Sobre o artigo “Graduação em Aviação Civil 09” – Canal Piloto

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O blog Canal Piloto publicou ontem um artigo assinado pelo seu colunista (meu colega, portanto) Igor Comune, denominado “Graduação em Aviação Civil 09” – que, de acordo com o autor, seria “um tipo de uma réplica a uma coluna no site Para Ser Piloto”. O post a que o Igor se propõe a replicar é este aqui: “O drama do estudante de Aviação Civil da Anhembi Morumbi”, baseado numa mensagem de um leitor e aluno de Aviação Civil da UAM que, preterido em um processo seletivo (da TAM, justamente uma das “empresas parceiras” da faculdade), escreveu-me para contar seu drama, e eu fiz alguns comentários. Que, ao que parece, o Igor discorda, razão pela qual achou que deveria “responder com críticas que podem soar meio ‘duras’ a quem ver”. Eu, sinceramente, não me senti criticado, muito menos com dureza. Mas, na minha maneira de ver o mundo, também não posso concordar com o que ele escreveu. Então vamos, não a uma tréplica, mas a um “vermelho e azul” (o Igor em vermelho, eu em azul) sobre o que o aluno da UAM publicou no Canal Piloto:

(…)

Vou estruturar minha ideia frente a uma simples definição:

Qual a definição de gestão?

O que é Gestão:

Gestão significa gerenciamento, administração, onde existe uma instituição, uma empresa, uma entidade social de pessoas, a ser gerida ou administrada.

Esta foi a melhor definição que encontrei para nosso caso.

O currículo de Aviação Civil – UAM é basicamente voltado para gestão, como pode ser visto na própria página do curso.

Eu, como administrador de empresas, não gosto do termo “gestão”. Sempre que se fala em “gestor”, o que se tem é alguém fazendo o papel de um administrador sem sê-lo. Aliás, sabe de onde vem a palavra “gestão”? Deixemos o administrador Stephen Kanitz explicar (fonte: “Artigos para se pensar” – blog do Stephen Kanitz):

O Verdadeiro Significado da Palavra Gestão

Muitos administradores usam a palavra gestão como sinônimo de administração.

Gestão vem de Gesto, Gesticulação.

Gestores eram aqueles que gesticulavam, que apontavam com o dedo indicador 200 anos atrás onde o carregamento de alimentos deveria ser deixado ou estocado.

Ou apontam quem deveria fazer uma tarefa.

“Coloque este fardo aqui.”

“Você, venha aqui.”

Gestores ainda usam termos como “indicadores” de produção, “apontar” uma solução, “apontamentos” de uma reunião, remanescentes da época em que administrar era basicamente apontar com o indicador a direção a seguir.

Isto não é Administração do Século XXI, isto é gestão do Século XVI.

Quem usa o termo Gestão está 500 anos atrasado.

Administrar não é mais mandar.

Nem dirigir os estoques para serem colocados aqui e ali.

Nem dirigimos, não somos mais dirigentes nem diretores.

Somos criadores de sistemas, adoramos empresas que andam sozinhas, delegamos, treinamos, damos poder a nossos colegas contratados.

Gestores querem gesticular sobre tudo.

Dão ordens, dão murros na mesa.

Gritam para subordinados que não cumprem as ordens.

É o estilo Comand and Control das organizações militares.

Se você usa ainda o termo Gestão, cuidado.

Você está mostrando para todo mundo que acredita que administrar é dar ordens para subordinados.

Eu jamais lhe contrataria.

Algo para se pensar.

Mas, tudo bem, é só uma questão semântica… Vamos ao que realmente interessa.

Com as seguintes afirmações tiramos uma conclusão: Com este curso, você estará apto a gerenciar e administrar tal setor dentro de uma empresa aérea! Incrível!

Quantos de vocês viram uma casa que foi construída a partir do telhado?

Com essa pergunta espero que vocês entendam que o curso de Aviação Civil não é nenhuma fórmula milagrosa para ingressar na Aviação Civil, no momento em que escrevo, junho de 2013, a Aviação Civil está saturada de mão de obra, e quem está na empresa não quer sair, concluindo, você não vai ingressar na Empresa Z como gestor de um tal setor, você tem que começar por baixo, muito por baixo! Experiência você adquire com trabalho e conhecimento com estudo (não estou querendo ser literal na frase).

