“Questão cultural”, brigadeiro? Como assim???

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Leiam essa matéria publicada na Folha de hoje – “Um terço dos acidentes aéreos envolve irregularidades” – e atentem especialmente para esse trecho, que reproduz a posição do brigadeiro Luís Roberto do Carmo Lourenço, chefe do CENIPA, em entrevista concedida ao jornal no Simpósio Nacional de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, que ocorreu em São Paulo neste final de semana:

Questionado se os dados reforçavam a ideia de falta de fiscalização, o brigadeiro disse que essa questão era atribuição da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e que não teria como comentar. Mas afirmou que é uma questão cultural que tem a ver com o “jeitinho brasileiro”.

“Questão cultural”, brigadeiro!!!??? Esse é um bom argumento para mesa de bar, não para um especialista em segurança de voo (a maior autoridade do país no assunto, por sinal) falar numa entrevista. Praticamente qualquer coisa se encaixa nessa explicação culturalista: homofobia, violência doméstica, corrupção, delinquência infantil e juvenil, desrespeito ao meio ambiente… Imagine se os especialistas e as autoridades nessas áreas justificassem a situação como uma “questão cultural”!!! Ao invés de fazer com que uma Lei Maria da Penha seja efetivamente cumprida, por exemplo, o que aconteceria se as autoridades em segurança pública se lamentassem, dizendo que bater na mulher faz parte da “cultura machista brasileira”?

Que o problema do desrespeito às regras é uma “questão cultural” na aviação, eu não tenho dúvidas – isso, na verdade, é o que de mais óbvio pode ser dito sobre o tema. Mas, e aí, como lidar com esse traço da cultura brasileira? Existem inúmeras questões a serem discutidas quanto a isso: Mais educação aeronáutica? De que forma: exigindo curso superior para pilotos? (E isso vai resolver alguma coisa?) Melhores critérios de seleção, com testes de personalidade mais acurados? Mais fiscalização? OK, mas como? Implantando um FOQuinhA compulsório para a aviação geral? Ampliando o DECERTA? Contratando INSPACs em massa? Leis mais duras para quem transgredir as normas da aviação? Mecanismos de controle mais eficientes nas oficinas, com um SMS realmente efetivo? Percebem como há um enorme número de questões a serem discutidas sobre o assunto? E esta seria a oportunidade de ouro para tocar nesses pontos na imprensa – não é todo dia que um jornalista está disposto a escrever sobre segurança na grande imprensa.

11 comments

  1. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Realmente é uma questão cultural. Mas a falta de fiscalização, de iniciativas de alto impacto sobre a comunidade aeronáutica, e a existência de burocracias desnecessárias e idiotas e regulamentos excessivos e confusos (qualquer piloto americano sabe de cabeça os 5 documentos que um avião precisa ter a bordo. São poucos os pilotos brasileiros que não precisem olhar um checklist pra lembrar tudo – aqui são 12 ou 13, se não me engano) são a chave pro desastre que é isso aqui. Como o Fabio Otero disse, gente tosca tem no mundo todo: o que precisa existir é maneira de coibir os toscos. Nosso país não tem conserto sequer no médio prazo, mas pelo menos a aviação, poderíamos tentar. Mas pra isso, precisamos antes de tudo de uma ANAC que funcione, de um CBA simples e consistente, de um DCEA acessível e estável, e claro, numa outra frente, de escolas sérias desde o começo. E na boa, dar instrução de PP e PC em aviões que não passariam num simples peso e balanceamento não é um bom começo. O cara desde o princípio percebe que infligir um pouco a regra não vai matá-lo, e vai abusando – aliando isso, claro, à costumaz impressão de imortalidade dos jovens – e o resultado é um somatório de coisas que sim, o matará mais pra frente. No fim, estamos sujeitos aos nossos empregadores, mas em última instância, às decisões das nossas tripulações. Decisões que podem custar o emprego, a carreira, ou a vida. Mas que precisam ser tomadas. Se todo mundo fizer sua parte, o todo aparece.

  2. Sergio Mauro Costa
    4 anos ago

    Uma vez mais o assunto é apresentado à imprensa através de números absolutos.
    Curiosamente, o mesmo órgão, que trata os acidentes na aviação regular através de números relativos (número de acidentes por horas voadas ou por número de operações executadas) insiste em fazê-lo, no caso da aviação geral, através de números absolutos.
    Possivelmente, devido às dificuldades em obter dados.
    Assim, não entendi o porque de o brigadeiro estar com vergonha dos 103 acidentes.
    Eu não sei se 103 é muito ou pouco.
    Claro que, quanto menos, melhor. Mas daí a ficar com vergonha…
    Quanto às irregularidades encontradas e relatadas, também não consegui tirar uma conclusão.
    Carteira de piloto ou CA de aeronave vencidos não derrubam, necessariamente, avião.
    Isto me lembra os resultados das inspeções da Anac.

