O renascimento da aviação executiva de luxo nos EUA

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Está muito interessante o artigo abaixo reproduzido do Portal iG/The New York Times (fonte: Aeroclipping do SNA), falando sobre o renascimento da aviação executiva de luxo nos EUA. Esse tipo de estratégia dos operadores de táxi aéreo e das empresas de compartilhamento de aeronaves da chamada “aviação executiva de luxo” americana – que, na realidade, não é a “aviação executiva do dono do avião”, mas o tipo de aviação que empresas como a TAM AE e Global oferecem no Brasil -, focada no cliente da 1ª classe doméstica (que nem existe aqui), estava em alta até o início da crise de 2008. Ocorre que a crise atropelou esta estratégia não só pelos óbvios problemas econômicos nela implícitos, mas também pela questão de imagem: começou a pegar muito mal andar de jatinho num país em que centenas de milhares de famílias tinham as hipotecas de suas residências executadas. Mas agora, com os EUA colocando a cabeça fora d’água, parece que a prática está retornando – o que é um ótimo sinal.

Aqui no Brasil, entretanto, acho muito difícil que esse tipo de estratégia tenha sucesso, pelo menos no curto/médio prazos. Além dos problemas macroeconômicos daqui estarem muito mais longe de serem resolvidos, há o problema da nossa infraestrutura aeroportuária/aeronáutica, que impede o crescimento da aviação geral brasileira.

 Jatinhos particulares se tornam mais acessíveis e atraem novos turistas
De olho nos clientes de primeira classe das áreas, empresas flexibilizam preços e pacotes
NYT – Stephanie Rosenbloom

Em menos tempo do que se leva para fazer um escaneamento corporal, eu atravessei o terminal e entrei na pista de decolagem.

Ninguém no aeroporto Teterboro, em Nova Jersey, pediu minha carteira de habilitação. Ninguém vasculhou minha mala. Não havia crianças gritando nem adultos trajando calças de pijama e transportando bagagem do tamanho dos baús de antigamente.

Estava estranhamente sereno: somente o som do vento e o bater dos meus saltos na pista enquanto eu caminhava na direção dos dois pilotos ao lado de um Challenger 300, um jatinho particular reluzente para nove passageiros. Pisei no tapete azul debaixo da escada e, com a ajuda da mão de um dos pilotos, finalmente embarquei em um avião como um ser humano, não uma besta de carga.

NYT

Stephanie Rosenbloom, repórter do NYT, embarca
em jatinho, em Nova Jersey (EUA)

Dentro, o piloto no comando, Rob Martin da XOJet, empresa de jatos particulares de São Francisco, repassou o essencial: dock para o iPod, tela sensível ao toque para controlar as luzes e filmes, bancos reclináveis de couro que segundo falaram (enquanto tratava o meu feito atração de parque de diversões) custaram US$ 30 mil (R$ 69,7 mil) para serem substituídos, o telefone via satélite, a máquina Nespresso, a cabine com os biscoitos Oreo e chardonnay Kistler.

Antes de decolarmos, Martin acrescentou: “Eu me esqueci de mencionar uma coisa: a poltrona vira cama.”

Em um momento em que pesquisas do setor aéreo mostram como os viajantes estão entediados com as filas épicas dos aeroportos comerciais, quando os saguões estão superlotados com clientes de cartão de crédito com marca de companhia de aviação, as empresas estão tornando os jatos particulares mais acessíveis.

O que era um segmento baseado em propriedade completa ou parcial de aviões está se abrindo, com as operadoras dos jatos e proprietários como a XOJet oferecendo programas mais flexíveis, e intermediários que não possuem aviões trabalhando em conjunto com eles para oferecer poltronas — em alguns casos por meio de aplicativos — a uma distância surpreendente do preço do bilhete de primeira classe.

“O setor literalmente deu uma volta de 180 graus nos últimos cinco anos”, garantiu Bill Papariella, executivo da aviação que trabalhou na NetJets, Marquis Jet e Sentient antes de se tornar o fundador e presidente da operadora Jet Edge International.

Empresas que sobreviveram à recessão simplificaram o preço e agora oferecem mais opções de afiliação, baseadas em onde, quando e com que frequência se voa. E os novos integrantes do setor estão tornando a reserva de um jatinho particular tão fácil quanto solicitar um carro particular no Uber.

“Está muito mais fácil e barato do que nunca”, reforçou Bradley Stewart, CEO da XOJet.

Mesmo assim, dá para pagar uma viagem ao estilo de James Bond? A resposta depende de que tipo de voador se é. Com que frequência você voa? Aonde vai? Qual a rigidez da agenda?

Empresas diferentes têm estruturas de preços diferentes, mas um dos modelos mais comuns é o de mensalidade ou anuidade mais o custo dos voos. O valor pode variar entre vários milhares de dólares anuais a várias centenas de milhares de dólares por ano.

Em um dos extremos do espectro se situam operadoras como a Jet Edge International, que relatam que seus jatos particulares estão ao alcance de quem tiver renda líquida acima dos US$ 50 milhões (R$ 116,2 milhões). “Nós nos especializamos no 1% do 1%”, calculou Papariella.