Mas como eu sempre digo, seja qual for a profissão, a área, setor … enfim, quem manda é o mercado!

Este trecho é meio enigmático para mim, mas pelo pouco que pude captar, o que o autor quis dizer com a analogia da casa e do telhado é que a gestão seria a base, o alicerce da carreira de piloto (chegar a comandante seria o telhado?). E que como o mercado de trabalho para pilotos está difícil, o melhor mesmo seria começar como gestor (aqui entendido como agente aeroportuário ou algo do gênero), para depois alcançar o cockpit da aeronave. (É isso mesmo, Igor, o que você quis dizer?).

Bem, eu não vejo assim. Eu ainda acho que, para quem quer ser piloto, a prioridade deve ser… Pilotar! E isso é dispensável para um bacharel em Aviação Civil – que, de acordo com as regras do curso, pode se formar sem nunca ter voado uma única hora (ou estou equivocado?). Mas a gestão, que pelo que você escreve, é o foco do curso, seria a sua grande vantagem…

É claro que você não começa a carreira de piloto como comandante master de A380, mas como copila de Seneca, como instrutor de aeroclube no interior, ou mesmo como despachante de táxi aéreo (que fica em terra, mas está a um passo de entrar no avião, e tornar-se copiloto assim que surgir uma oportunidade). “Começar por muito baixo” (como agente aeroportuário, por exemplo), e daí ir subindo na companhia até entrar no cockpit é uma das estratégias menos eficientes que existem para quem quer ser piloto profissional, em minha opinião. Porque a prioridade das companhias ao contratarem pilotos será sempre o profissional com experiência de voo (o ex-copila de Seneca, o ex-INVA…), e não o com experiência de empresa (o ex-agente de aeroporto ou de pista).

Outro ponto seria como foi citado entre aspas, citarei entre aspas, “empresas parceiras”, imagino que o uso delas deve ter um motivo irônico.

Não é irônico, não: as aspas estavam lá devido à necessidade de explicitar que o termo “empresas parceiras” veio do site da UAM. Porque eu o acho tremendamente capcioso: “parceria” pode ser um monte de coisas, e o que muita gente pensa é que a parceria entre a UAM e a empresa X, Y, Z, etc. refere-se a alguma vantagem na seleção de pilotos – e não é. A Azul, por exemplo, possui um acordo com a FACA/PUC-RS que efetivamente dá prioridade aos formados naquela faculdade, num esquema parecido com o “Programa ASA” (inclusive com acesso à linha de crédito do Santander para financiar as horas de voo). Mas a “parceria”, nesse caso, tem outra conotação, que você mesmo esclarece em seguida.

Então vamos citar tais parcerias, atualmente a Empresa Z possui turmas de Aviação Civil fechadas, somente para funcionários, a Empresa Y possuía turmas, e as Empresas X e W não possuem turmas fechadas mas cedem descontos de até 60% na mensalidade da faculdade para seus funcionários! Ou seja, ninguém paga nada de graça, isso é um claro investimento.

Logo depois algo realmente triste, pois nenhum estudo diz a qualidade de seu trabalho, e pelo que li, tais estudantes tem que concorrer a vagas de Agente de Aeroporto e Agente de Rampa, vejo essa frase como desmerecimento de tais empregos, essa parte eu já comentei logo no início com “a casa construída pelo telhado”.

Começando pelo fim: eu não desmereço nenhuma profissão, desde que exercida com dignidade – e agente aeroportuário ou de pista é uma profissão tão digna quanto a de comandante ou a de presidente da companhia. Mas, convenhamos: faz sentido você cursar uma faculdade cara como a UAM para, ao final, disputar uma vaga de agente de aeroporto ou de rampa, que usualmente requerem nível médio? Agora, terminando pelo fim: quem são os funcionários das turmas fechadas que você cita? Respondo: são os próprios agentes de aeroporto ou de rampa que estão sendo promovidos, na maioria das vezes, e isso faz todo o sentido. Aliás, para um agente que entrou na empresa somente com o nível médio, é um alto negócio obter um diploma subsidiado, que o vai permitir progredir na carreira. Mas estamos falando do caso de pilotos, que é bem diferente, e avaliando se faz sentido o curso para quem deseja ingressar no cockpit.

