Que 2015 chegue logo, pois 2014 também deverá ser ruim para a aviação

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Leiam a seguir duas reportagens publicadas na imprensa hoje (ambas obtidas no Aeroclipping do SNA) para entender para onde vai o mercado aeronáutico: a primeira,do Valor Econômico, informa o ponto de vista da TAM, que é o de que a aviação nacional só poderá pensar em retomar o crescimento a partir de 2015; e a segunda, do Estadão, fala sobre os planos de novas demissões na Air France, que também trabalha com a hipótese de retomada só depois de 2014. Ou seja: se 2013 está sendo um ano ruim para a aviação, 2014 não deverá ser melhor, infelizmente.

É claro que tratam-se de percepções sujeitas a erros – afinal de contas, não eram essas mesmas empresas que achavam que o mercado estaria crescendo vertiginosamente em 2013? -, mas há um componente de profecia auto-realizável nestas análises que não pode ser desprezado. Isso quer dizer que o próprio fato de agentes econômicos tão gigantescos trabalharem com cenários negativos deverá influenciar no desempenho destes mercados. Então, só o fato de estas grandes empresas realizarem análises pessimistas já é um fator de depressão para a indústria da aviação.

Em termos de mercado de trabalho para pilotos, estas notícias são, sem dúvida, muito ruins para quem está hoje desempregado ou está se formando até o ano que vem. Mas, volto a afirmar o que já disse em diversas outras oportunidades: estas informações não devem ser levadas em conta por quem está começando a formação aeronáutica agora. Tudo pode acontecer no longo prazo, e  dado o comportamento cíclico da aviação (que, inclusive, é citado em ambas reportagens abaixo), nada impede que o mercado volte a se aquecer de 2015 em diante. Do mesmo jeito que decidir-se por ingressar na aviação na época do “apagão de pilotos”, por causa do aquecimento do mercado,  estava errado, também não é certo desistir da aviação pelo mau momento que ela hoje vive.

Mercado só crescerá em 2015, diz TAM
Por João José Oliveira | De São Paulo

A presidente da TAM Linhas Aéreas, Claudia Sender, descarta uma retomada de crescimento no setor antes de 2015. “O ano de 2014 será de estabilidade ou pequena redução. O setor cresceu da forma cara. Agora a gente tem que crescer de forma eficiente”, disse Claudia Sender ao Valor. “Nossa estratégia é fazer a sintonia fina na segmentação da demanda para oferecer a cada cliente o produto mais adequado, no melhor preço”, disse.

O modelo em prática da empresa usa tarifas que variam conforme a sazonalidade. Eventuais aumentos de preços em um segmento, como o de lazer, acabam sendo compensados pelo menor preço médio no corporativo, e vice-versa, mantendo atratividade ante a concorrência sem abrir mão da margem média.

Conforme a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), a TAM fechou julho com uma participação de mercado de 41,9%, considerando a demanda medida por passageiros-quilômetros transportados (RPK, na sigla em inglês). A empresa respondeu por 39,10% da oferta no período, calculada por assentos-quilômetros oferecidos (ASK, na sigla em inglês). Sua taxa de ocupação foi de 84,39%.

“Manter [uma taxa de ocupação] acima de 85% é difícil, exige uma sintonia muito fina. Mas ultrapassamos a marca dos 82% e derrubamos o mito de que haveria turbulências. Esse patamar [acima de 80% de load factor] veio para ficar”, disse Claudia.

Ela afirmou que a conjuntura de dólar apreciado e combustível mais caro exige estratégia comercial que privilegie a melhor utilização das aeronaves. “Quando o custo de tirar o avião do chão é maior que o do ativo, temos que pensar duas vezes antes de voar e não apenas no custo do leasing”, disse Claudia Sender.

Esse raciocínio explica porque a TAM reduziu, entre janeiro e julho, a oferta de assentos em 9,3% ante o mesmo período de 2012, respondendo a um petróleo 10%, mais caro e ao dólar médio 15% apreciado – duas variáveis que impactam 70% dos custos aéreos.

Essa elevação nos custos levou a Latam, controladora da TAM, a um prejuízo líquido de R$ 681,8 milhões no segundo trimestre deste ano, ante lucro líquido de R$ 97,6 milhões obtido no mesmo período do ano passado.

Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), no acumulado dos sete primeiros meses do ano, a demanda aérea doméstico no Brasil caiu 0,2%, enquanto a oferta cedeu 5,11% – primeira retração nessa base de comparação após uma década inteira de expansão, quando o número de brasileiros atendidos saiu de 33 milhões para 80 milhões.

Claudia diz que o ajuste da companhia às condições do mercado, que incluiu o corte em agosto de 811 profissionais, está feito. “Também não vamos lançar nenhum destino novo ou aumentar a frota este ano, e muito provavelmente também em 2014”.

A presidente da TAM Linhas Aéreas ressalta que a liderança de mercado continua sendo prioridade da empresa. “Liderança é importante, vale competitividade para uma empresa que é internacional e tem no Brasil parte relevante da companhia”.

A operação doméstica brasileira responde por 34% da oferta da Latam, holding que controla as aéreas TAM e LAN. “É possível sim ser líder e ter margens no nosso modelo”, afirma Claudia.

A executiva não disse quanto a companhia terá de margem de lucro antes de juros e impostos (Ebit) na operação brasileira. Mas afirmou que o Brasil tem papel relevante para que a Latam consiga atingir uma margem de 4% a 6%, conforme o prometido pela holding este ano.

Além do ajuste da política de preços de passagens, a TAM busca ganhos operacionais de eficiência. A presidente cita a expansão do autoatendimento, que saltou de 24% para 36% em média entre 2012 e 2013, a revisão de processos em solo e o aumento da frota de aeronaves de reserva como fatores que favorecem a melhora de indicadores de pontualidade e regularidade.

Segundo a executiva, esses fatores dão à TAM vantagem na manutenção do público corporativo, onde a companhia é líder. Mas é do turismo de lazer que ela espera um novo impulso, a partir de 2015.

Segundo estudo da Bain & Company, o número de passageiros embarcados per capita no Brasil saltou de 0,22 para 0,37 entre 2005 e 2012. Apesar desse aumento, esse indicador ainda é inferior à taxa de 0,50 que os Estados Unidos apresentavam nos anos 60. “Nosso turismo de lazer está 50 anos atrás dos Estados Unidos. Temos muito a crescer nessa área”, diz Claudia.

Quando esse quadro se confirmar, a TAM quer estar pronta para retomar expansão por meio de novos destinos e maior oferta. “Estamos sempre monitorando”, disse, sobre a possibilidade de abrir rotas quando a demanda pedir. “Olhamos os [aeroportos] regionais que estão evoluindo e que podem entrar na rede nacional em breve”.

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Air France planeja cortar mais 2,8 mil funcionários
Companhia aérea, que já havia anunciado corte de 5,1 mil empregados em 2012, diz viver período de ‘demanda fraca’
Nicolas Clark
THE NEW YORK TIMES/ PARIS

A Air France informou ontem que pretende eliminar mais 2.800 empregos, ou 5% de sua força de trabalho, até o fim do próximo ano, num esforço para recuperar a lucratividade.

“Estamos vivendo um período de demanda fraca”, disse Frédéric Gagey, presidente da companhia aérea, após uma reunião de três horas com conselhos de empregados da Air France. “Estamos enfrentando o pleno impacto do caráter cíclico do transporte aéreo.”

Como muitas companhias aéreas na Europa, a Air France continua enfrentando dificuldades num clima de economia fraca e desemprego crescente. A companhia anunciou 5.100 cortes de empregos em junho de 2012 – parte de um plano de reestruturação mais amplo da companhia controladora, o grupo franco-holandês Air France-KLM.

Alexandre de Juniac, o presidente da Air France-KLM,disse que o grupo provavelmente reportaria um prejuízo líquido em2013 (o sexto prejuízo anual consecutivo) por não conseguir cumprir o objetivo inicial de sair do vermelho.Masele espera que as medidas adicionais façam a companhia retornar ao lucro até o fim de 2014.

Reagindo a pressões do governo socialista da França para evitar perdas de empregos, a Air France disse que as últimas reduções de pessoal seriam realizadas, sobretudo, com uma combinação de saídas voluntárias, aposentadorias precoces, rotatividade da mão de obra e redução da jornada de trabalho. As negociações com os sindicatossobreosnovoscortescomeçarãoem4deoutubro, segundo a empresa.

A Air France, que tem alguns dos custos trabalhistas mais altos entre as empresas de aviação europeias, tem lutado para permanecer competitiva no ambiente de prolongada recessão econômica da região, de custos de combustíveis teimosamente altos e da feroz competição das empresas aéreas de baixos custo. Empresas em rápida expansão da Ásia e do Golfo Pérsico estão espremendo as companhias que oferecem serviço completo como Air France, Lufthansa e British Airways.

