Resenha sobre “Gerenciando o Risco na Aviação Geral”

By: Author Raul MarinhoPosted on
637Views9

Gerenciando o risco na aviação geral

Num país com notórios problemas de cultura de segurança aeronáutica, especialmente na aviação geral (e mais especificamente ainda, na instrução básica de pilotos: os cursos de PP e de PC oferecidos nos aeroclubes e nas escolas de aviação do Brasil), é impressionante a falta de livros sobre segurança de voo (principalmente os editados no Brasil e/ou em português) direcionados a este segmento. Neste sentido, o lançamento de “Gerenciando o risco na aviação geral” (Ed. Bianch, 2013 – 125p.) é mais do que bem vindo: é uma necessidade! Ou, como diria um antigo professor de Regulamentos de Tráfego Aéreo do Aeroclube de São Paulo: “uma boa maneira de manter a pele rosada e a temperatura do corpo ao redor de 36,5°C”. Trata-se, resumidamente, de um livro de leitura obrigatória para quem leva a aviação a sério.


Os autores – Miguel Angelo Rodeguero, um profissional veterano da aviação (além de ser advogado e de possuir pós-graduação em Administração de Empresas); e Humberto Branco, administrador de empresas com mestrado em Política, empresário/empreendedor, e também piloto (veja o currículo resumido deles aqui) – foram muito felizes na produção de um livro que aborda um amplo espectro do tema da segurança de voo, mas sem entrar nas minúcias que poderiam cansar o típico piloto da aviação geral. Na realidade, o grande mérito do livro é justamente a boa dosagem da profundidade da maior parte dos temas de que trata (há algumas exceções, como veremos, mas nada que comprometa a qualidade do conjunto da obra), já que cada um deles, individualmente, poderia tomar um espaço muitas vezes superior ao do livro como um todo.

O primeiro capítulo do livro trata do “Programa de gerenciamento de risco e segurança na aviação geral”, uma interessante metodologia de treinamento em segurança de voo com quatro módulos: refreshment de IFR, CRM/SRM (Crew/Single-Pilot Resources Management), gerenciamento de emergências, e planejamento de cross-country flights. Para auxiliar no desenvolvimento do referido programa, os autores criaram um site denominado “Meu SOP” (www.meusop.com.br) que, como o nome sugere, auxilia na criação de um SOP-Standard Operating Procedures específico para cada operador e equipamento – por exemplo: se eu tenho um Bonanza, que utilizo basicamente para deslocamentos de até 500NM, preferencialmente em condições VFR, e costumo pousar em pistas de terra, eu vou lá e crio um SOP específico para este tipo de operação. Todos os módulos abordados neste capítulo são igualmente importantes para um bom nível de segurança de voo, mas eu diria que o segundo, sobre CRM/SRM, é particularmente interessante para um piloto que nunca tenha atuado na aviação comercial ou em táxis aéreos (o típico “piloto da ‘91’”). Isto porque, como este assunto não é abordado pelos programas oficiais dos cursos de PP e de PC atualmente em vigor no Brasil, um piloto só tem contato formal com CRM/SRM quando ingressa nos quadros de uma empresa da ‘121’ (aviação regular) ou da ‘135’ (táxis aéreos) – ou, muito raramente, na ‘91’ (aviação executiva) mais sofisticada. Ou seja: em grande parte das vezes, um “piloto da ‘91’” simplesmente não tem a oportunidade de ser formalmente treinado em CRM/SRM no decorrer de sua carreira na aviação executiva. E também porque é neste módulo que é explicada a importância dos SOPs (“Não há CRM aplicado sem SOP”, p.31) para uma operação segura, outro assunto estranho à maioria dos “pilotos da ‘91’”. (Vejam bem: não estou criticando os “pilotos da ‘91’”, de maneira nenhuma! É só uma constatação: CRM/SRM e SOP são siglas que não fazem parte do dia-a-dia da maioria dos profissionais que atua nesse segmento da aviação).

