“CP-Casts” sobre formação e carreira fora do Brasil – e mais alguns pitacos

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Os últimos dois “CP-Casts” (áudios de entrevistas com pessoas relacionadas à aviação) publicados pelo blog Canal Piloto tiveram como protagonistas, coincidentemente, dois amigos meus: o Enderson Rafael, que falou sobre formação aeronáutica nos EUA (CP-Cast #30); e o Rafael Santos, que falou sobre a carreira de piloto expatriado (CP-Cast #31). E, além de recomendar ambos – estão excelentes! -, gostaria de acrescentar algumas observações sobre as estratégia de carreira neles baseadas, já que as duas entrevistas estão inter-relacionadas (na verdade, uma é praticamente a continuação da outra).

Independente da situação ruim por que passa a aviação brasileira neste momento (que vai melhorar, cedo ou tarde) e da própria situação do Brasil como um todo (que não é boa, em vários sentidos – e, honestamente, não sei se vai melhorar no curto/médio prazo), eu acredito que, para quem está começando agora a carreira de piloto, a opção de voar fora do país deve ser considerada com muita seriedade. Porque, por mais que a aviação brasileira melhore, dificilmente chegaremos ao nível salarial e de respeito ao profissional (e também ao profissionalismo em si) que a carreira oferece no exterior. Quanto ao país, não vou nem entrar em detalhes porque ampliaria demais meu texto, mas só o fato de termos 50 mil assassinatos por ano no país já dá o que pensar sobre se vale a pena mesmo continuar morando aqui.

Bem, mas o ponto em que eu gostaria de chegar é o seguinte. Uma vez concluído que emigrar, e ir voar na Ásia ou no Oriente Médio (ou onde mais for possível e interessante) é a melhor alternativa, é preciso pensar sobre como chegar lá – e é aí que a formação nos EUA faz realmente sentido. Porque não pensem vocês que somente devido à alta demanda por pilotos que países como a China ou os Emirados Árabes possuem, isso significa que eles contratarão o primeiro pangaré que passar nas suas portas. E, vamos ser sinceros: muito embora haja ótimos aviadores formados no Brasil, formação por formação, a da FAA é bem melhor do que a da ANAC. Ela é mais longa, a infraestrutura para treinamento é muito superior, o programa é mais completo, os cheques são mais rigorosos, e não menos importante: ela ocorre 100% em inglês, o que por si só já é um enorme diferencial para o sujeito adquirir uma melhor proficiência no idioma em que será avaliado quando quiser ingressar numa companhia estrangeira.

Pessoal, as companhias asiáticas e árabes estão oferecendo salários para comandantes de A320/B737 próximos de US$230mil/ano líquidos. Sabe quanto dá isso em reais por mês? Cerca de R$44mil, ao câmbio de US$1,00=R$2,30 (e o sujeito teria que ganhar uns R$75mil/mês brutos no Brasil para colocar esse valor no bolso, devido ao IR, INSS, etc.). Quando é que um comandante da TAM/Gol/Avianca (e não vou nem falar da Azul/TRIP porque aí é covardia) vai ganhar isso? Mas, ok, dinheiro não é tudo, então ouçam a entrevista do Rafael, e notem o que ele diz sobre como a companhia em que ele trabalha trata seus funcionários. Prestem atenção ao que ele diz sobre como é a relação dos pilotos com seus pares e outros profissionais dentro e fora do avião, e como é a infraestrutura aeroportuária de que ele dispõe no exterior. E depois, abram os jornais e leiam sobre os médicos cubanos, sobre a reitoria invadida da USP com um juiz se recusando a ordenar a reintegração de posse, sobre a situação deprimente das estradas/portos/aeroportos, sobre os escândalos de corrupção que se avolumam, e… as pesquisas eleitorais que apontam para a manutenção dos mesmos governantes responsáveis por esse estado de coisas indefinidamente (mesmo porque as alternativas também não são nada animadoras). Daí, tirem suas próprias conclusões.

 

12 comments

  1. André Pavin
    4 anos ago

    Fiz minha formação nos EUA já pensando em me mudar do Brasil assim que possível, pois sei que uma FAA é muito bem vista. Tenho certeza que trabalharei fora (seja em qualquer país melhor que o Brasil), o problema disso e que pergunto a vários comandantes experientes (inclusive já ao Rafael da KAL) é como nós, recém formados, com o pacote completo (FAA, ANAC, MLTE, IFR, ICAO, PLA) fazemos para chegar nos mínimos desse países tão exigentes com o mercado e estrutura que o Brasil tem hoje? Todos me dizem para ter paciência e isso tenho de sobra, mas será que não existe nenhuma outra maneira de alcançarmos esses mínimos? Inclusive, Raul, conversamos brevemente em e-mail já de criarmos um tópico sobre essas pessoas que assim como eu, está com o ‘pacote’ pronto mas simplesmente sem ter o que fazer (mesmo tendo QI).

    • Enderson Rafael
      4 anos ago

      Pois é, Pavin, estou em situação semelhante. Não existe uma ponte entre nós e esses países que não passe pelo estagnidíssimo – e até recessivo – mercado de linha aérea brasileiro. Será que um dia a escassez de pilotos no Oriente e Ásia chegará a compensar isso e dispensar o Brasil de “escolinha de TR”?

  2. Caio Cracco
    4 anos ago

    Raul, e o mercado para asa rotativa, como é no exterior? Pesquiso muito sobre o tema e não percebo a mesma migração que ocorre na asa fixa!
    Abs

  3. Rafael
    4 anos ago

    Os podcast são muito bons mesmo! Já tinha escutado do Santos. Hoje escutei do Enderson. Considero os dois como sendo uns dos podcast mais interessantes para o pessoal de asa fixa.

