“Planejamento e Aceitação”: Um caso real de carreira na aviação

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Nas últimas semanas, eu troquei algumas mensagens com um leitor que está passando por um momento complicado em sua carreira de piloto. E eu sei por experiência própria – dentro e fora da avoação – que a gente aprende muito mais com os erros do que com os acertos (que, muitas vezes, acontecem por pura sorte), e por isso sugeri que ele escrevesse um texto resumindo o que ele mais aprendeu com os seus erros na condução de sua carreira de piloto. O resultado é o texto que reproduzo a seguir, com o qual não concordo integralmente (lembrando que eu também cometo erros – e eles não são raros!), mas que acho interessante como um ponto de partida para analisarmos o que pode ser feito no sentido de construir uma carreira eficiente na aviação. Então, segue o texto:

Planejamento e Aceitação

Contarei um pouco de minha história de vida, na tentativa de expressar minha opinião sobre o mundo da aviação para que outros tenham melhor sorte que eu. Tenho 47 anos, meu último trabalho foi como Piloto de Turboélice na Executiva. Atualmente esforço-me para conseguir uma recolocação ou iniciar nova atividade na Aviação Agrícola.

Quem nunca ouviu falar que o voo, para ser bem sucedido necessita ser planejado? Pois é, o mesmo deve ser feito com nossa carreira aeronáutica. O ato de voar dá um prazer enorme para muita gente, não importa a forma: balão, pára-quedas, planador, avião ou helicóptero…Mas voar por profissão é uma situação completamente diferente, requer outra ótica. Várias são as atividades cotidianas e rotineiras que, embora estejam direta ou indiretamente ligadas ao voo, não trazem nenhum prazer como o ato de voar, mas que exigem do piloto sua total atenção e empenho.

Nem sempre são explicados racionalmente, os motivos pelos quais nossos destinos mudam radicalmente, e com ele nossas carreiras e vidas. Muito embora o Planejamento não seja garantia nenhuma de que os objetivos profissionais serão alcançados, estou aprendendo que sem ele ficaremos à deriva, como um dente-de-leão ao sabor do vento. Planejamento sem ação não é nada, mas ele é a base racional de todo o processo. O Planejamento da carreira envolve fatores exógenos (momento econômico mundial, abertura de novas vagas, políticas para o setor) e endógenos (capacidade financeira para investimentos na carreira, idade, localização próxima aos grandes eventos aeronáuticos, idade, formação profissional, objetivos pessoais, família) de nossas vidas.

A Aviação é uma atividade muito Sui Generis, e o quanto antes iniciarmos a carreira nela melhor. Embora em alguns casos haja mais tolerância, de forma geral as possibilidades na Aviação são inversamente proporcionais à idade e experiência de voo. Uma pessoa iniciando a carreira aos 35 anos de idade, terá mínimas chances para ingressar na aviação comercial, (por causa dos fatores Exógenos e Endógenos) mas terá melhores chances na Aviação Geral ou Executiva.   Aprendi a duras penas que o Planejamento da Carreira deve ser uma análise nua e crua, com quase nenhuma interferência da paixão e romance, para concluir se nossas (REAIS) condições são compatíveis com nossas (VIRTUAIS) aspirações.

Não vou entrar em muitos detalhes, mas posso dizer que cometi sérios erros em minha trajetória de vida que inviabilizaram minha carreira como eu a imaginei em minha adolescência. Como disse, Planejamento não é nada sem ação, mas toda ação nasce (ou deveria nascer) de um Planejamento.

