deu dó de ver aquele 727 destruído!! Muito mais proveitoso teria sido doa-lo ao museu da TAM.
    Ah! E aquele pessoal que apresenta o tal programa dominical eh muuuuuito chato!!!
    Abs,
    Cassio

  3. Miguel
    5 anos ago

    Ahh.. a outra acft não identificada é uma SIAI Marchetti. Abs.

  4. Miguel
    5 anos ago

    Prezado Raul,
    Permita-me tecer a minha observação sobre o seu post.
    Achei um tanto pessimista e “negativista” a sua observação sobre o ensaio realizado, e gostaria de saber qual a abrangência do seu conhecimento acadêmico, para afirmar que tudo o que ocorreu foi em vão. Então os dummies que na verdade são bonecos repletos de sensores não serviram para nada? Então para que as marcas mais renomadas de veículos destroem alguns de seus modelos com ensaios da mesma semelhança?
    Tenho observados os seus posts e posso estar enganado, mas sempre percebo um tom de crítica que nada acrescenta. Aproveito ainda para informar que sou fã do seu blog e existem artigos e utilidade pública para quem é da aviação, mas ando um tanto decepcionado com o vosso pessimismo e perdendo a vontade de ler. Essa é a minha livre expressão e espero que aceite. Nada pessoal.
    Um abraço,

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Miguel,

      As críticas que recebo são infinitamente mais valiosas que os elogios, por isso não fique com receio de fazê-las. Mas sobre o que vc diz do caráter pessimista ou negativista do blog – e não é a primeira vez que leitores reclamam disso -, eu não pretendo mudar minha linha editorial de falar bem do que acho certo, e mal do que acho errado, independente disso ser impopular, ferir susceptibilidades, etc. Se hoje tenho 100mil acessos/mês, poderia ter 500mil se fosse mais “esperto” quanto a este aspecto, mas não é a isso que me proponho. Da mesma sorte que acho que as críticas que vc me faz são muito melhores para o blog que os elogios, acho que as críticas que faço são muito mais benéficas para a aviação que os elogios – que também os faço, aliás, inclusive falei bem de um crash test recentemente (aquele da aviação geral, feito pela NASA). Mas agradeço seus comentários de qualquer maneira.

      Especificamente sobre o programa do Fantástico, eu mantenho o que disse. Ele não serviu para nada além de confirmar o que já se sabia, e se vc tiver identificado alguma contribuição inédita e aplicável do teste para a segurança de voo, gostaria que apontasse. O fato de ter dummies no avião não quer dizer nada, e se vc notar, eles estavam lá só para dar a impressão de que o teste era “sério”, já que as pessoas estão acostumadas a ver vídeos de crash tests automobilísticos com o mesmo equipamento (embora feitos com outros critérios, pode notar). Mas o que eles revelaram? Duas coisas:
      1)Que a posição curvada sobre a perna era melhor do que ficar ereto – o que já se sabia de longuíssima data; e
      2)Que os passageiros da frente se feriram mais do que os do fundo – que não é generalizável, pois há acidentes em que ocorre o oposto.

      E sobre o “quem é vc para criticar” que vc citou no início da sua mensagem, eu entendo que, por se tratar de um programa de TV sem caráter científico, não há a necessidade de ser uma autoridade no assunto para criticar. Aliás, foi assim que eu me posicionei no texto: como um mero espectador, e nem citei o fato de ser piloto para realizar minhas críticas. Se estivesse criticando um artigo científico publicado numa revista especializada, concordo que teria que ter autoridade para criticar, mas não um programa do fantástico. Pelo menos, é assim que eu entendo as coisas…

      Abs,

      Raul

      • Ângelo Miranda
        5 anos ago

        Olá, Raul, esse pessoal é muito chato, se critica tá ruim e se não critica também tá ruim, mas toca assim que tá ótimo.
        Voltando ao assunto do 727, você não acha se tivessem feito o pouso com trens recolhidos não teriam evitado o rompimento da fuselagem logo atrás do cockpit?
        Observe que, quando o trem dianteiro toca na areia, afunda e puxa o nariz para baixo e é nesse momento que a fuselagem se rompe.
        Abraços,

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          Pode ser… Mas como o teste foi mal conduzido em termos científicos, não dá para saber. Veja que, nos testes da NASA que eu mostrei anteriormente, eles simulam as várias configurações de pouso forçado justamente para poder responder a esse tipo de pergunta.

    • Fabio
      5 anos ago

      (Y)

  5. Eduardo Ruscalleda
    5 anos ago

    Concordo com você Raul. Recebi este link de um amigo. Se a ideia é melhorar a segurança de vôo… O pessoal da Nasa usou bem menos dinheiro e demonstrou algo bem mais relevante!

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