Michel Salomon, porta-voz da Air France no sindicato Confédération Française Démocratique du Travail, reconheceu que a situação econômica atual deixou a Air France com a saúde “frágil”equereduçõessignificativas de pessoal eram inevitáveis, mas questionou se as metas da administração não poderiam ser alcançadas exclusivamente por meios voluntários. “Sem oferecer termos atraentes, não há garantias de que eles conseguirão evitar demissões.”

Analistas disseram que a pressão do governo francês – que tem 15,9% da Air France – para limitar demissões no ano passado podem ter levado a administração a ser menos agressiva em seu plano inicial de reestruturação. “A primeira onda não foi suficiente para alcançar as metas estabelecidas pela companhia”, disse Yan Derocles, um analista do setor na Oddo Securities em Paris. Ontem, De Juniac admitiu que o plano anunciado no ano passado não havia sido suficiente.

●Em busca do lucro
€ 163 mi foi o prejuízo da Air France no segundo trimestre deste ano
€ 897 mi foi o prejuízo reportado no mesmo período do ano passado

20 comments

  1. Francenilson
    4 anos ago

    Nao vejo hora de me arrumar fora da aviação, 20 anos de luta….to saturado, nao agüento mais ouvir falar em crise, ficar longe de casa.

  2. marcos PPA
    4 anos ago

    Pegue seu dinheirinho e invista em outra coisa,porque piloto e so gastar pra queimar combustivel.conheço muitos cmtes sem trabalho.

  3. Em se tratando de aviação nacional a TAM é um grande indicador, mas em um aspecto global não faz nem cócegas. Vou na linha do Fábio tem muita empresa estrangeira em pleno crescimento que irá absorver muitos pilotos, o que fará a fila aqui ni Brasil andar.

  4. fredfvm
    4 anos ago

    Só não entendo muito ainda o pensamento de muitos que pensam que aviação no Brasil é somente a aviação comercial. Sei que muitos desejam esta, mas em tempos de “vacas magras” o melhor mesmo é não deixar de voar. Sei de muitos que estão indo voar na aviação agrícola, que pelo sinal deve estar indo muito bem, pois tenho vários amigos que foram voar nela, aguardando a época do “boi gordo” para tentar algo na comercial.

    • Rafael
      4 anos ago

      Caro Fred,

      O seu questionamento é válido. O problema é que no Brasil ainda vivemos o seguinte fluxo: Aeroclube -> INVA / Freela -> Táxi Aéreo -> Linha Aérea. Logo, se as coisas na comercial não vão bem, a fila não anda.

      Claro, nem todo mundo que está no Taxi Aéreo quer LA. E muita gente que está nos Aeroclubes querem o Táxi Aéreo e pronto. Mas se a fila não anda, a coisa complica.

      Abraços,

  5. Humberto Rodrigues
    4 anos ago

    Como diria nossa presidanta:

    – O pior já passou.

  6. Rubens
    4 anos ago

    No mundo da previsao so quero 6 numeros.

  7. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Como disse o Fábio, aqui está está (*&% mas no mundo todo a coisa está andando. O que pega realmente é pros low hours. Quem TR de jato tá aqui em grande parte porque quer. Com low hours vc não consegue work permit nem pra dar instrução, a menos que vc comece do começo (fazer PP/IFR/PC fora e emendar no INVA), e nisso recomendo muito Canadá (pra quem quer ficar pra sempre) e EUA (pra quem quer ficar pelo menos alguns anos). O problema é que a gente só sabe das coisas depois que passa por elas. Quem tiver a oportunidade, aproveite. Eu não consegui.

    • Felipp Frassetto
      4 anos ago

      Enderson,

      Você poderia detalhar um pouco mais sobre a sua frase “…nisso recomendo muito o Canadá (para quem quer ficar para sempre)…”?
      Por que exatamente?
      Pergunto porque sou novato no assunto e me chamou a atenção. Iniciei o PPA mas nem cheguei a terminar as matérias.

      Obrigado.

      Abraço.