  • Se vc tem entre 18 e 30 anos, e deseja ser piloto militar de qualquer Força Armada ou Auxiliar, estude para passar como se sua vida dependesse disso. A vida não perdoa os erros por despreparo, preguiça ou relaxo. Você terá um excelente preparo pago pelo Governo Federal ou Estadual e terá a possibilidade de fazer uma bela carreira dentro e fora da Força.
  • Se vc tem entre 18 e 25 anos, e deseja ingressar na Aviação Comercial, tem tempo a seu favor, mas não o desperdice. Prepare-se o mais rápido e melhor que puder para estar preparado para uma recuperação da Aviação Brasileira nos próximos anos.
  • Se vc tem entre 30 e 40 anos, e deseja iniciar uma carreira na Aviação, mas não possui recursos financeiros abundantes eu diria para não se iludir com a Linha Aérea ou com grandes jatos executivos, porque talvez gaste muito tempo para se prepara e possuir o perfil desejado e estará com idade avançada para o ingresso. Acredito que vai demorar para haver outro apagão de pilotos como o de 2006-2011.
  • Se vc tem acima de 40 anos, a menos que tenha emprego certo, acho muito arriscado investir o volume de dinheiro que é necessário para se formar e tentar conseguir trabalho. Especialmente neste período de crise em que vive a Aviação no Brasil.
  • O inglês é fundamental e vai dificultar a entrada na Aviação Comercial e Executiva de grande porte para os que não são íntimos do idioma. O mesmo eu diria para o curso de Ciências Aeronáuticas ou de Tecnologia em Aviação Civil. Não conheço exigência das qualificações acima para voar em Táxi Aéreo , mas conhecimento NUNCA é demais.
  • Se vc quer ser Piloto Agrícola, não se iluda com os requerimentos mínimos de 370 horas totais e ser PC. O CAVAG é mais difícil do que parece, principalmente para os que estão a muito tempo na Aviação Comercial ou na  Executiva e querem migrar para a Agrícola. Por causa do excesso de automação, o piloto oriundo dessas aviações perde muito do “pé e mão”. O comportamento dos aviões agrícolas é muito singular, eles exigem muito boa proficiência de vôo 100% do tempo, além de raciocínio rápido e olhos treinados para identificar referências visuais no solo. Qualquer descuido pode resultar num grande susto ou acidente. Sem falar que o curso é um investimento muito caro (R$ 27.000,00) para quem não gosta do campo, ou não consegue viver em regime de internato durante a safra. Além disso as fazendas e empresas não gostam de contratar piloto de primeira safra, por causa do alto índice de acidentes com os recém-formados.

Eu perdi definitivamente minhas chances na Linha Aérea desde 1996, mas só fui acreditar nisso pouco tempo atrás. Tive todo o apoio para ser Piloto Agrícola a 5 anos não dei bola e somente agora tive interesse pela atividade. Entrei num Táxi Aéreo mal organizado, cheio de politicagem e com um incompetente no poder. Saí para um emprego melhor, mas com os dias contados. Eu em minha zona de conforto não quis acreditar no que dizia minha intuição sobre a conduta do patrão e de seu assessor que queria se tornar piloto. O resultado após 2 anos de dedicação, foi a demissão sem justa causa numa época péssima para a Aviação. O Co-piloto passou a fazer as vezes de Cmte, e as contas para pagar continuaram a chegar. Qual a conclusão que dá pra tirar de tudo isso?

1)      Não confie muito em ninguém.

2)      Não fale demais, muito menos tudo o que sabe.

3)     Preste atenção aos sinais. Não crie cobra para te morder. Nenhum co-piloto quer estar co-piloto para sempre, mesmo os incompetentes.

4)     Confie em sua intuição. Se alguma coisa parece estar errada, é porque provavelmente está.

5)     Planeje sua carreira dentro de suas possibilidades e potencialidades. Se odeia inglês será difícil ler manual de 737. Se não gosta de mato não seja PAGR. Antes de gastar o primeiro real, planeje-se, certifique-se que terá a maior quantidade possível de dinheiro para financiar a formação. Formar-se no pinga-pinga é estressante.  

6)     Evite desgaste emocional desnecessário e perda de tempo. Se não dá para entrar na TAM, entre em outra. Vc não fica parado e ganha experiência.

7)     Se tiver que vender tudo ou sacrificar sua família por uma profissão que não paga tão bem assim, é extremamente exigente, e demite por qualquer variação econômica mais forte, não seja piloto profissional. Tenha outra profissão mais estável, ganhe dinheiro, compre seu avião e voe por prazer. Ouvi isso a anos atrás e não dei ouvidos. Hoje estou escrevendo estas linhas para que alguém me ouça.

 

Desejo muito Boa Sorte a todos.

