Um ótimo (ou péssimo) exemplo de como a indisciplina de voo mata

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Alerta de Voo No17          PT-OBJ

Ontem, publiquei o post “‘Fly the dog’: Você PRECISA ler este artigo!“, em que apresentava um texto sobre segurança de voo que, resumidamente, dizia o seguinte: “O que mata mesmo na aviação é indisciplina e  falta de CRM”. Por coincidência, no mesmo dia eu recebi do amigo Rodrigo Silva, o Alerta de Voo Nº 17 (link acima) sobre “Operação de aeronaves não homologadas para voos por instrumentos por pilotos sem habilitação IFR sob condições meteorológicas adversas” (ou seja: o velho e bom ‘visumento’), que remete ao Relatório Final do PT-OBJ (também linkado acima). Pois muito bem, e o que diz a conclusão do relatório do CENIPA? Está lá no item 3.2.1.3.1.b, como um dos principais fatores contribuintes relacionado ao acidente: Indisciplina de voo!

Indisciplina do piloto? Sem dúvida, mas vamos explorar esse RF um pouco mais. Vejamos o item 1.17. Nele, fica-se sabendo que aquele piloto trabalhava para o proprietário da aeronave há 15 anos, desde que este adquirira o avião, sem vínculo empregatício (o piloto também pilotava outras aeronaves), e voava o Bonanza PT-OBJ 6h/semana em semanas alternadas. Isso  quer dizer que o proprietário manteve seu piloto em bases absolutamente precárias durante 15 anos, ou seja: ele (o proprietário) também fora completamente indisciplinado! Um piloto mantido sob essas condições certamente nunca teve nenhum incentivo para se aprimorar em termos de segurança de voo (nem habilitado IFR ele era, na verdade); e aí, quando acontece o acidente, qual é a causa? “Uma fatalidade”, certamente, né? “Chegou o dia dele, coitado”…

O ponto é que, se esse piloto tivesse dito para o patrão “Olha, você me desculpe, mas eu só continuo trabalhando para o senhor se eu for registrado e tiver um treinamento adequado em segurança de voo”, o que teria lhe acontecido? O patrão concordaria – “Ah, que bom que você é consciencioso em relação à segurança! Toma aqui uma passagem para você ir para Wichita fazer um treinamento na Beech!” -, ou, simplesmente, o demitiria e contrataria um outro piloto que se sujeitasse a trabalhar “do jeito dele”? Percebem onde quero chegar? Sem querer tirar a responsabilidade das costas do piloto – que foi, sim, indisciplinado -, o problema é que muitos operadores e proprietários de aeronaves da executiva/91 são co-responsáveis pela indisciplina. Ou, dependendo do ponto de vista, até mais responsáveis…

Por isso, eu acho que já está na hora de focar os proprietários e operadores da aviação executiva/91 nas campanhas de segurança de voo. Porque enquanto esse pessoal não se conscientizar quanto ao problema da indisciplina, de nada vai adiantar tentar conscientizar os pilotos. Sempre vai haver um que está mais desesperado, ou mais “rogue” – e se não houver um PC nessas condições, esses proprietários /operadores irão contratar PPs ou nem isso… E aí, dona ANAC? E aí dona APPA? E aí seu CENIPA? Que tal começarem a pensar nisso?

 

6 comments

  1. Rubens
    4 anos ago

    Era PP e trabalhava ha 15 anos…se começa errado não tem como terminar certo!

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Mas o piloto era PC…

      • Rubens
        4 anos ago

        No item 1.5.1.2 do relatorio dizia PP.

        • Raul Marinho
          4 anos ago

          Putz, vc tem razão! É que eu vi 4mil horas de voo, e fui induzido a achar que era PC. E não há, nem no RF do CENIPA, e nem no Alerta de Voo da ANAC, qualquer menção a este fato. Mais uma barbaridade do acidente!

          • Rubens
            4 anos ago

            Na minha opiniao ganhou o “trofeu rogue pilot”
            15 anos trabalhando, 4000hs de voo , não fez nem PC nem IFR , era tigrão m,esmo

  2. Eh que a nossa legislacao estimula essa covardia, imputando somente o pessoal operacional, a nao ser quando se trata de desastres de grandes proporcoes, como foram os dois ultimos da TAM em Congonhas e/ou o da GOL cuja asa foi decepada pelo winglet do Legacy na Amazonia. Na Asia e Oriente Medio, tanto em termos de marco regulatorio de Aviacao quanto dos regulamentos internos dos operadores, todo o mundo envolvido eh solidariamente responsavel, entao a forcacao de barra sobre os tripulantes eh muito menor, quando nao inexistente (ateh pq – em muitos desses paises – prisao perpetua e pena de morte nao sao sentencas incomuns). Lah o bicho pega, mesmo. Nada de “recursos infringentes”, chicanagem sem fim etc…

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