Depois, o livro esbarra no assunto “Principais causas de acidentes” em seu capítulo 2 (poderia ser mais profundo sobre isso, ensinando o leitor a estudar os Relatórios Finais do CENIPA, por exemplo), para ingressar em dois temas administrativos: “Gestão do risco e segurança operacional” (capítulo 3) e “Gestão de risco: fluxo básico para análise” (capítulos 4) – que, em minha opinião, poderiam ser fundidos em um capítulo único. Os autores também não se aprofundam muito nestes temas administrativos da segurança de voo, mas explicam razoavelmente bem uma ferramenta crucial para este tópico: o diagrama que cruza as probabilidades de ocorrência de um risco (frequente – ocasional – remota – improvável – extremamente improvável) com a severidade destes mesmos riscos (catastrófico – perigoso – maior – menor – insignificante), resultando em 25 possíveis combinações. Estas, por sua vez, compõem três zonas de resultados: vermelha (quando riscos muito perigosos são muito frequentes), amarela (riscos medianos que ocorrem menos frequentemente), ou verde (risco de baixa periculosidade e mais raros), o que mostra um panorama em grande angular muito interessante sobre o ambiente de riscos a que uma operação está exposta. Na realidade, se a metodologia deste diagrama for bem compreendida e utilizada, é possível gerenciar muito bem a vulnerabilidade a que a operação está exposta, que é o primeiro e mais difícil passo de uma boa administração de riscos para a aviação. Por isso, eu entendo que não havia necessidade, de fato, de aprofundar mais sobre este aspecto da segurança de voo no livro: se o leitor conseguir aplicar essa metodologia adequadamente, já estará de bom tamanho, a meu ver.

Em seguida, o livro aborda outro tema de extrema importância para a segurança de voo – “Tomada de decisões em operações aeronáuticas” (capítulo 5) – de duas formas diferentes. Primeiro, os autores desconstroem alguns dos principais chavões da filosofia-de-porta-de-hangar (por exemplo: “Cheklists são coisas chatas, para pilotos novos. Os que faço já estão decorados, então rapidinho eu os faço e às vezes nem precisa fazer, porque só de olhar sei que está tudo bem” – p.57). Depois, após uma breve consideração teórica sobre o assunto, o autor apresenta um modelo de construção de checklists de fácil aplicação prática, o que encerra o capítulo. É claro que poder-se-ia ter ido muito além em termos de teoria sobre ADM-Aeronautical Decision Making, mas eu acho que, assim como o comentado sobre o capítulo anterior, houve uma adequada profundidade de conhecimentos neste caso para um primeiro contato com o assunto.

Já o capítulo 6, que vem a seguir – “Gerenciando os principais riscos operacionais na aviação” (que, apesar do nome, não é igual aos assuntos abordados nos capítulos 3 e 4) – é, tanto quanto o capítulo 1, um texto extenso e que deverá requerer elevada atenção do leitor para ser colocado em prática. Na verdade, este não é um capítulo para ser lido, e sim para ser estudado, e requer muita reflexão do leitor, pois será necessário relacionar o seu conteúdo com a operação específica que o leitor vive no dia-a-dia o tempo todo. Quando os autores falam em gerenciar riscos operacionais na aviação, eles não estão brincando: é para gerenciar TODOS os riscos associados à operação aeronáutica MESMO! Isso inclui o conhecimento aprofundado dos limites da aeronave, o planejamento meteorológico, o uso de checklists, e por aí vai. Resumindo: trata-se de um capítulo para o leitor usar como guia por muito tempo no aprofundamento do nível de qualidade de sua operação, talvez por toda a sua vida de aviador.

