Sobre o artigo “Planejamento e Aceitação”

By: Author Raul MarinhoPosted on
276Views8

Na semana passada, no post “’Planejamento e Aceitação’: Um caso real de carreira na aviação“, eu publiquei um artigo de autoria de um leitor (vamos chamá-lo de “Lima”), e disse que não concordava integralmente com ele – porém, não revelei exatamente em que pontos estavam essa citada discordância. Fiz isso para não influenciar os comentários dos leitores, pois queria ver em que aspectos eles (os leitores) discordavam do autor do texto sem se pautarem pelo que eu eventualmente dissesse. E o resultado foi excepcional: diversos comentários muito bem escritos – um deles, inclusive (o do Enderson Rafael), acrescentando muita informação nova e relevante sobre o tema do artigo – que enriqueceram bastante o artigo original do Lima.

Bem, mas agora que a maioria dos comentários já foram feitos, vou tratar dos tais pontos de discordância inicialmente sugeridos. Um deles, sobre os itens 2 e 3 do texto do Lima – “Não fale demais, muito menos tudo o que sabe” e “Preste atenção aos sinais. Não crie cobra para te morder. Nenhum co-piloto quer estar co-piloto para sempre, mesmo os incompetentes” – já foram bastante comentados, mas eu gostaria de dar mais alguns pitacos sobre ele. O outro, que ninguém comentou ainda, é sobre a questão da idade na aviação. Então vamos lá:

“Não fale demais, muito menos tudo o que sabe” e “Preste atenção aos sinais. Não crie cobra para te morder. Nenhum co-piloto quer estar co-piloto para sempre, mesmo os incompetentes”

Essa questão do “comandante-butantã” (o que, supostamente, “cria cobras”) é bastante popular na aviação: já ouvi uma dúzia de comandantes falarem a mesma coisa sobre “copilotos ambiciosos” (coisa que, como o Lima notou, é o de se esperar: “Nenhum co-piloto quer estar co-piloto para sempre, mesmo os incompetentes”). Ocorre que eu acho que não se cria cobras: os ofídeos se criam sozinhos, e cabe ao comandante esperto saber lidar com eles para não ser picado. O Lima fala em “prestar atenção aos sinais”, mas acho que deve-se ir um passo além, e saber o que fazer com os sinais que se percebe (o que, talvez, seja a parte mais difícil).

Figuras de linguagem zoófilas à parte, o negócio é o seguinte. O patrão colocou um sujeito inexperiente para aprender o ofício de comandante, e quando isso aconteceu, o Lima foi demitido, e o seu patrão promoveu o tal sujeito inexperiente a comandante. Daí os conselhos para não falar tudo o que se sabe, não criar cobra, etc. Ocorre que, na verdade, a cobra já estava lá. Como recusar o pedido do patrão para treinar o piloto inexperiente? O avião é dele, a decisão de colocar o sujeito inexperiente para comandar a aeronave já havia sido previamente tomada… O que fazer? Esconder o jogo? Sabotar o treinamento do rapaz? Isso iria gerar um jogo de gato e rato ruim para todo mundo, não acho que esse seja o melhor caminho.

O que eu acho que poderia ter sido feito é ter adotado um comportamento mais proativo. Assim que detectada a intenção do patrão com o tal copiloto, e aproveitando um momento em que ainda se tem algum poder de barganha, chamar o patrão para conversar, e negociar a saída. Estabelecer uma agenda de transição, tanto para o treinamento do rapaz, quanto para a sua própria recolocação profissional – afinal, é muito mais fácil encontrar um novo emprego estando empregado.

E aí, com essa agenda negociada, a cobra não teria mais como morder, tudo estaria às claras. E, muito menos, haveria necessidade de se limitar as informações a serem passadas e coisa e tal. Porque, uma vez que a cobra esteja no cockpit, a picada é questão de tempo; logo, nada mais sensato do que lidar com uma situação já instalada. Lógico que estou falando tudo isso sem conhecer os detalhes da situação, e na prática pode ser que fosse muito mais difícil fazer isso do que parece (e para ser sincero, eu já caí no mesmo truque, num outro contexto, fora da aviação…). Mas, em princípio ao menos, eu acho que essa teria sido a melhor alternativa – pelo menos, foi isso o que aprendi quando passei por situação análoga.

As regras da idade para ser piloto

O Lima propõe uma regra de idade para a aviação que até faz algum sentido – mas que, em minha opinião, possui tantas exceções que, no fim das contas, perde até a razão de existir. Por exemplo, ele é taxativo quanto ao limite de 30 anos como máximo para ingressar na aviação comercial, mas isso pode variar muito de acordo com o momento econômico em que se vive. Se estivéssemos em 2009/10, em plena era do “apagão de pilotos”, o próprio Lima, com 47 anos nas costas, estaria apto a participar de processos seletivos na Gol, na TRIP e na Azul, com grande possibilidade de ser aprovado (somente na TAM ele realmente não teria chances). Falo isso não em tese: eu conheci pessoalmente dois pilotos com mais de 50 anos (um deles foi meu colega de Jet Trainning) que entraram na Azul e na Gol nessa época. Já quanto a aviação executiva, o que manda mesmo é o QI, e a idade fica em segundo plano se você é o “big white shark” da pessoa chave na contratação. Portanto, eu recomendo alguma parcimônia na aplicação das regras do Lima quanto à idade na aviação: não que elas estejam erradas, mas há tanto a ser levado em conta na avaliação de empregabilidade, que sua aplicação pode ser bastante distorcida.

