[Editorial]Os demitidos não foram “eles”; fomos NÓS!

By: Author Raul MarinhoPosted on
450Views7

Neste momento delicado por que passa a aviação, com o anúncio de uma nova onda de demissões em massa de tripulantes na TAM, gostaria de relembrar um texto publicado no post “Sobre o ‘silêncio dos bons [aviadores]‘” no final de 2012, escrito no contexto da implantação do nazismo na Alemanha da década de 1930:

“Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar.”

Pois é… Um dia, foram os tripulantes da Gol que foram demitidos, e ninguém mexeu uma palha – afinal, o problema era com eles. No outro, o pessoal da Webjet é que foi para a rua, mas é coisa da vida, né? Fazer o quê? Agora são os da TAM… E, ao que parece, quem não é daquela companhia está pouco se lixando para o ocorrido. O problema, meus caros, é que em nenhum desses casos foram “eles”, os demitidos! Sempre somos NÓS!

No seminário do Contato Radar na semana passada, na palestra do Cap. Silveira, do SERIPA-IV, eu ouvi um relato sobre algo que me chocou (e olhem que eu sou casca grossa, é muito difícil algo me tocar). De acordo com ele, havia um representante de um operador aeronáutico no ‘crash site’ de um acidente em que falecera o comandante da aeronave, e o telefone dele tocou. Era um piloto perguntando se, após aquele acidente, haveria contratação de tripulantes para preencher a vaga. O comandante da aeronave acidentada estava com a cabeça estraçalhada no chão, e enquanto isso o “colega” esfregava as mãos pensando na oportunidade que se abria… É isso o que queremos para a nossa categoria?

Ontem, houve uma manifestação contra as demissões em Congonhas. Não estava lá, e quem esteve me corrija, mas será que havia alguém da Azul, da Avianca, da Gol entre os manifestantes? Eu duvido… Aliás, eu ouso dizer que mesmo os funcionários da TAM que se sentem pouco vulneráveis no atual processo de cortes estão pouco se lixando para o que está acontecendo com a “molecada”. Porque é assim que a coisa funciona na aviação: “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”, e dane-se o outro.

Mas é hora de parar com isso, pessoal! A gente precisa mudar essa maneira de pensar! Os demitidos da TAM não são “eles”; somos NÓS! A gente precisa entender que se nos omitirmos quanto ao problema “deles”, estamos abrindo caminho para sermos os próximos da fila. Senão, daqui a pouco “não vai haver mais ninguém para reclamar”!

 

 

7 comments

  1. mararubia moraes
    4 anos ago

    Excelente matéria.
    Quanto a futuros demitidos estarem constando na escala, isso aconteceu na GOL, e é desumano e põe em risco a segurança de voo! Muito bem colocado: NÃO SÃO ELES – SOMOS NÓS! !!

  2. Benito
    4 anos ago

    Como sempre, sábias palavras Raul! (aliais estou com uma dívida que nunca pago com você!)

    A história se repete.

    Os culpados de sempre são eleitos e profanados aos 4 cantos, Governo, Empresários Inescrupulosos, Chilenos, Imprensa, Sindicato e afins…

    Mas, como no caso da Gol, alguns vão se mobilizar, o Sindicato vai tentar negociar, a ABRAPAC tentára agir, meia duzia pedirá a intervenção do MPT em prol da segurança do vôo….

    Mas o fato é que a CC não vai ser cumprida pela LATAM que demite aqui e contrata no Chile.

    E o SNA sem o seu maior poder barganha que é a possibilidade de mobiizar a categoria vai somente minimizar prejuízos e buscar via judicial….

    Assim como o MPT….

    Só que a via judicial demora, não garante os empregos e só quem lucra são os advogados, pois para empresa não passa de um passível administrável que inclusive já foi equacionado na hora de tomar a decisão.

    Ainda que a justiça determine a reintegração, quando os efeitos desta medida se operarem (com o trânsito em julgado da decisão, que pode demorar anos) a situação fática já estará resolvida e a grande maioria dos prejudicados já vai estar em outros empregos ou outros ramos, ou mesmo já vai ter voltado para a própria empresa, como na GOL recentemente.

    Para empresa é mais barato pagar as indenizações que cumprir a Lei.

    E o pensamento coorporativo é pragmático não humanista!

