“PERIGO NOS CÉUS”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O jornal O Globo publicou ontem uma extensa reportagem sobre segurança aérea, abaixo reproduzida (fonte: Aeroclipping do SNA), que vale a pena ser lida.

PERIGO NOS CÉUS
Um acidente a cada 2 dias
Com mais jatinhos e helicópteros no país, número de desastres aéreos cresce 158% desde 2006
GERMANO OLIVEIRA

germano@sp.oglobo.com.br

marcos alves/28-08-2013

Segurança aérea. 
Movimentação de aeronaves no Campo de Marte em SP: número de aviões,
incluindo helicópteros e jatinhos particulares, aumentou 31,17% de 2006 a 2012, tornando o
Brasil detentor da 2ª maior frota mundial

-SÃO PAULO- O desrespeito às normas técnicas da aviação tem levado a um grande aumento no número de acidentes aéreos no Brasil. Nos últimos oito anos, foram registrados 952 acidentes, com 846 mortos. De 2006, quando ocorreram 70 acidentes, para o ano passado, com o registro de 181 acidentes, o aumento foi de 158%. Somente nos sete primeiros meses deste ano, já aconteceram 103 acidentes com 42 mortos. O registro oficial é de um acidente aéreo a cada dois dias no país. O número de aviões, incluindo helicópteros e jatinhos particulares, aumentou no período 31,17% (de 10.646 aeronaves em 2006 para 13.965 em 2012), tornando o Brasil detentor da segunda maior frota mundial, somente atrás dos Estados Unidos, o que torna o setor também mais exposto a desastres.

Segundo o comandante do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), brigadeiro Luis Roberto do Carmo Lourenço, o grande aumento no número de acidentes acontece no segmento de aviões particulares e jatinhos das empresas de táxis aéreos, pois, no setor da aviação comercial com as empresas de grande porte, o Brasil registra número de acidentes abaixo do que ocorre no primeiro mundo. Para cada milhão de decolagens, o Brasil sofre 1,9 acidente, enquanto nos países desenvolvidos a média é de 3,2 acidentes por um milhão de decolagens.

As grandes empresas brasileiras, como Gol e TAM, não sofrem acidentes há seis anos. O último grande acidente da Gol foi em 2006, quando uma aeronave chocou-se com o jatinho Legacy no Mato Grosso, matando 154 pessoas. Com a TAM, o último acidente aconteceu em 2007, quando um avião saiu da pista em Congonhas, matando 199 pessoas. De lá para cá, são os jatinhos e helicópteros que engrossam as estatísticas de acidentes e mortes.

O aumento no número de acidentes na aviação brasileira foi divulgado em seminário promovido pelo Cenipa este ano em São Paulo. Segundo o brigadeiro Lourenço, do Cenipa — o órgão do Ministério da Aeronáutica que investiga causas de acidentes aéreos e emite as normas de prevenção aos acidentes —, em torno de 35% dos desastres dos últimos anos foram provocados pela “violação das leis e normas da aviação”.

— Não somente o Cenipa, mas todos que estão ligados à aviação têm que trabalhar ainda mais para que os acidentes diminuam — disse Lourenço no congresso; nele, os técnicos concluíram que o “fator humano” (erro de pilotos, das companhias aéreas ou dos órgãos oficiais que controlam a aviação) está presente em 90% dos acidentes.

Mas a Associação Brasileira de Táxis Aéreos (Abtaer) se defende e diz que já havia alertado o governo de que o número de acidentes aumentaria, em função da ineficiência de vários órgãos e da falta de fiscalização no setor num período em que o número de passageiros transportados subiu vertiginosamente. O comandante Milton Arantes Costa, presidente da Abtaer, diz que já havia identificado a tendência de aumento no número de acidentes em função do grande aumento na frota de aeronaves, em contraponto à queda na infraestrutura do setor e à insegurança nos aeroportos:

— Há três anos, procuramos o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, para relatar que o aumento nos acidentes poderia ocorrer pela ineficiência de alguns órgãos públicos, como a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), além da flagrante falta de fiscalização. Até porque, falta cultura de treinamento para as grandes empresas de linhas comerciais.

De acordo com o presidente da Abtaer, o aumento no número de acidentes com jatinhos de empresários tem engrossado as estatísticas:

— O empresário usa o avião particular mas para reduzir os custos de manutenção, acaba alugando o jatinho como táxi aéreo, muitas vezes sem seguir as normas da aviação comercial, o que provoca acidentes e mortes.

O comandante do Cenipa entende que os usuários da aviação de pequeno porte não devem se alarmar:

— Essa elevação no número de acidentes aconteceu em 2011 e 2012, muito por conta do aumento das horas voadas no Brasil, que cresceu em 15%. Como 90% dos desastres foram por falha humana, se pilotos e empresas cumprissem as normas da avião e as regras da Aeronáutica, poderíamos diminuir muito esse índice.

Segundo Roberto Peterka, perito em aviação civil, o número de acidentes com jatinhos tem aumentando por conta da falta de fiscalização dos voos:

— Desde a criação da Anac, houve um vácuo na prevenção e fiscalização às empresas de táxi aéreo, que sempre foram da alçada do Cenipa.