    • Enderson Rafael
      4 anos ago

      Os EUA tem uma frota 11 vezes menor e apenas o dobro do número de acidentes. É uma boa referência.

      • Enderson Rafael
        4 anos ago

        Corigindo, 11 vezes maior, com o dobro de acidentes.

  3. Raul Marinho
    4 anos ago

    Eu concordo que a entrevista pode ter sido mal feita, e se tiver informações sobre outras ações propostas pelo CENIPA além de mexer com a “questão cultural”, terei o maior prazer em escrever sobre isso. Mas eu duvido que o brigadeiro não tenha dito o que o repórter publicou, e convenhamos: qual foi o ponto alto do evento do CENIPA? Não foi, justamente, o lançamento do tal gibi do Maurício de Souza, focado na tal “questão cultural”? (Nada contra o gibi, mas acho que é uma ação menor frente ao oceano de coisas que têm que ser feitas em termos de segurança de voo no Brasil).

    Eu tenho o maior respeito pela instituição CENIPA – e, especialmente, pelos profissionais do SERIPA-IV, que conheço pessoalmente, e sei que são pessoas de extremo profissionalismo e dedicação. Mas vejo um certo acanhamento nas ações do CENIPA, muito medo de magoar a ANAC, de ferir susceptibilidades… E o custo deste “respeito” está saindo muito caro para a aviação: são centenas de vidas perdidas todos os anos!

    É claro que há “questões culturais” por trás do elevado índice de acidentes no Brasil! Mas, e aí? Vamos resolver o problema com um gibi? Ou com palestras num simpósio anual? No ano passado, houve uma palestra do SERIPA-IV em um determinado aeroclube do interior de São Paulo num domingo, e na 2a feira um INVA daquele aeroclube deu rasantes sobre o pátio do aeroclube só para “marcar posição”, de que ele estava se lixando para a palestra da véspera. E, pior, o presidente do aeroclube, quando soube do ocorrido, deu risada, e não puniu o INVA… Por isso, o que eu acho é que é preciso haver um plano consistente e duradouro de ações de prevenção, acontecendo dia-a-dia nos aeroclubes, nas empresas de táxi aéreo, etc. Tem que ter um acompanhamento sistemático do trabalho, não só ações pontuais como palestras ou gibis.

    • Julio Petruchio
      4 anos ago

      Deixa eu advinhar… Esse aeroclube se situa em uma cidade cujo no se refere a “límpidas águas correntes”?!

  4. Concordo praticamente 100% com os 3 comentários anteriores, postados pelos colegas. Só gostaria de agregar o seguinte: negligência não é um privilégio do Brasil, mas aqui no nosso país a incidência da mesma é realmente espantosa (principalmente para quem, como eu, passou quase 10 anos trabalhando no exterior, em lugares de mentalidade, infraestrutura e condições operacionais infinitamente superiores). Diria que não é coisa inerente à “cultura”. É algo próprio da “falta de cultura” (e não apenas da falta de cultura aeronáutica). E também da falta de educação. O início da solução está lá nas origens, ou seja, nos aeroclubes e escolas. Acho que a depuração teria que começar por lá. Há muito aeroclube e escola por aí que se transformou em fábrica de indisciplinado, e – lamentavelmente – não vejo a autoridade coagir isso de maneira mais incisiva (para não dizer que não vejo coagir de jeito algum). Se as pessoas – durante a sua formação básica – são estimuladas a admirar certas estripulias e atos arrojados dos “ases de fim de semana”, o efeito tende a ser multiplicador depois, ao longo das carreiras. Lamento dizer que vi um pouco disso em quase todas as empresas brasileiras (inclusive de linha aérea regular) pelas quais passei.

  5. FVeiga
    4 anos ago

    Raul, estou torcendo para o Jornalista tenha plantado essa frase (costumam fazer). E o Brigadeiro vá pra cima e acabe com esta “Questao Cultural” de jornalista que adora criar polemica transformando acidente aereo em Circo. Abortos do tipo “Boeing da TAM cai de bico apos piloto dizer que ia desviar da escola”…. Mas se o Brigadeiro realmente disse isso, mal! Era melhor ele, como autoridade, agir ao invez de falar….

  6. Júlio Petruchio
    4 anos ago

    Tem questão cultural sim. Na aviação: Os famosos “TACAS”, oficinas que dizem fazer manutenção e só assinam papeladas mas cobram o “preço de mercado”, piloto que adora uma “pelada” (procedimentos IFR onde não existem, as autoridades que se lixam para tudo isso aí e não cumprem com sua obrigação, outras que criam dificuldades para vender facilidades e mais alguns outros ítens que não me lembro no momento.

  7. Renan
    4 anos ago

    Não vi essa entrevista específica do Brigadeiro, mas de modo geral essa matéria da Folha está bastante imprecisa em relação ao que de fato ocorreu no evento. Só para ter idéia, segundo a matéria “aviação geral é a soma das operações comerciais e privadas”. Eu não recomendo fazer qualquer crítica tomando como base somente essa reportagem.

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