15 comments

  1. Rodrigo Castro
    2 anos ago

    Concordo em gênero, número e grau. Isto é o que acontece em 70% dos casos, e quem já tem um tempinho na aviação pôde perceber que isto é a mais pura verdade. Claro que existem as exceções, mas não dá pra ignorar os fatos acima e acreditar que com você vai ser diferente, porque tem uma probabilidade muito grande de acontecer muito próximo do que o comandante, sabiamente, falou acima. Este é o mesmo conselho que eu dou para quem vem me perguntar sobre a aviação.

  2. candido costa
    4 anos ago

    gostei de sua colocaçao,existem situaçoes que devemos ficar atentos ,pois, os que falam ser seus “amigos” muitas das vezes querem te usar de escada para subir . passei por isso tbm,a ajuda vem de onde nao esperamos…muitos falam e prometem ,porem, poucos fazem.

  3. Robson Vasconcelos
    4 anos ago

    Minha história não é muito diferente, dos Comandantes Raul Marinho, Enderson Rafael e vários outros Comandantes, comecei minha carreira aos 33 anos, mas como a grande maioria desde de criança sonhava em ser um aviador, não fiz antes porque as circunstâncias econômicas da época não permitiram, a inflação era muito alta, não havia nenhum incentivo do governo e minha família não tinha nenhuma condição financeira de arcar com meus estudos de aviação, principalmente nas horas de voo que eram muito caras em relação o que é hoje. Sempre estudei em escolas públicas e comecei a trabalhar cedo para obter um mínimo de independência financeira, mas mesmo assim não conseguia dinheiro para fazer um curso de aviação, meu caminho foi para outro rumo, mas a vontade de ser um um piloto ainda era muito grande, meus olhos sempre se voltava para o céu assim como hoje quando ouvia o barulho de um avião, conhecia todos os modelos e marcas de aeronaves, é até engraçado rsrs. Trabalhei em várias coisas, vendedor de cachorro quente, porteiro de boate, estivador, ajudante de pedreiro, projetista de cinema, e vários outros (sem desmerecer ninguém, todo trabalho é honrado) para poder pagar uma faculdade e me formar em Marketing. Com o passar dos anos a economia do Brasil melhorou um pouco daí então me vi na oportunidade de fazer o curso de PP em 2006, época da transição de DAC para ANAC, as bancas de PP ainda tinham navegação completa que era mais complexa, o que hoje só há nas bancas de PC, (sorte de quem faz hoje). Daí começou minhas peregrinações por vários Aéroclubes e Escolas do Brasil para finalizar a benditas 40 horas, (muitas emoções eu vivi, nunca esquecerei minhas aventuras nos Aeroclubes que só quem passou sabe do que estou falando) e o que era para ser 40 horas se tornou no final 55 horas rsrsr, pois o intervalo tempo era muito grande entre juntar grana e voar rsrs, (2 anos).
    Pronto agora sou um piloto (ingênuo pensei comigo sem saber que o pior ainda estaria por vir, rsrsr). Enfim se eu for continuar essa história e com muita modéstia companheiros daria pra escrever um livro, pois já me aventurei muito pelo Brasil para conseguir chegar a ser um profissional, arrisquei minha vida pela paixão de ser um Aviador e cheguei até a voar por um tempo nos garimpos do Pará para adquirir experiência. Vi muitas coisas tristes pelo Brasil afora e até amigos meus perecerem na aviação, mas também vi muitas coisas boas, e isso é o que me fez continuar. Hoje só estou com 40 anos (me considero novo pois tenho mais disposição do muito garotão por ai ). Sou Piloto Comercial e Nível Superior em Aviação Civil, Pós em Logística, e vários cursos no seguimento da aviação ( ICAO-4, CRM’s, Segurança de Voo, Sistema de Aviônicas modernas G 1000 / Jet Training , CBT’s 737, EMBRAER 170 e 190, Direito Aeronáutico, e outros ) Já escrevi alguns artigos para sites de aviação, leciono em uma Faculdade de Aviação Civil em Brasília mas sempre estou disposto a aprender mais, pois sei que a aviação é muito mais do que eu aprendi. Entendo a indignação de alguns companheiros pois sei e o caminho é doloroso aqui no nosso País eu também não estou voando, recentemente perdi meu emprego na aviação executiva, mas não perdi minhas esperanças. No Brasil tem essas coisas de altos e baixos na aviação, mas sabemos que podemos cavar oportunidades em outros Países, conheço amigos que conseguiram emprego com mais de 45 anos no Oriente. É triste saber o quanto somos Brasileiros e o Governo não nos reconhece, isso para todas as profissões, mas é importante sabermos que existe uma força maior que sempre estará do nosso lado, isso mesmo companheiros, “se DEUS é por nós então quem será contra nós”, ainda tenho fé que algumas coisas iram mudar no nosso País. Companheiros da Aviação tenham FÉ.