      • Enderson Rafael
        4 anos ago

        Frassetto, consulte alguma escolas lá, como a GTF e a Harv’s. Dê uma olhada nos sites e mande email pedindo informações. Basicamente, se vc tem o dinheiro, pode fazer pp/ifr/pc/inva lah e trabalhar como instrutor. Dependendo, pode ateh imigrar depois. Dê uma olhada;-)

    • Rose Trindade
      2 anos ago

      Mr. Enderson! !!
      O senhor por aqui???
      Coincidência, não? !
      Sobre seu comentário sobre o mercado de aviação no Canadá, o q poderia dizer mais sobre isso?

  8. Julio Petruchio
    4 anos ago

    Tem “água para passar embaixo da ponte” ainda…

  9. Menezes
    4 anos ago

    Pois é, isso é realmente bom pra quem está iniciando na aviação (como eu), mas para quem está no fogo e desempregado é realmente preocupante. Para mim que 2015 demore bastante, pois não tenho dinheiro sobrando pra fazer tudo que preciso em um curto espaço de tempo e para os que já estão no mercado ou fora dele, fé no que virá.

  10. Concordo com o Wilson Vieira. “Prognósticos” da TAM não são exatamente norteadores das minhas perspectivas (tanto é que saí de lá há 13 anos e meio, e foi uma boa decisão). Quanto à Air France, estou propenso a concluir que o corte que será feito tem outras razões por trás (uma delas é matar greves no nascedouro; apesar de ter sido privatizada há tempo, ainda é uma empresa inchada, com benefícios trabalhistas que eram meu sonho de consumo, mesmo quando eu voava na VASP dos bons tempos do Professor Angarita etc). Que tal esta outra notícia: “Lufthansa encomenda 59 jatos da Boeing e da Airbus”??? Afora isso, a Ryan Air segue aceitando non-europeans / non-JAR FCL holders, e a Turkish aceita non-current B777 Captains, desde que tenham JAR FCL e mesmo que estejam com a licença expirada há mais de 3 anos. No Oriente Médio, todas as grandes / principais (Qatar / Emirates & FlyDubai / Etihad / Air Arabia / Saudia etc) seguem se expandindo e contratando continuamente. Então, o meu entendimento é de que os problemas da TAM e da Air France são mais de “fogo amigo” e/ou conjunturais dos respectivos países, do que propriamente da Aviação Mundial, “overall”…posso estar equivocado…

    • Flavio Veiga
      4 anos ago

      Fabio, mais um otimo post seu. E gostei ainda mais por saber que vc foi da VSP.

      Lendo o texto acima e tentando uma comparacao com o mercado de açoes. Fiquei pensando se nao seria esta uma boa hora para se iniciar o planejamento p/ um curso de piloto. No meio do pessimismo, sempre existem oportunidades.
      Ja que estamos na baixa (ou indo para ela) e um curso completo dura seus 2 a 3 anos. Quem comecar em breve estaria com boas chances de conseguir certos beneficios no Aeroclube (que estao vazios, terao escalas tranquilas, descontos num pacote de horas, etc). E como a Aviacao é ciclica e ascendente, por boas decadas teremos empregos (acho que sempre ira crescer, mesmo periodos curtos de queda, no medio a longo prazo crescer, ou seria acreditar num desastre mundial ou voltar a idade media).
      Imagino que quem fez em 2011 e 2012 comprou na alta e agora só vê perdas, tera que sentar e esperar. Ja a moçada que começa agora, se bem planejado, pode colher alguns bons frutos.

  11. wilson vieira
    4 anos ago

    Eu , realmente fico com o pé atrás das declarações da TAM , em um passado não muito distante a TAM declarou na mídia que precisaria de centenas de pilotos e meses após, demitiu desastrosamente centenas de pilotos !!!! fora os que são reprovados em simulador por razões de corte de pessoal, que nem é divulgado na mídia.

    francamente!!!!

  12. Sander Ruscigno
    4 anos ago

    Eu particularmente discordo do título do post, no entanto concordo que o ano que vem não deve ser muito bom, porque hoje vivemos visivelmente em uma tendência de baixa e acredito que antes de engrenar uma subida o mercado vai ficar de lado um pouco.

    Discordo do título porque penso que quanto mais demorar para chegar 2015 mais tempo teremos para nos preparar para a virada da tendência, então que 2013/2014 sejam grandes o suficientes para melhorarmos nosso inglês, para ficar mais proficientes na nossa pilotagem, para fazermos mais amigos e mais contatos. Assim quando 2015 bater a nossa porta estaremos prontos e qualificados para surfar as oportunidades.

    Abraço

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