E sim, o curso de Aviação Civil forma teoricamente pilotos, como qualquer outro curso de Aeroclube, as horas de voo não estão inclusas, somente o Jet Trainer. O curso é um pequeno complemento para seu currículo de piloto, e hoje em dia já está se tornando necessário formação superior na área. Tal informação pode ser conferida nos sites de grande Cias aéreas.

Então, vamos lá:

  • Se “o curso de Aviação Civil forma teoricamente pilotos, como qualquer outro curso de Aeroclube”, então o curso do aeroclube é muito mais eficiente: ele é mais rápido, e bem mais barato.
  • Se “o curso é um pequeno complemento para seu currículo de piloto”, é o caso de se perguntar: vale a pena tanto investimento em dinheiro e em tempo para se obter somente um pequeno complemento?
  • Sim, cada vez mais o nível superior é um item “desejável” (nunca “obrigatório”), mas normalmente é QUALQUER diploma de nível superior, não necessariamente na área de aviação (o que inclui os cursos “genéricos” em universidade pública e gratuita). E, quando as companhias especificam que deva ser um curso na área de aviação, a preferência usualmente recai sobre o bacharelado em Ciências Aeronáuticas…

E para finalizar, irei citar uma pergunta e respondê-la: “Mas o que é um aluno com graduação em Aviação Civil e sem brevê? Ele não é piloto para pilotar, nem administrador para administrar, nem engenheiro para atuar na área de manutenção… O que ele é, afinal?”

Tais alunos são gestores.

Pois é… São gestores. Não são pilotos, como os formados em Ciências Aeronáuticas. E nem administradores, como os formados em Administração de Empresas. É justamente esse o ponto do meu artigo original.

– x –

Agora, deixe-me dizer o que penso sobre o curso de Aviação Civil livremente, sem estar amarrado ao artigo do Igor ou à carta do leitor:

Ao contrário do que possa parecer, eu não sou um inimigo do curso de Aviação Civil. Na verdade, eu acho que ele pode ser uma boa escolha, mas o problema é que o curso é compreendido de maneira equivocada por muita gente, e é somente este aspecto que eu combato. Já perdi a conta, por exemplo, dos leitores que me escreveram dizendo que vão fazer o curso, e depois “ver como vai dar prá fazer as horas de voo”… Ora, é justamente o contrário: se o objetivo é ser piloto, o sujeito deve se concentrar nas horas de voo, e depois “ver como vai dar prá fazer a faculdade”! Ou então essa estratégia (ao meu ver, equivocada), de tentar chegar ao cockpit começando pela gestão, que é bastante disseminada…

Mas, para quem está consciente de que a prioridade deve ser sempre a formação de piloto, e do verdadeiro escopo do curso de Aviação Civil, ele pode ser uma boa opção, sim. Ele realmente dá uma visão muito mais ampla da Aviação Civil, o que pode ser muito útil especialmente no longo prazo, na disputa por um cargo de chefia. Ele é um curso de nível superior, que abre as portas para uma pós-graduação interessante para a carreira. Ele é uma ferramenta de networking eficiente, também. Enfim, eu acho que o curso é interessante, mas deve ser muito bem entendido para evitar decepções, como foi o caso do leitor que me escreveu.

 

 

 

 

 

9 comments

  1. Pedro
    4 anos ago

    Essa visão sectária que muitos têm sobre a Aviação Civil da UAM parece ter uma origem: o achismo. Sou aluno e não vou ficar colocando o curso no pedestal, muito longe disso, já que temos alguns problemas administrativos por parte da Universidade (que não vou entrar em detalhes, pois roupa suja se lava em casa). Mas se basear em relatos isolados não é suficiente para formar e divulgar uma opinião que parece ser tão sólida.
    Que a Anhembi Morumbi não é uma instituição de nome, todos sabemos. O ingresso é tão fácil que acabam entrando muitas pessoas que sequer parecem ter capacidade de se sustentar em uma instituição de nível superior. Mas acreditem: o próprio curso faz o favor de “expulsá-las” até o término.
    O grande diferencial ali dentro é o aluno. O curso dará os meios necessários pra agregar conhecimento e se destacar, inclusive nas áreas administrativas. Quem faz o seu, se desenvolve na área, corre atrás e não fica com a bunda no computador esperando oportunidades milagrosas de estágios, por exemplo, se dá bem. Muita gente ali dentro já conseguiu as suas. O mercado está longe de ser meritocrático, mas nessa área que a gente escolheu, o suor é indispensável para crescer.
    Além de que, ao término do curso, um MBA ou uma pós com maior foco na administração dará toda a capacitação necessária para os alunos almejarem maiores cargos nas empresas. Alguns executivos de alto escalão nas aéreas são formados, pasmem, em Aviação Civil pela Anhembi Morumbi.
    Concordo que é necessária uma melhor condição financeira para cursar AVC caso o objetivo principal do aluno seja a pilotagem. Porém, se há condições de conciliar os dois, vejo, sim, motivos para fazer o curso.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Pedro, leia a parte final do meu artigo, e veja que eu penso de maneira muito parecida à sua.

