Algumas considerações sobre as demissões na TAM

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Bem, agora que está mais claro como deverão ocorrer as demissões de tripulantes na TAM, gostaria de fazer algumas considerações sobre o caso:

  • Diferenças em relação às demissões da Gol/Webjet de 2012

Recuperem as notícias da época das demissões da Gol/Webjet, e comprovem vocês mesmos como, desta vez, o empregador foi muito mais respeitador dos direitos dos empregados do que na outra oportunidade. Não quero dizer com isso que o comportamento da TAM foi exemplar, mas que foi muito melhor do que o da Gol/Web, disso não tenho dúvidas! É claro que há diferenças de gestão entre os dois grupos econômicos, e os casos não são exatamente iguais, mas o que eu acredito que foi a o fator mais importante para que ocorresse essa distinção foi o SNA, que agora possui uma diretoria completamente diferente da do ano passado. A ação do SNA no caso TAM tem sido assertiva, firme, e extremamente profissional, completamente diferente do que ocorreu no ano passado – a meu ver, titubeante, ingênua, e amadora. Parabéns ao Marcelo Ceriotti e sua equipe, portanto!

  • Se as tripulações estavam trabalhando com pouca folga, o que deve acontecer com a TAM?

Diversos tripulantes que trabalham na TAM têm me falado que o atual regime de escala na companhia não está nada folgado. Em sendo assim, a demissão de um contingente significativo de tripulantes, como é o caso, deve significar uma redução significativa na oferta de voos da companhia. O resultado é que, ao que parece, a TAM estaria desistindo de lutar para se manter na liderança da aviação brasileira, será que é isso mesmo? Ou há alguma coisa nesta história que eu não estou percebendo?

  • A provável onda migratória que se seguirá e o que isso representará para a aviação no longo prazo

Sabemos que grande parte dos comandantes ora demitidos irá acabar encontrando uma recolocação fora do país. Um profissional habilitado a comandar um A320 consegue obter uma remuneração da ordem de US$230mil/ano (equivalente a R$44mil/mês, com US$1,00=R$2,30) na China, que é mais que o dobro da média salarial dos atuais comandantes da TAM (que é a companhia que melhor paga no Brasil). Dificilmente esses profissionais retornarão ao Brasil quando as coisas melhorarem por aqui – mesmo porque, por mais que melhorem, duvido que o salário pago no Brasil chegue perto da média acima citada. Resultado: na próxima vez que a aviação passar por uma fase positiva, não vai haver profissionais qualificados para dar conta do recado, e isso deverá ser um grave limitante para o crescimento da aviação no futuro. Ou seja: estamos exportando formação altamente qualificada agora, que nos fará falta no médio/longo prazo, esse é que é o problema.

  • A grande vencedora: Avianca

Fora a TAM, a única outra companhia que utiliza os jatos da família A320 no Brasil é a Avianca. Logo, é esta a companhia que poderá absorver os pilotos demitidos da TAM – e vocês já imaginaram a economia de recursos em treinamento que isso irá representar?

  • O sepultamento definitivo do “apagão de pilotos” – Ou: nunca esteve tão propício para iniciar um processo de formação aeronáutica!

Finalmente, há que se comentar que, com esse processo de demissões na TAM, acabou o espaço para a imprensa falar em “apagão de pilotos” – que nunca houve, de fato, mas que insistia em aparecer em reportagens há até bem pouco tempo. Na realidade, já começaram a aparecer notícias em sentido contrário: que o mercado aeronáutico está saturado, que está ocorrendo um êxodo de pilotos, etc. – e o resultado deverá ser uma fuga em massa de alunos dos aeroclubes e escolas de aviação. O resultado disso: nunca esteve tão propício começar a aprender a voar como agora! Os aeroclubes e escolas fizeram elevados investimentos na aquisição de aeronaves recentemente, e para não deixá-las paradas, eles terão que baixar os preços da hora de voo (sem contar que a remuneração dos INVAs deverá permanecer irrisória). Por outro lado, é bem possível que aqueles que iniciarem a formação neste momento encontrarão um mercado bem melhor daqui a 3, 4 anos, quando estiverem formados. Então, a hora para investir numa carreira de piloto é agora!

Ocorre que os alunos de aeroclube agem exatamente como os investidores amadores das bolsas de valores: quando o preço das ações sobe, eles compram; e quando a bolsa cai, eles vendem… Quando deveria ser exatamente o oposto, em ambos os casos.

13 comments

  1. Rodrigo
    4 anos ago

    Eu deixei de entrar na fazê do dólar de quase 3 conto e me arrependi.
    Estou checando PCH e crise temos em todos os setores. E são ciclos….

  2. Ótimo post!!

    Semana passada quase “desisti” do meu sonho de ser piloto por tudo que está acontecendo com a aviação nacional, tam, rbac etc!!

    Fui em uma facul pra me matricular em um curso de eng, pois não sou rico eu que banco minhas horas de voo e convenhamos essa rbac F** a nossa vida!

    Porém fiquei pensando, o que será de mim fora de um avião? NADA!!

    Vou continuar meu PP falta pouco pra acabar, vou pro pc e vou pra cima de tudo, com as minhas possibilidades financeiras acabo todas essas horas de voo incluindo a nova rbac daki uns 04 anos, até la o mercado deve estar melhor.

    E pensei a mesma coisa, provável que muitos aeroclubes irão abaixar o preço das horas de voo!! ou seja vai compensar, quando se faz por amor compensa!

    Jamais vou desistir do meu sonho e espero que ninguém aqui desista pq quem é do céu jamais deve ser da terra!!