    • Enderson Rafael
      4 anos ago

      Obrigado Robson! E é isso aí, aproveite sua experiência e tente sim outros países. Quem nunca saiu pode ter a falsa impressão de que lá fora é mais difícil voar, mas que nada, aqui é que quase impossível…

  4. Victor Rodrigues
    4 anos ago

    Isso mostra bem que não devemos viver somente desse amor platônico pela aviação e analisar se vale a pena. Por isso é sempre bom ter uma carta na manga e aproveitar o tempo livre para se aprimorar tanto no conhecimento “aviatório” como em outros que lhe garantam uma rota de escape.

  5. Felipp Frassetto
    4 anos ago

    Magistral!

    É realmente muito difícil encontrar alguém disposto a mostrar os erros que teve no caminho e, mais ainda, comentá-los de forma honesta.

  6. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Dizer o quê… também não concordo com tudo, e acho que discordo exatamente da mesma parte que a maioria. Às vezes dá a impressão de que os males que nos assustam na aviação são exclusividade dela, e esse é um erro crasso. Todas as profissões têm suas intempéries, e não é a aviação, com 1% do PIB, a única que balança aos sabores da economia.

    Acredito totalmente na visão de curto, médio e longo prazo. E acredito totalmente que estas visões devem ser ajustadas à medida que o cenário muda. Já vi gente que desdenhava de ATR pq já se imaginava num jato e hoje não encontra nem um Cessninha pra voar. Mas pelo menos agora valoriza o Cessninha. A gente aprende, o ser humano é extremamente adaptável. Por isso sobrevive à muitas coisas. Por isso se entedia quando nada muda (“ng quer ser copila pra sempre”). Claro, não sabia de tudo isso aos 18. E claro, aos 45 vou saber de bem mais coisa.

    Entrei na aviação quando pude, aos 24 anos. Como comissário, conforme vocês sabem, Sempre gostei e ainda gosto muito de sê-lo, e por isso o faço bem, e por essas e outras, ainda estou empregado mesmo após ver dezenas porque abusaram do sistema e centenas por senioridade caindo ao meu redor, em duas levas terríveis. Digo essas e outras, porque competência não é tudo. Tem muita sorte envolvida. Eu deixei de ir prum salário maior três anos atrás porque pensei no médio prazo. Se tivesse ido, estaria na rua hoje. Sorte até quando perdi colegas, e eu não era um deles. A vida é efêmera, e planejamento demais também pode ser inadequado. O longo prazo que imaginava quando entrei pro voo, mostrou-se impraticável. O curto, por enquanto, tem funcionado, apesar de que é o mais fácil de decidir, pois é o que dá pra prever com mais precisão.

    Meu pai me ensinou que seja lá o que fizermos, temos que fazê-lo bem. O sucesso, profissional e financeiro, será consequência. Claro, isso não quer dizer que “fatores exógenos” não venham a atrasar ou até impossibilitar que seu esforço renda frutos, mas com certeza fazer seu trabalho bem feito é um ótimo começo. E meu pai não trabalhava com o que amava – o que lhe tirava uma pressão mas colocava outra: não há a paixão nem pra lhe frustrar nem para lhe motivar. Mas meu pai fazia as coisas certas porque era certo. Não porque temia punição ou porque uma suposta divindade estivesse olhando.

    Ele que não viveu o suficiente pra me ver sequer ser promovido a chefe de cabine, quanto menos virar piloto! (PS: se puderem levar seus pais pra voar, levem. Me dói muito não ter podido levar o meu, mas tive a felicidade imensa de levar minha mãe pra ver a Florida de cima e minha esposa pra almoçar na Carolina do Sul!)