    • Chumbrega
      4 anos ago

      “Alguns executivos de alto escalão nas aéreas são formados, pasmem, em Aviação Civil pela Anhembi Morumbi.”

      Poderia, a título de exemplo, citar um?

      • Pedro
        4 anos ago

        Cmte Harley, diretor de Safety de Tam, Adalberto Bogsan, vice-presidente técnico da Gol…

  2. Igor Comune
    4 anos ago

    Raul, primeiramente, parabéns pelo “comentário” do meu artigo, espero fazer a “tréplica” logo, dessa vez será algo mais voltado a “realidade”.

    Somente corrigindo o Sr. Fábio logo acima, a palavra é preferência ao invés de exigência.

    Att,
    Igor Comune.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Muito obrigado, Igor! E fique à vontade para expressar o seu ponto de vista sobre o que escrevi. Mi casa és su casa!
      Abraços,
      Raul

  3. Chumbrega
    4 anos ago

    Raul, bom texto e boa resposta.
    Não conheço a UAM, nem o curso de AC deles. Tenho alguns conhecidos que fizeram: bons pilotos, boas pessoas, bons colegas. ENTRETANTO, em minha (humilde e pessoal) percepção NENHUM preparo para exercer a função de gestor (???) de grande companhia aérea. Vou um passo além: procure o perfil dos grandes executivos das aéreas no Brasil:
    (engenheiros, pessoas da área de gerenciais, pilotos com 30 anos de experiência, oficiais da reserva da FAB que, ao longo da carreira, tiveram experiência em administrar bases, esquadrões, destacamentos e etc). Na alta administração das companhias que conheço, não tem ninguém formado em AC, e muito manos na UAM.

    Você, leitor, que quer ser piloto, procure a FAB: você presta um serviço ao país, tem seu treinamento pago, tem seu curso superior e pós pagos, e emprego seguro e estável por 30 anos. Você entra com 20 (na maior parte dos casos menos), sai com50 e ainda consegue voar 15 anos na comercial, isso ganhando R$ 10 mil de aposentadoria como coronel. Não gaste grana com curso superior em aviação civil, pois não agrega NADA que você não possa fazer por fora.

  4. De onde ele tirou que “todas as grandes cias. aereas jah estao exigindo curso superior”? Serah que estamos no mesmo planeta? Algumas podem ateh considerar “desirable”, num “cadet program” (copilotos – entry level) dar preferencia a quem tem o Bac em Ciencias Aeronauticas, mas nenhuma empresa (principalmente da Asia e/ou Oriente Medio, que sao as de mais alta demanda, por razoes conhecidas) sao loucas de “exigir” curso superior. Sem exigir, jah estao no sufoco, imagina se exigissem. Inclusive muitas ateh desistiram de exigir current & recent no equipamento, horas minimas PUC on type etc., e estao pegando ateh aviador non-rated, soh exigindo certas marcas de qualificacao / experiencia. Ao contrario do que ocorren nesta pobre republiqueta, aih fora o mercado reativou-se relativamente rapido. Para quem preenche os requisitos, eh claro…

  5. Beto Arcaro
    4 anos ago

    Falou tudo Raúl!!
    Mais uma do “Gurú” Dick Collins, sobre o acidente da Asiana!!
    Mais uma que veio à calhar:

    http://airfactsjournal.com/2013/07/the-asiana-crash-rampant-speculation/

    Não tem o quê falar!!
    Nem acho que seja “Especulação” como o Dick humildemente coloca.
    Será que vamos nos transformar em “Gestores” como os Coreanos?
    Será que vamos “Decorar, Ordenar, Acatar”, ficando incapazes de performar uma simples Aproximação Visual?
    E olha que a gente nem tem 3000 anos de “Cultura Educacional”, hein !!
    Voar que é bom….

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