O capítulo 7 – “Informações sobre segurança operacional” -, assim como o capítulo 11 – “Security: Salvaguardando a aviação civil contra atos de interferência ilícita” e o capítulo 12 – “Acidentes e incidentes aeronáuticos: normas em vigor” são interessantes em termos de cultura aeronáutica geral, mas não tão pragmáticos quanto os demais. Não que estes sejam dispensáveis, muito pelo contrário, mas a aplicação prática do que eles contêm não é tão direta quanto a apresentada nos outros capítulos. Vale ressaltar, entretanto, o conteúdo do capítulo 12 no que se refere à nova NSCA-Norma do Sistema do Comando da Aeronáutica Nº 3-13 – “Protocolos de investigação de ocorrências aeronáuticas da aviação civil conduzidas pelo estado brasileiro” –, recentemente publicada pelo CENIPA, em substituição às NSCAs 3-5 e 3-7, que é um assunto ainda pouco conhecido por grande parte da comunidade aeronáutica.

E, finalmente, os capítulos 8 – “Inspeções de Segurança” –, 9 – “Prevenção contra incêndio” –, e 10 – “Manutenção como fator essencial na prevenção de acidentes aeronáuticos” – são as demais subdivisões do livro que retornam ao pragmatismo da obra. Tratam-se de capítulos com textos específicos para lidar com cada um dos respectivos aspectos da operação aeronáutica (inspeções, prevenção contra incêndios, e manutenção) que ainda não haviam sido especificamente discutidos até então. Com isso, os autores alcançam todos os principais tópicos de segurança de voo que um profissional da aviação geral precisa conhecer.

Minha percepção é de que este não deva ser um livro definitivo sobre segurança de voo, pelo contrário: em minha opinião, este deve ser o ponto de partida para que um profissional da área se desenvolva cada vez mais no sentido de ter uma operação mais segura e racional. Ou, de acordo com o texto de sua introdução (p.21):

Todos são e precisam ser bons pilotos. Todos precisam saber avaliar as possibilidades, vislumbrar os perigos, identificar e analisar os riscos associados, trabalhar com as respostas dessa análise e decidir enfim como levar as máquinas sempre da melhor e mais elegante maneira de volta a seus hangares.

A intenção deste trabalho que ora apresentamos é ajudar os pilotos a conjugarem os verbos do parágrafo acima da melhor maneira possível. Esses e mais alguns. Muitos já conhecem os conceitos de gerenciamento de risco. É sempre bom revisitá-los, manter a consciência situacional elevada, exercitar as análises, estar preparados para o momento em que as circunstâncias exigirem uma resposta que dela dependerá a sua jornada.

Eu gostei muito do livro, e acho que os operadores aeronáuticos que o adotarem terão muito a ganhar em termos de aumento do nível de segurança de suas operações. Acredito também que os aeroclubes e escolas de aviação do Brasil o deveriam adotar e incorporar seus conceitos tanto nas suas operações aéreas, quanto à instrução aeronáutica em si. Entretanto, ele não é uma obra perfeita (embora muito boa), e se permitem a ousadia, gostaria de recomendar aos autores que revisassem os pontos acima apontados (maior profundidade em alguns temas, e fusão de determinados capítulos), de modo a obter uma 2ª edição aprimorada: eu acho que esta obra merece isso. Acho também que ficou faltando uma revisão mais caprichada, e o site auxiliar “Meu SOP” precisa ser mais bem trabalhado – a ideia é ótima, mas está faltando conteúdo. Finalmente, eu acho que o título de “Gerenciando o Risco na Aviação Geral” não revela toda a sua amplitude: ele é muito mais do que um livro sobre gerenciamento de risco, e sim uma obra que compreende TODOS os principais aspectos de segurança operacional que um profissional da ‘91’ tem que conhecer.

9 comments

  1. Enderson Rafael
    4 anos ago

    A ideia do livro é excelente! se um dia eu voltar a escrever não-ficção, será sobre safety. Vou dar uma olhada!

  2. J.PAULO
    4 anos ago

    Li tb,
    principalmente para quem está começando na carreira como eu
    é extremamente importante ler e observar diversos aspectos relacionados a segurança de voo.
    Muito bom a síntese de cada capítulo Raul!

Deixe uma resposta