– x –

No restante, achei as ponderações do Lima bastante sensatas, e o seu artigo deveras interessante. E para encerrar, gostaria de contar uma anedota sobre o item #1 das recomendações do Lima:

Havia um ‘turquinho’ em cima do telhado, sem saber como descer. Aí seu pai falou “bode bula vilinha, babai segura!”. E o ‘turquinho’: “Mas vilinha tem medo cai na chão, babai!”. E o ‘turcão’: “Eu tá vala que bode pula, convia babai!”. E então, o ‘turquinho’ finalmente aceita a proposta do pai: “Tá bom babai, vou bula, entom…”. O ‘turquinho’ pulou e o seu pai tirou o corpo, deixando o filho se esborrachar no chão. Aí o filho, todo quebrado, disse: “Mas babai valô que bode convia babai… Por que babai num segura vilinha?”. E o pai: “É prá vilinha abrende num convia nem babai!”.

Pois é, Lima… Se “num bode convia nem babai”, imagine no seu copila!!?

 

8 comments

  1. Felipp Frassetto
    4 anos ago

    Paixão e amor à parte, o mundo da aviação é uma fogueira das vaidades.
    Infelizmente é verdade.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      É o velho estudo da Boeing… Quem sou eu para contestá-lo, né? Mas, até chegarmos a 2032, como fica a nossa situação em 2014, 15,… 2020? Como diria Keynes, no longo prazo todos estaremos mortos, não é mesmo?

      • Eduardo
        4 anos ago

        Pois é! rsrs

  2. Löhrs
    4 anos ago

    Talvez o colega tenha dito de forma geral, mas esta história de vida do piloto acima é muito comum, se repete em muitos lugares, principalmente na geral. Para o empresário tudo é um negócio, como deveria ser para nós também. O problema é que não enxergamos isso como os empresários, que se valem de uma arma poderosa: a frieza!

    Com relação as picadas, acho que o melhor é continuar ajudando sem medo de ser picado, porque quem picar hoje será picado amanhã, é lei universal! Acho que tudo pode ser lido, ouvido e analisado. A unanimidade é inimiga da reflexão. Existe muita inveja na aviação, que gera muita fofoca. Então o que for bom a gente retém, o que não for a gente descarta.

  3. Rubens
    4 anos ago

    Na minha opinão o problema é justamente a ACEITAÇÂO. Temos que aceitar que aviação já não é mais a mesma de anos atras.
    Há 2 ou 3 decadas atras a aviação era para poucos e bons. Exame medico rigoroso , poucas escolas , muito pano preto. Hoje praticamente não existe mais filtros. Ta muito facil tornar-se piloto: exame medico, pelo menos na clinica particular que eu fiz, simplesmente ridiculo -mais facil que de CNH e pelos comentarios com colegas não é caso isolado ta na base do pagou-passou.
    A formação tambem ta uma baba: o Projeto ASA provou que da pra formar PC/MULTI/IFR em 10 meses. Não conheco outro curso profissionalizante tão rapido!
    O unico empecilho seria o fator financeiro, que é similar a formação universitaria.
    O sujeito que faz direito no Largo São Francisco, Medicina na USP talvez saia com um emprego engatilhado, mas e quem faz faculdades particulares meia-boca, dessas facinho de entrar e se formar? A formação de pilotos no Brasil se compara qual dos casos?
    Na minha opinião ta facil demais ser piloto, pra piorar a midia comprou a ideia que ia faltar pilotos, aviação seria a profissão do futuro – atraiu quem tinha e quem não tinha vocação e vontade de ser piloto. Conclusão: o mercado esta totalmente “vendedor” faltam vagas e sobram profissionais, passo seguinte achatamento de salarios.
    O colega sentiu isto na pele, perdeu o emprego pro copila porque este se sujeitou a ganhar uma fração do que ele ganhava, se não fosse o copila seria outro recem formado sujeitando-se a qualquer salario e qualquer condição pra se colocar no mercado e não ficar com as carteiras fritando.
    Os tempos mudaram….

  4. Eduardo
    4 anos ago

    Acho que se esse tal comandante fosse tão eficiente o quanto ele pensa que é, não teria sido substituído por outro… Só acho, antes que as pedras comecem a voar em minha direção! Abraços.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Depende de como vc conceitua “eficiência”… Se pensarmos que o substituto, menos experiente, está fazendo o mesmo trabalho que o cmte original, mais experiente, por um salário menor, então o novo comandante é mais eficiente que o antigo, mesmo, sem dúvida. Mas, como estamos tratando de aviação, uma atividade na qual a falta de experiência pode resultar em perdas de vidas, talvez seja preciso repensar essa definição de eficiência.

Deixe uma resposta