    E para isso ela conta com a desunião da categoria.

    Ela sabe que quem ficou vai agradecer por manter o emprego e quem saiu vai espernear um pouco, mas uma minoria entrará na justiça e os mecanimos de proteção legal dos trabalhadores são lentos demais.

    Parar a aviação para defender os demitidos e exigir o cumprimento da Convenção Coletiva ou melhores condições para o PDV é uma hipótese remóta.

    Em nome da segurança do voo (Que sem dúvida nenhuma é afetada) então ….quase uma utopia…..

    E se quem esta voando não para, não vai ser a ANAC, a SAC ou a Justiça que vão determinar isso…

    Mas em tempos de manifestações populare rândomicas, marcadas pela internet, quem sabe não ocorra um movimento que deixe os diretores da TAM sem resposta….assim como os políticos….

    Toda a Econômia que a TAM pretende fazer poderia ir por água abaixo com uma paralisação…

    Ou melhor com uma operção padrão como as defendidas no blog do piloto anônimo!

    Juridicamente além da Ação do Sindicato ou do MPT pedindo o cumprimento da convenção, se houvesse uma pulverização de ações dos prejudicados a empresa sentiria os efeitos econômicos antes…

    Enfim…as estratégias podem ser muitas…mas sem União…nenhuma será bem sucedida.

    Abraço!

  3. Faz parte do capitalismo selvagem que o empresariado brasileiro atualmente aderiu. Dane-se a vida dos outros, só a preservação do capital interessa.

  4. FVeiga
    4 anos ago

    Raul,
    Um dos seus melhores posts.

  5. Orlando
    4 anos ago

    Maravilhoso esse post sobre demissões! Porém, só deixo uma questão para reflexão: nas demissões da Gol quantos tripulantes de outras empresas, inclusive TAM, estavam presentes para uma manifestação?

    Tudo o que está ocorrendo na TAM, os pilotos da Gol passaram. Incertezas sobre a quantidade de demissões, sobre quem seria demitido, sobre como seria depois, enfim, a segurança de voo totalmente comprometida por decisões erradas. Sim erradas, pois não acredito que em menos de 1 mês que a última turma contratada tenha terminado o curso, comecem os cortes por sobra de pessoal.

    Culpados? Sim, vários e em vários níveis! Começamos pelo governo que protege as montadores de veículos (classe metalúrgica), passamos pelas empresas que sofrem a pressão pelos acionistas e empresários a fim de reverter prejuízos e termina em nós, funcionários (pilotos, comissários, despachantes, escaladores e todos os chefes que cometem barbáries para defender seus cargos), que passamos por cima de princípios e nos sacrificamos, muitas vezes dando nosso “jeitinho” para que o voo sempre termine com êxito (no horário e com segurança).

    Enfim, o grande ponto que quero tocar é a UNIÃO. A união que devemos ter nessa hora, para que representados por um sindicato forte, com embasamento legal, buscarmos todos nossos direitos, que foram se perdendo durante esses anos. Protestos (legais), são sempre válidos e devem contar com o apoio de todos. Vamos esquecer velhas (e novas) distinções entre VARIG, VASP, TRANSBRASIL, TAM, GOL, AZUL, AVIANCA, TRIP E WEBJET. Vamos resgatar o respeito da categoria AERONAUTAS nos protegendo juntos!

  6. Rodrigo Edson
    4 anos ago

    Raul

    Bom dia!

    Sobre as “possiveis” demissões (falo possiveis, pois não sei bem ao certo quantos e como serão as demissões), considero preocupante o fato de muitos estarem na escala e “saberem” que serão demitidos.

    Falo isso como Segurança de Voo. Imagine o estado emocional desses profissionais? Será que isso foi analisado?

    Como amigo de vários profissionais que lá estão, cabe-me apenas lamentar a forma como são (pilotos e comissários) tratados nas crises.

    Tive uma professora que era diretora de uma multinacional e quando essa empresa entrou em crise, a primeira coisa que fizeram foi… reduzir os gastos com diretores, cortando bonificações e viagens/diárias desnecessárias. Resultado: ninguém demitido.

    Por que não fazem o mesmo? Por que a solução é sempre a demissão e não o corte do “luxo”?

    Abraços

    Rodrigo

Deixe uma resposta