    Realmente o profissionalismo e a seriedade das outra culturas botam nós cucas no chinelo.

    Já morei fora. Só vejo um motivo (para quem tem os skills necessários) para alguém continuar no Brasil, FAMÍLIA. Porque de resto, não vejo nada.

  4. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Oi, Raul, foi uma feliz coincidência os CP Casts 30 e 31 se complementarem tanto. Na verdade, até o 29 entra na dança ao apontar os problemas da ANAC. Como vc bem observou, a diferença maior está mesmo nas licenças iniciais até o CFI/INVA (que eu tenha vivido, até o CPL/PC). Mas dentro da linha aérea, o perfil do check é bem parecido mesmo aqui. O cheque de comissário da ANAC (importantíssimo: feito por checadores da própria empresa, que voam o avião todo dia e são credenciados pela agência) é bastante extenso e completo Chega a durar mais de 1h, dentro da aeronave, no hangar, além do check em rota, que é mais curto – fazendo o paralelo, seria o check dos pilotos no simulador seguido do check em voo, onde tampouco se podem cobrar as mesmas coisas pois temos pax a bordo e estamos trabalhando enquanto somos checados – imagino que com os pilotos não seja mais brando de forma alguma, e isso é ótimo. Mas até pra isso vale se formar fora, pois você já se acostuma com esse tipo de check, que é extremamente parecido com o check FAA. E sim, há todo um mundo lá fora, e eu fiquei realmente encantando com o que o Rafael contou da Coreia, eu sabia que era bom, mas não tinha ideia que era tanto. Mas conheço alguns que estão na China e no Oriente Médio, e todos contam histórias parecidas. Na vida temos que sacrificar algumas coisas para ter outras, sempre. Voar fora faz cada vez mais sentido, e nesse ponto a formação fora faz todo o sentido também. Não porque vc saia direto do check FAA de PC/mlte pra China, isso – ainda – não dá pra fazer (pra nós, que somos brasileiros: pros pilotos destes países é assim que funciona exatamente), mas pq vc terá todas as suas licenças baseadas numa carteira bastante respeitada (inclusive há a possibilidade de fazer a carteira EASA nos EUA, que vale mto a pena pra quem tem cidadania europeia). Enfim, no longo prazo todos estaremos mortos, mas no médio, quem sabe, não voamos um widebody shingling sem corrermos o risco de sermos assaltados ou mesmo mortos no caminho pro aeroporto (que lá leva mto menos tempo e vc tem a opção de a empresa te pegar em casa).

  5. fredfvm
    4 anos ago

    Realmente Marinho, esse último CP-Cast do Canal Piloto foi uma pancada no ego de muitos pilotos brasileiros que se acham… Deu para notar que nossa aviação está ha anos-luz do que se poderia imaginar em ter uma aviação moderna eque estamos mau acostumados eu tudo. Para mim o pior entrave que temos ainda se chama o “jeitinho brasileiro de ser” onde tudo aqui sempre tem uma mão amiga que atrapalha o progresso de uma profissão, onde os competentes não são dado a importância crucial.
    Não é de se pensar somente se vale a pena mesmo continuar morando aqui, mas também se vale a pena considerar nossas coisas como sérias. A que ponto chegamos…

    • Rafael
      4 anos ago

      Fred,

      Vou usar as palavras que já ouvi de um executivo francês (e olha que com as leis trabalhista deles não podem falar muita coisa). Frase: “Esse país não é sério.”

      Não tem jeito. Nosso país não é sério. nós como sociedade, não somos sérios. E a nossa cultura não prega pela seriedade e profissionalismo.

      Somos da cultura do jeitinho e da sacanagem. Damos um passo e retrocedemos 2….

      • fredfvm
        4 anos ago

        Pua herança cultural que recebemos de Portugal na época do Brasil Colônia e do descobrimento, onde tudo o que não prestava em Portugal era trazido para cá, desde condenados a até pessoas de má índole. Temos esse tipo de sangue do passado.

  6. Concordo com quase tudo, exceto com o aspecto check-ride: o cheque FAA – ao contrário do que “reza a lenda” e supondo-se, of course, que o caboclo fale/leia/escreva em inglês – não é mais difícil do que o cheque (ANAC) da ICAO, ao qual estamos acostumados, exceto pelo Oral Test do cheque inicial para obtenção de licença, que é bem extenso. Meu Oral test durou exatamente uma hora, se bem que eu já estava acostumado a isso, pois quando chequei o ATPL (PLA) nos EUA já havia instruído por 6.5 anos em um Training Center homologado sob o Part 142. Só foram feitas questões objetivas sobre o avião (Gulfstream GIV) cujo type rating eu estava buscando. Inclusive o written test (que na verdade é “typed”) é muito tranqūilo (de novo: desde que se fale/leia bem em inglês, óbvio!). O processo de credenciamento / obtenção de licença foi – na minha experiência pessoal – o mais objetivo e honesto, dentre todas as licenças e/ou validations que já obtive.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Fábio, minha comparação foi entre os cheques de PP, PC e INVA/CPL iniciais realizados em escolas brasileiras e americanas, que é o que tenho mais conhecimento. E, nestes, casos, a diferença é gritante, especialmente para os INVAs/CPLs. Quanto a ATPL, Gulfstream etc., nem tenho conhecimento para opinar…

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