“Todos usam cinto no carro; a 900 km/h no avião, não”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Ontem, não houve jornal, TV, rádio, portal da internet, etc, que não tenha noticiado a turbulência por que passou um avião da TAM proveniente de Madri, que feriu 15 passageiros. No meio do show de sensacionalismo que costuma ocorrer sempre que algo acontece no ar, pelo menos uma matéria sobre o assunto faz sentido, que é a reproduzida a seguir, publicada na Folha de hoje, de autoria do Ricardo Gallo (em minha opinião, o melhor jornalista de aviação do país):

Todos usam cinto no carro; a 900 km/h no avião, não
Especialistas em segurança de voo recomendam ficar atado sempre

RICARDO GALLO
DE SÃO PAULO

Ninguém duvida do risco de ficar sem cinto de segurança dentro de um carro a 50 km/h. Em uma aeronave que está a quase 900 km/h e a 11 mil metros de altura, nem sempre a cautela é a mesma.

Basta olhar em volta, especialmente em viagens mais longas: é o passageiro que sai para papear com o colega três fileiras atrás, outro que bate-papo perto do banheiro ou alguém que resolve se esticar.

Ok, ninguém é de ferro e não dá para evitar ir ao banheiro após voar por horas.

Mas especialistas em segurança de voo recomendam ficar com cinto atado sempre, inclusive em crianças de colo, para as quais há cintos de segurança próprios.

Isso porque nem sempre um fenômeno climático é detectado no radar do avião, como turbulência de céu claro. E, se ocorre subitamente, a perda de altitude em voo pode ferir severamente em áreas sensíveis, como o pescoço e a coluna cervical.

DISCURSO PROTOCOLAR

Não há, no Brasil, dados públicos sobre esse tipo de acidente.

Nos Estados Unidos, 329 pessoas se feriram durante turbulências de 2002 a 2011, entre passageiros e tripulantes –houve um passageiro ferido para cada dois tripulantes. Os dados são da FAA, Administração Federal de Aviação, a Anac de lá.

É pouco frente aos milhões de passageiros transportados todos os dias, mas não é ocorrência tão rara assim.

Aconteceu, por exemplo, em Hong Kong na última sexta-feira também: lá foram 49 pessoas feridas, em dois voos diferentes.

O episódio de ontem ensina que ficar com cinto atado durante o voo é mais do que um discurso protocolar anunciado pelos comissários de bordo a cada viagem.

4 comments

  1. David
    4 anos ago

    Levando em consideração o fator originário, pelo que pude ver ontem pela SigWX o tempo nao estava tão clear assim. Com CB EMBD e ISOL De 030/XXX. Alguem ai teve a mesma curiosidade? Isso me remeteu a lembrar do episódio do Air France que foi peaticamente no mesmo trajeto e na mesma época. Graças a Deus não tivemos o mesmo fim.

  2. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Texto simples e muito bem veiculado. Uma pena, Raul, que assim como se esquecem em quem votaram, também esquecem de quem se fere em eventos como esse (de cabeça, lembro de 5 envolvendo acfts brasileiras nos últimos anos). Eu nunca peguei uma turbulência severa em 6mil horas de voo, e como comissário, a menos que a aeronave da frente dê a dica, se for CAT (clear air turbulence) existe chance grande de eu estar entre os feridos. Já como passageiro, só tiro o cinto pra ir ao banheiro, seja viagem de 1h ou de 14h. Infelizmente, nem todo mundo absorve o que a gente diz. Nos cheques de cabine antes do pouso, não é incomum termos que explicar pra uma mãe que deixa a criança atravessada na poltrona com o cinto que pousaremos a 200km/h e desaceleraremos em duas dezenas de segundos. Ou seja, mesmo que dê tudo certo, a coluna da criança pode ser afetada. Sem contar o pessoal que levanta durante o taxi e antes de a aeronave parar, os motores serem desligados, ela ser calçada e o atar cintos (voilá!) ser desligado. Faço meu trabalho e em casos extremos levanto eu mesmo pra colocar alguém de volta no assento com o cinto atado e devolver a bagagem ao bin, explicando que numa evacuação ela prejudicaria a todos ali. As pessoas esquecem que um avião taxiando está a quase 50km/h. E sim, já houve casos de eu estar em aviões que tiveram que frear bruscamente, o suficiente pra derrubar e machucar quem estivesse de pé (a vez mais pitoresca foi no Santos Dumont, quando um ônibus da Infraero atravessou na nossa frente sem avisar, muitos anos atrás). Freio de avião é freio de gente grande. Enfim, vou lá voar mais um pouquinho. Hoje, aposto, vai ser mais fácil cumprir meu dever no quesito “cinto afivelado”;-)

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