Para entender a atual crise na aviação

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Ontem, o leitor Higor postou, em seu comentário ao post “TAM corta 9% dos voos – Ou: Como era aquela história de que a aviação iria bombar por causa da Copa do Mundo, mesmo?“, um link para um vídeo institucional da Transbrasil de 1991, que segue reproduzido abaixo. Trata-se de um material interessantíssimo, com depoimentos do então presidente da empresa, Omar Fontana, e com explicações narradas pelo jornalista Joelmir Beting – ambos, infelizmente, já falecidos (na verdade, a própria empresa iria sucumbir 10 anos depois). O vídeo tem quase meia hora, mas em resumo ele relata os dois fatores que estariam por trás daquela que seria a maior crise da aviação até aquele momento: A)fatores macroeconômicos (preço do querosene e recessão internacional), e B)Competição desenfreada, com guerra de preços e desregulamentação. O resultado: prejuízos generalizados e demissões em massa. Alguma semelhança com o que hoje está ocorrendo?

Grande parte dos leitores deste blog não era nascida em 1991 – ou, se era, ainda não tinha idade para compreender o mundo em que vivia. Por isso, é normal que os mais jovens tenham uma sensação de ineditismo  quanto ao que hoje ocorre no mercado aeronáutico. Porém, não há nada de realmente novo agora: crise cambial e de escassez de petróleo, por exemplo, é o que de mais comum acontece no mundo; e recessões, então, nem se fala. O que era novidade naquela crise de 1991 (e que se repete agora, embora menos comentado) era a desregulamentação e a competição desenfreada (o grande vilão era, ora vejam!, o Canhedo, que acabara de adquirir a Vasp, recém privatizada). Mas, em essência, a atual crise não é muito diferente da crise de 1991: até a euforia dos anos anteriores se repete.

De 1991 para cá, outras crises vieram, como a do início dos anos 2000, que vitimou as três empresas mais citadas neste vídeo: Transbrasil, Vasp, e Varig (sem contar as diversas companhias regionais e de carga, que também sucumbiram). A TAM, que é citada como uma companhia em ascensão, hoje está no epicentro da crise, e a Gol e a Azul estavam longe de nascer, ainda. Ou seja: os atores eram, em sua maioria, outros; mas o enredo é praticamente o mesmo. O que significa que, por outro lado, outros períodos de crescimento e de euforia também acontecerão, é assim que funciona a aviação. Por isso, pessoal, nada de pânico: a situação está ruim, mas vai passar; isso já aconteceu antes!

Assistam agora ao vídeo da Transbrasil, que vale a pena!

9 comments

  1. Felipp Frassetto
    4 anos ago

    Logo que o Omar Fontana morreu, lembro de ter lido na revista Flap um texto de um colaborador próximo que trabalhou por muitos anos com ele. Sinceramente, não me recordo o nome.
    Porém ele dizia que o Omar se aborrecia muito em estar discutindo detalhes administrativos, financeiros e comerciais com sua equipe. Fugia disso sempre que podia. O que ele gostava mesmo era estar debruçado nos aspectos técnicos sobre qual avião comprar para qual rota, em quanto tempo, etc.
    Com certeza ele chegou onde chegou pelo amor à aviação. No entanto, ao presidir uma companhia daquele porte, dito amor deve sempre estar presente mas o aspecto dominante deve sim ser o administrativo. Não precisa tornar-se o estereótipo do executivo, porém, só o “sentimento” não traz lucro, bom desempenho e muito menos garante a sobrevivência de qualquer empresa que seja.
    Convém lembrar que sua família era rica e, embora com certeza não tenha sido a responsável direta pela criação e capitalização da empresa, certamente deve ter tido o seu papel. Ou seja: Omar pôde dar asas ao seu sonho, também e talvez principalmente por causa desse motivo, mesmo que tenha sido só no início da história da empresa.
    Ainda, acho que o Raul já pôs em algum dos seus posts algo como “a TAM só foi possível porque o Rolim ‘deixou’ de ser piloto” (pra tornar-se literalmente o administrador da empresa).
    Além disso, há o contra-exemplo máximo disso, diria eu, que foi o Maurício Novis Botelho, quem presidiu a Embraer já privatizada. Não era piloto e foi, em última análise, o responsável pelo salto de desempenho que ela teve.

  2. Higor
    4 anos ago

    Concordo plenamente com você Petersonramos, as declarações do Cmte. Omar Fontana são realmente emocionante, acho que quando uma empresa é gerida por um AVIADOR a tendência em as coisas darem certo é muito maior. Por que o comandante-presidente não está somente visando lucro acima de tudo, ele dislumbra sua paixão em voar.

    • petersonramos
      4 anos ago

      Encontrar um espirito que ame pessoas, que tenha Visão de negocio e amor pela aviação é uma raridade!! Por isso é tão importante uma empresa ser gerida por um conselho, já que é difícil encontrar algum talento assim. O conselho de administração de qualquer empresa aérea PRECISA ser composta tambem por aviadores.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Nos anos 1970/80, o Omar Fontana estava quase todo dia jogando sinuca no Aeroclube de S. Paulo. E era lá, na sinuca, que os jovens pilotos faziam a “entrevista” para entrar na Transbrasil. Outros tempo, né?

  3. Dedeco
    4 anos ago

    E a história se repete… Fantástico o vídeo!!

  4. Gilmar Da Luz
    4 anos ago

    Ótimo post, inclusive estou no grupo dos que não estavam nascido em 91 mas li um livro que relata muito bem tudo isso que aconteceu nesse período, recomendo a leitura, O sonho brasileiro de Thales Guaracy que inclusive descreve muito bem com uma linguagem simples os problemas enfrentados naquela época, esse livro é sobre a história de Rolim Adolfo Amaro. Claro que tem um pouco de sensacionalismo voltado pra TAM, mas para os mais jovens é muito bom pra conhecer a história da aviação brasileira e de nosso passado governo que não tem estrelas desde tempos de outrora.

    • petersonramos
      4 anos ago

      Esse livro tem uns episódios picantes em que demonstram a voracidade do Sr. Wagner Canhêdo na briga pela VASP e a sua cega vontade de praticar a concorrência ruinosa.

      Tirando o romantismo de lado, a leitura histórica com certa reserva é muito válida!

  5. petersonramos
    4 anos ago

    Me emocionei com a assertividade nas palavras do Omar Fontana. Existe ali um misto de amor, dedicação e fé pela aviação difícil de encontrar por aí…

  6. Rogério Aviador
    4 anos ago

    Ótimo post.

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