    Forte Abraço!!

  3. João Franco
    4 anos ago

    Olá Raul, bom dia…

    Ótima reflexão, exatamente é isso mesmo que está ocorrendo, posso garantir que está com completa razão uma vez que trabalho com os dois cenários. Um como comissário da Tam, vendo essas mudanças aqui. E outro como instrutor de voo, paralelamente a Tam a quase um ano. E sentimos muito a diminuição dos alunos.
    Todos nós profissionais da aviação, sabemos que a aviação é de sete em sete anos, toda vez que está em baixa quando vem a pico, ninguem consegue segurar o mercado pela falta de profissional qualificado.
    Mas, enfim, temos que ser lutadores, estudar, qualificar cada vez mais, sempre pensando com a possibilidade de voar fora do Brasil. Não só a aviação, mas a vida no Brasil está muito difícil, principalmente com o PT, no governo. Forte abraço.
    Parabéns pelo site!…

  4. Chumbrega
    4 anos ago

    Em tempo: a percepção de fato e q as demissões estão sendo conduzidas de forma um pouco menos desumana q na gol. Mas ainda tenho duvidas se isso pode ser imputado ao SNA. Outra coisa Raul: pq vc não tenta entrevistar o Ceriotti? Acho q seria de grande valia ouvir o q ele tem p dizer não só sobre esse tema,mas sobre tudo.

  5. Chumbrega
    4 anos ago

    O mais impressionante disso tudo e q o Governo (não estou falando da Dilma,ou não So dela,mas da corja toda, oposição inclusive) não esta nem um pouco interessado em viabilizar a aviação como negocio,e quem se F0d3 e sempre o tripulante.
    E a administração das companhias não protesta,ao contrário de qualquer outro concessionario de serviço publico. Quem deveria ser a cabeça pensante da industria ta mais p avestruz. A cabeça covardemente enterrada “na chon”

  6. Juliano
    4 anos ago

    Raul, perdoe me desviar do assunto, como eu disse a voce esses dias, sou novo aqui e estou gostando muito do blog, por isso estava lendo os post mais antigos, e achei um interessante, onde diz que as hs voadas em um RV 10 nao contam para PC, isso ficou claro, porem fiquei com uma duvida, essas hs contam para somar APOS o PC ? Na verdade o aviao que eu posso usar para isso eh um RV 6. Muito obrigado desde ja.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      As horas voadas em aeronave experimental (RVs, por exemplo) contam como horas totais independente da licença que o piloto tenha; tanto faz PP, PC ou PLA.

  7. Bom….concordo em partes, e por partes. Entrementes, perguntas que não querem (e jamais irão) calar:
    1)- do contingente de demitidos, quantos possuem proficiência lingüística para ir para fora (além de idade / saúde / paciência / vontade etc)?
    2)- desses, quanto agüentarão viver na China Continental? Na prática – culturalmente falando – existem 4 Chinas. Uma coisa é Macau. Outra é Hong Kong. Outra é Taiwan. E outra é a “Mainland China”. O funil é grande. Pouca gente se adapta (I’ve been there);
    3)- Likewise, com ref a outras regiões de cultura bem diferente da nossa, como Coréia, Japão, países do Golfo Pérsico etc.

    Sumarizando: pode até haver um grande “êxodo”, até por uma questão de falta de opção, neste primeiro momento, mas (1) raramente é grande como se imagina e (2) jogo uma caixa de cerveja Sul Americana que – ao 1o. vento a favor aqui na nossa Aviação – grande parte do contingente volta correndo, pq muitos não agüentam a doença chamada “Banzo”.

    Enfim, cada um tem uma percepção da vida e das coisas, além do que cada um sabe onde se lhe apertam os calos. Pessoalmente, já fui “expatriate” por quase 10 anos e – se o Bom Deus me ajudar (como sempre ajuda) – espero voltar a sê-lo em breve. No que estiver dentro do meu modesto alcance, no sentido de auxiliar os colegas “marinheiros de 1a. viagem”, me coloco desde já à disposição. Boa Sorte a Todos.

    • Enderson Rafael
      4 anos ago

      É que com 260h é inviável, mas concordo totalmente em voar e viver fora. Meu banzo é totalmente de lá, e não o contrário. Nem tudo é perfeito pra expat, claro, mas dificilmente vc irá parar num país com 60mil homicidios por ano. Aliás, impossível. Só aqui mata-se tanto. O Brasil sempre foi ruim, mas antes pelo menos tinha emprego. Agora, nem isso…

    • Löhrs
      4 anos ago

      Fábio Otero, aproveitando a deixa, existe alguma possibilidade lá fora pra quem é da executiva e voa turboélice? Até para a Africa já mandei CV (em inglês) e nada. Algum comentário?

  8. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Raul, qto à JJ estar abandonando a liderança do mercado nacional, o buraco é mais embaixo. Ou melhor, o buraco fica do outro lado dos Andes. E se abandonar a liderança significar recuperar a rentabilidade, é a escolha correta. Mas vc bem sabe: no longo prazo estaremos todos mortos.

    • Xlife
      4 anos ago

      Caro Enderson,
      Alem dos números da violência (transito e homicidios) que tiram a vida de mais de 100.000 brazucas por ano. O profissional da aviação ta sempre na corda banba. Quando está bom ta bom, mas quando ta ruim tem que lidar com colegas se prostituindo, concorrendo deslealmente pelas minguadas vagas. Os pilotos que vão voar fora (conheço muitos), só voltam por questões de família. O BR é a maior escola de aviação para as empresas de fora. Triste realidade.

      • Xlife
        4 anos ago

        *bamba

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