Consciência situacional + proatividade + gentileza = segurança de voo

By: Author Raul MarinhoPosted on
508Views3

Cleared for the approach

No link acima é possível baixar o artigo “Cleared for the Approach (But What Happens When the Approach Isn’t Clear?!)”, do Jason Blair – instrutor de voo e diretor executivo da NAFI (a associação dos INVAs dos EUA) -, para a edição de set/out da revista Safety Briefing da FAA, que o nosso amigo Enderson Rafael me enviou.

No artigo, o Jason relata uma situação por que passou numa aproximação por instrumentos IMC (“IFR real”) com seu Cherokee, quando quase colidiu com um C172 que ingressou no ILS sem autorização. O que salvou a pele dele e do C172 foi uma terceira aeronave, um Beechjet equipado com TCAS, que aguardou o pouso do Cherokee, sem tentar passar à sua frente (como é usual nos céus brasileiros). Durante a espera, o comandante do Beechjet detectou um outro tráfego, que o controle não havia nem percebido existir, e então avisou o Cherokee, que conseguiu evitar a colisão. Leiam o texto original para obter todos os detalhes do evento, que é muito interessante.

A primeira coisa que chama a atenção no ocorrido foi a irresponsabilidade do Cessna, que estava executando uma aproximação ILS sem sequer avisar ao ATC ou ao tráfego, sendo que as condições de visibilidade eram praticamente zero. E a segunda foi o próprio ATC, que deveria estar vendo o C172 no radar, mas nada fez quanto a isso: nem mandou a aeronave sair dali, nem avisou ao Cherokee sobre o que estava acontecendo à sua frente. Mas tirando esses dois absurdos, eu gostaria de comentar a atuação exemplar do comandante do Beechjet:

Gentileza

Eu não sei se isso é comum nos EUA, ou se foi uma exceção (estou mais para o 2º caso), mas a minha experiência de piloto de avião de baixo desempenho é péssima quanto à postura das aeronaves mais rápidas. Um jatinho ficar fazendo espera enquanto um Cherokee completa uma aproximação ILS é algo que nunca vi nos céus brasileiros. E, neste caso, ficou evidente que a gentileza do Beechjet foi determinante para que não tivesse ocorrido um acidente. O que nos leva ao entendimento que, em aviação, gentileza pode ser muito mais do que uma mostra de boa educação: ser gentil é um comportamento de incremento da segurança de voo!

Consciência situacional

Recentemente, publiquei aqui um texto sobre consciência situacional focando a operação da própria aeronave; mas neste caso aqui, o comandante do Beechjet foi um passo além. Ele estava tão consciente do que estava fazendo, que teve condições de perceber o risco a que a outra aeronave estava exposta! Prêmio “Piloto Consciente do Ano” para o piloto do jatinho!

Proatividade

Não há nada nos regulamentos de tráfego aéreo (não que eu saiba, pelo menos) que diga que uma aeronave deve verificar o tráfego no TCAS e alertar as demais ao redor sobre a separação entre elas. Mas o comandante do Beechjet, vendo que o ATC não falava nada, e que o Cherokee não deveria ter TCAS, tomou a iniciativa de alertar o tráfego quanto ao risco iminente. Agora o piloto acumula também o prêmio “Piloto Proativo do Ano”!

Concluindo

Este é um dos melhores exemplos que eu já vi de um piloto com a verdadeira postura de aviador. Infelizmente, não é muito comum encontrar profissionais como este comandante de Beechjet por aí, mas é este tipo de aviador que deve ser imitado – e não os manicacas que fazem as suas piruetas inconsequentes por aí. Só que um vídeo de um aviador sendo gentil, consciente e proativo não faria muito sucesso no Youtube, enquanto que um animal como o mostrado neste post arranca aplausos entusiasmados da galera – o que é lamentável.

 

 

3 comments

  1. Humberto Rodrigues
    4 anos ago

    Quanto à atitude do Cmte, só tenho a elogiar! Ele manteve a segurança de vôo dele e dos outros. Quanto à TCAS, são aquelees ilutilizados em aviões de L.A., que dão a famosa e temida “R.A.”. No caso da aviação geral, são conhecidos como “Traffic Advisory” que não são obrigatórios nem fornecem a “RA”, mas apenas as posições e altitudes de outros tráfegos em relação a quem os possui utilizando o aunal do transponder alheio, que se estiver desligado… Kabum!!!!
    A realidade é que quem tem o TAS ou TCAS tem que fazer isso mesmo: evitar, até que tudo fique seguro.
    Se eu for descrever as situações que eu já evitei de colisões depois que instalamos um no avião, ninguém acreditaria o que tem de gente “fazendo merda” por aí!

  2. Já passei por este tipo de “conflito potencial” de tráfego, tanto em Sorocaba-SP quanto em Jundiaí-SP, ambos aeródromos onde o tráfego é intenso e diversificado (ultraleve, avião de instrução, turboélices e jatos de todos os tamanhos etc). Eu num Gulfstream GIV, enquanto os outros eram, via de regra, aeronaves a pistão. Como você bem assinalou: em todos os níveis e segmentos da atividade aeronáutica há gente consciente, assim como também há “animais” por toda a parte, “se achando”. Contra fatos não há argumentos: o que tem acontecido de incidente e acidente, em função de “peladas”, de total ausência de planejamento / avaliação, indisciplina, confiança cega no GPS etc etc, é realmente assustador. E a atitude imatura de gente que aplaude de público os peladeiros (como se heróis fossem) é igualmente um espanto. Tanto quanto me lembro, sempre existiu esse tipo de atitude simplória / infantil, mas era sempre algo mais velado. Hoje, pelo que é de explícito, leva a gente a concluir que o nível de imaturidade tem aumentado de forma diretamente proporcional. Além do que há muita gente deslumbrada, querendo ostentar poder econômico, mostrar que “está podeeindoo”. Isso sempre rendeu amargos resultados em carros e motos, desde sempre. Então, que dizer de aviões, helicópteros, ultraleves etc…lamentavelmente – a persistir esse tipo de cultura (aliado à falta de uma fiscalização e punição mais firmes por parte das escolas de pilotagem, bem como da autoridade aeronáutica) -, as perspectivas não são nada alvissareiras. Teremos – a cada ano que passa -, um aumento exponencial de mutilações e mortes.

    • rubens
      4 anos ago

      Complementando o que vc falou, não precisa de radar, TAS, TCAS, basta apenas um radio na frequencia livre ou mesmo dos corredores pra ver o bando de animais, imaturos que estão voando por ai. O que deveria ser para coordenação bilateral/segurança serve como “rede social” pros babacas ficarem falando OOOOOOOOOOOOOOOOiiiiiiiiiiiiii, BLEEEEEEEEE, VLWWWWWWWW.
      Queria ter um TCAS pra poder desplugar o fone!!!

Deixe uma resposta