A presidente da Associação Brasileira de Parentes e Amigos das Vítimas de Acidentes Aéreos, Sandra Assali, aponta a falta de estrutura nos aeroportos:

— Apesar do aumento expressivo de voos nos últimos anos, os aeroportos não aumentaram a estrutura para receber as aeronaves. É comum um avião ficar sobrevoando em círculos por dez a 15 minutos antes de aterrizar e isso aumenta o risco de acidentes. Outro fator é a falta de gente na Anac para fiscalizar tantos voos. Antes, a Anac ainda tinha o pessoal da FAB para lhe auxiliar, o que não existe mais atualmente — disse Sandra, que perdeu o marido no acidente com o Fokker 100 da TAM em 1996.

Em nota, a Anac diz que a aviação brasileira hoje é uma das mais seguras do mundo: “Pode-se afirmar que voar no Brasil é cada dia mais seguro. Nossas empresas aéreas são exemplos de operação de acordo com as melhores práticas internacionais, sendo assim reconhecidas pela Associação Internacional de Transporte Aéreo”.

A Anac destaca que “os números divulgados pelo Cenipa incluem acidentes com aviação geral e regular. Ao analisarmos os acidentes, em comparação ao crescimento expressivo do setor (número de movimentos, decolagens, frota, licenças emitidas etc.), depreende-se que a segurança do transporte aéreo, especialmente na aviação regular, vem atingindo índices melhores ao longo dos últimos anos”.

A agência defende a qualidade dos pilotos brasileiros: “Os requisitos exigidos dos pilotos no país estão em absoluta consonância com os padrões internacionais preconizados pela Organização de Aviação Civil Internacional”. A Anac garante fazer “vigilância continuada” no setor. ●

Números
103 ACIDENTES Com 42 mortos ocorreram nos sete primeiros meses deste ano
31,17% É O AUMENTO Da frota, de 2006 a 2012, incluindo jatinhos e helicópteros

Duas grandes tragédias ainda sem punição
Parentes das vítimas de voos da TAM e da Gol temem pela impunidade e criticam Justiça

-SÃO PAULO- Apesar de as duas maiores tragédias da aviação brasileira terem ocorrido em 2006 (choque no ar entre um avião da Gol e um Legacy, causando a morte de 154 passageiros) e 2007 (avião da TAM saiu da pista ao aterrissar no Aeroporto de Congonhas, provocando a morte de 199 pessoas), nenhum dos acusados pelos acidentes foi condenado. Familiares das vítimas temem pela impunidade.

Dario Scott, que perdeu a filha no acidente da TAM, em julho de 2007, diz que a Justiça é lenta, mas espera que os culpados não fiquem impunes. A Justiça paulista ainda está ouvindo testemunhas. Nos dias 8 e 9 de agosto, foram ouvidas as testemunhas de acusação, e as de defesa estão previstas para os dias 11 e 12 de novembro. Somente em dezembro, nos dias 9 e 10, serão ouvidos os réus.

São acusados pelo acidente a ex-diretora da Anac, Denise Maria Ayres Abreu, e os ex-diretores da TAM Alberto Fajermann, então vice-presidente, e Marco Aurélio dos Santos Miranda e Castro, então diretor de segurança em voo da empresa. No início do processo, a polícia indiciou 13 pessoas pelo desastre, mas a Justiça só aceitou a denúncia contra os três.

— Finalmente, parece que a Justiça vai punir alguém no caso — disse Scott.

Roberto Gomes, que perdeu um irmão também no acidente da TAM, acha que o mais grave é que Congonhas continua operando sem segurança.

— Só fazem maquiagem nos aeroportos brasileiros, mas não melhoram a segurança dos voos — afirmou.

Rosane Gutjahr, que perdeu o marido no acidente da Gol, em setembro de 2006, está preocupada com a prescrição do crime. Para ela, o excesso de recursos impetrados pelos advogados dos pilotos americanos Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, que comandavam o Legacy no momento do acidente, e o retorno deles ao Estados Unidos podem levar à impunidade. A dupla foi condenada, em segunda instância, a três anos, um mês e dez dias de prisão, mas o Ministério Público Federal, e os representantes das vítimas recorreram da decisão. Eles pedem ainda a cassação dos registros dos dois.

— Queremos que eles cumpram pena no Brasil e que tenham as licenças cassadas — disse Rosane. ●

2 comments

  1. fredfvm
    4 anos ago

    Na minha época de DAC e na aviação do Século passado, anos 90, para um novo piloto assumir o comando de um avião qualquer, era preciso ter voado muito ao lado de outro piloto muito experiente. Fazia-se diversos treinamentos,chegando à exaustão as vezes, mas quem passava por isso, uns 2 ou 4 nos, no mínimo, era indicado a uma vaga de emprego e dificilmente se acidentava.
    Também não existia essa de um piloto formado PP, PC, IFR/Multi, tudo feito em aeroclube e já sair para ir voar no comando de um avião. Tinha mesmo que “passar’ um bom tempo voando de copiloto, para depois então, ser indicado para uma vaga de emprego.
    Hoje em dia o que mais vejo são pessoas inexperientes, mal treinadas e obsecados por conseguir, o mais rápido possível, um avião para já sair voando, empregado. Pior ainda são os novos donos de aviões, empresários que nunca possuíram um avião, que bestialmente pensam em economizar e “contratam” alguém para ir voar. Só não sei quem é mais louco, se é o dono do avião ou o piloto novato.

  2. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Várias expressões furadas e números mal interpretados como é de costume na imprensa brasileira – em especial quando fala de aviação. Mas uma coisa é fato: a ANAC está ausente e nossos índices de acidentes são vergonhosos, e muitos mesmo têm a ver diretamente com a falta de cultura de segurança. Qualquer simples busca no youtube revela o que nossos pilotos andam fazendo por aí na aviação geral.

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