    Agora, me encontro pronto, com um curriculo básico de piloto comercial FAA convertido pra ANAC, mas com diferenciais que só tenho porque 8 anos de aviação como comissário me proporcionaram. A formação na área de prevenção e investigação de acidentes é um desses diferenciais. Outros vêm de antes ainda, como as línguas que falo e a própria faculdade em que me formei. Ter vivido a aviação comercial por todo este tempo me faz saber o que esperar dela, me tira a ânsia normal de quem nunca voou linha aérea e me abre espaço pra querer aprender e viver a executiva e o táxi aéreo. Todos nós “pilossários” temos isso em comum: milhares de horas sob o RBAC 121 nos tornaram aviadores em geral mais acostumados com manuais e procedimentos, que acham padronização algo natural e segurança de voo um valor maior que todos os outros. Eu posso não saber o que é pilotar um jato de 80 toneladas, mas sei o que é pernoitar em bons hotéis no mundo todo e só dormir em casa 8 vezes por mês. E isso me dá muito mais segurança pra pesar o que fazer da minha carreira.

    O aprimoramento, portanto, é algo essencial e contínuo. O inglês – que é uma língua muito fácil se comprada com praticamente qualquer outra – é fundamental em aviação, e não há porque não aprendermos, em especial num país ocidental tão exposto à cultura americana. É a língua que o mundo todo fala. E mesmo que você o subestime agora, talvez um dia um jato bacana apareça pra você voar e você perca a oprtunidade porque lá atrás você não quis aprender inglês (“ng quer ser copila pra sempre”).

    Mas mesmo com um currículo que me colocaria em ótimas vagas apenas um par de anos atrás, agora não há nada em vista. Se nosso autor com 47 anos e muita experiência nada consegue, que dirá eu do alto das minhas 257 horas… São anos de inépcia que tornaram a atividade aérea quase inviável no Brasil. E nem é só o governo. Nem é só a ANAC, nem só a Infraero ou os juízes que vivem tendo ideias iluminadas. Não aproveitamos pra crescer e nos estrutrar enquanto podíamos, e agora estamos pagando o preço sendo, segundo a IATA, o único país do mundo cuja demanda pelo transporte aéreo recuou em julho. O Chile cresceu dez vezes o nosso recuo. É vergonhoso. E pra piorar, muito do potencial que temos vai parar lá fora: não são só os médicos cubanos (escravizados, que servem apenas de desculpa pra que o governo brasileiro financie a ditadura dos irmãos Castro com nosso dinheiro). São pilotos e comissários panamenhos, portugueses, americanos. Basta vocês verem as notícias, as rotas, a nossa completa incapacidade de competir no céus abertos com o resto do mundo (o céus abertos é certíssimo, o errado somos nós impormos às nossas companhias custos altíssimos). Cada vez que uma American anuncia voo regular de Porto Alegre pros EUA, significa menos empregos nossos. E menos muitos passageiros também. Afinal, não temos mais que levar o sujeito de POA pra GRU. Quando imagino um Brasil onde só sobrem a executiva, os taxi aéreos e as regionais, estou apenas lendo o que a tendência parece ditar. Será que se tivéssemos um aeroporto realmente grande em Recife ou Fortaleza, ele não viraria um hub atlântico da LATAM aos moldes do que é Lima para a LAN Peru? Mas não demos condições. E no mercado do ponto a ponto (preconizado pela Boeing com o 787 e percebido a tempo pela Airbus com o A350), nós não conseguimos competir. Falando em 787, a LAN tem, a Aeromexico tem, mas o único que vemos por aqui, vem da Etiópia. É um tapa na cara óbvio. Nosso custo subsaariano consegue transformar a 3a maior aviação do mundo numa mediocridade retumbante.