Na outra ponta do espectro se encontra um punhado de empresas iniciantes que querem mudar isso, como a BlackJet, que está permitindo aos passageiros da primeira classe passar à viagem particular vendendo poltronas individuais a seus membros, que pagam anuidade de US$ 2.500 (R$ 5.810).

Após começar a operar no final do ano passado, a empresa encontra proprietários de jatos ou operadoras que transportarão de seis a 14 passageiros por vez em mercados como Nova York, sul da Flórida, Los Angeles, São Francisco, Las Vegas (e, a seguir, Chicago e Washington, capital).

“Nosso cliente é a massa abastada em oposição ao 1% da população”, disse Dean Rotchin, fundador e CEO da BlackJet. “Nós estamos trazendo do nível de astro do rock a uma ferramenta prática para a clientela endinheirada.”

NYT

Capitão Rob Marti­n (à esquerda) e Steve Kerby no controle do jatinho XOJet’s Challenger 300

Neste ano, a BlackJet está tentando revolucionar como as reservas são feitas ao vender lugares online e através de um aplicativo do mesmo nome, o que não causa surpresas visto que Garrett Camp, fundador do Uber, serviço de automóveis baseado num aplicativo, é investidor (em conjunto com famosos como Ashton Kutcher).

Outros novos intermediários estão tentando reduzir o custo do voo particular. A Jumpjet, por exemplo, oferece afiliações mensais de US$ 2.350 (R$ 5.420) a US$ 5.500 (R$ 12.670) por dez viagens de ida e volta por ano (a distância da viagem depende do nível da afiliação). O site promete “uma nova maneira de voar pelo custo aproximado de uma passagem de primeira classe”.

“Eu nos descreveria como um luxo mais em conta”, retratou Will Ashcroft, principal executivo da Jumpjet.

Os operadores costumam manter perfis dos membros com detalhes que vão dos aniversários da família, a se desejam o carro aquecido quando o avião pousar.

“Se eles quiserem sushi de Nobu, nós damos um jeito de lhes levar os produtos desse sushiman”, afirmou Gregg Slow, vice-presidente sênior de vendas e contas nacionais da XOJet, que convidou a reportagem para conferir todos os atrativos.

Contudo, quem viaja em aviões particulares — principalmente a negócios (41% da receita do setor), mas também para turismo (ao redor de 27% da receita do segmento), de acordo com a empresa de pesquisa IBISWorld — não o faz somente pelas extravagâncias em si. Essas pessoas viajam para economizar tempo, proteger os animais de estimação e colaborar com os colegas em projetos confidenciais.

“Chama-se voo particular porque deve ser particular”, declarou Jordan Hansell, CEO da NetJets, que planejava gastar US$ 17,6 bilhões (R$ 40,55 bilhões) por até 670 aeronaves ao longo da próxima década e cujos clientes tiveram como mimo um concerto de Plácido Domingo no Palácio Real, Espanha. “Em nossos aviões e com nossos parceiros comerciais, nós trabalhamos o tempo todo. Não preciso me preocupar se alguém está ouvindo.”

Esse tipo de serviço personalizado de luxo é difícil de ser reproduzido quando se utiliza um aplicativo para comprar a passagem.

Nas palavras de Stewart, da XOJet, aplicativos podem funcionar para clientes jovens que embarcam em voos particulares algumas vezes por ano, mas não para clientes da Fortune 500.

“Se você for um cara de 59 anos comandando uma empresa de US$ 30 bilhões (R$ 69 bilhões), você quer um ponto de contato.”

Entretanto, outra empresa, JetSuite, está apostando no emprego da tecnologia para baratear os preços. Seu CEO, Alex Wilcox, um dos fundadores da JetBlue, pretende ser a Southwest Airlines das viagens em jatos particulares.

Seu sonho? Quando os clientes visitam um site de busca de voos comerciais como o Kayak.com, eles também veem a disponibilidade de um jatinho. Por exemplo, uma viagem de Nova York a Charlotte, Carolina do Norte, pode surgir por US$ 400 (R$ 921,68) na JetBlue e a US$ 1.100 (R$ 2.540) por pessoa em um voo com quatro passageiros pela JetSuite.

Segundo Wilcox, o que impede isso de acontecer é uma ferramenta de disponibilidade que permita às empresas de jatos notificarem a Kayak instantaneamente quanto têm lugares vagos.

“Agora não temos como dar essa informação na velocidade certa”, ele explicou, acrescentando que pretende mudar esse cenário dentro de até dois anos. Enquanto isso, a JetSuite oferece opções de voos de ida em Facebook.com/jetsuiteair e Twitter.com/Jetsuite.

Voltando ao voo da XOJet, Slow botou o pé em uma das poltronas de couro que reclinam quase 360 graus, com o jato nos embalando gentilmente até chegarmos ao entorpecimento geralmente obtido em uma rede em uma tarde de verão.

“É decisivo para a soneca”, falou Slow. “Deixo o Golf Channel no fundo e apago.”

Aproximadamente 240 quilômetros e 30 minutos depois, estávamos pousando. Pela primeira vez desde que era criança, fiquei triste em desembarcar de um avião.

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