    Enfim, o Brasil está sendo frustrante pra muitos que se dedicaram, e me enche de alegria ver que tantos estão conseguindo se recolocar fora do país, ganhando mais e com mais qualidade de vida. Pra quem gosta de trabalhar e tem os requerimentos, o exterior oferece ótimas oportunidades. Não estamos no fundo do poço: aqui PCs com 150h ainda conseguem emprego. Anda raro, mas acontece. A crise de hoje ainda é eclipsada com vantagem pela de 2001/3, mas o que me preocupa é que agora não temos a perspectiva que aquela época escondia. A China não quer mais tanto minério de ferro, e a estabilização da economia já rendeu os frutos que podia sozinha. Sem reforma tributária, sem investimento em infraestrutura, o país parou de avançar. (aqui cabe um adendo, há uma leve tendência de a infraestrutura aeroportuária melhorar no médio prazo, mas como disse acima, parece que só existirão regionais pra aproveitar: esqueça voar long haul fora da executiva de alto padrão no Brasil)

    Só sei de uma coisa: há muitos que estão tentando ainda, outros tantos que ficaram pelo caminho e mudaram de prioridades. Mas todos que estão sendo pagos pra voar hoje, sem exceção, não desistiram. Que capitalizemos, portanto, a paixão que nos move. E aliando-a à sensatez e ao conhecimento, consigamos o que almejamos.

    Bons e remunerados voos a todos.

    • Robson Vasconcelos
      4 anos ago

      Valeu Enderson, gostei muito do seu comentário, lembrei que na minha primeira oportunidade levei meu pai para voar que ficou muito orgulhoso, aposto que o seu Pai tbm está, temos que dar valor a quem nos ama de verdade. Deixei tbm um comentário.

  7. Thiago Marcato
    4 anos ago

    Parabéns pelo texto acho importante ter ideias e colocações diferentes mas também nao concordo com nunca mostre tudo que sabe ou nao crie cobras, no final das contas existe muita gente boa e correta.
    Eu nao tenho ideia de quem é o dono da aeronave porem pelo que sei este muito dificilmente troca o certo pelo duvidoso a nao ser que exista constantes atritos e problemas, gerando um desgaste na relação.
    Acredito muito em carma e se este foi um caso de má fé e rasteira a vida dará o troco.

  8. petersonramos
    4 anos ago

    Se a intenção é provocar a reflexão, ela foi atingida.
    É claro que cada caso é particular em muitos sentidos. Mas as angústias vividas pela insegurança social, econômica e a dificuldade de se posicionar no mercado principalmente por questões alheias ao nosso esforço são comuns a todos nós.

    A vida na Aviação sempre tem uma incerteza meio incômoda, a que o futuro não se estabelece, por mais previdente que sejamos.
    Além disso, grande parte da classe de pilotos ainda tem uma visão pouco prática de suas atividades, cercadas de “romantismo” e “pseudo-status”. Essa falta de pragmatismo já é bem conhecida pelos “empregadores” que praticam o terror sobre a categoria, sem maiores consequências, afinal sempre tem um “novinho” sedento por ocupar o assento vago.

    Amigos, reflitam sobre ética, sobre estratégia, sobre alternativas de forma racional. A dinâmica do mercado pode ser um rolo compressor ou um trampolim na carreira.

    Aquela história do Cristovam Buarque, da “revolução pela educação” tem sua razão de ser. A busca pela qualificação gera frutos, as vezes até em outros caminhos, diferentes daquele objetivado ao início dos projetos.

    O importante é trabalhar o amor pela aviação de forma que esse “amor” traga disposição e motivação, e não ansiedade e decepção com a conjuntura de mercado ou a falta de ética de muitos colegas, aspirantes como eu ou já profissionais da Aviação.

  9. ermelo
    4 anos ago

    Realmente excelente texto (So… nao concordo com o… “nao crie cobras” etc, isso e coisa de pessoas inseguras, nada haver)
    Quem se dedica, se esforca, estuda e ama o que faz, sera sempre um excelente professional e tera sempre suas responsabilidades/trabalho etc!!!

    Outra coisa, como vc mesmo ja falou aqui varias vezes Raul, quem quer investir vai investir em franquias, imoveis etc, aviacao e para quem tem amor em voar (paixao e amor sao coisas distintas!!!)

  10. carlos barros
    4 anos ago

    O ítem número 1 da conclusão é “mortal”

  11. Hugo Assi
    4 anos ago

    excelente texto que nos faz pensar muitas de nossas atitudes.

  12. jabertecnico
    4 anos ago

    Reblogged this on pilotoiniciante and commented:
    Adicione suas ideias aqui… (opcional)

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