Por que não se contratam pilotos pela web no Brasil?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Ontem, recebi do amigo Oswaldo Bustani uma mensagem sugerindo que eu fizesse uma matéria sobre sites como o findapilot.com, e porque não temos algo semelhante no Brasil. Achei a sugestão interessante porque também recebi recentemente um comentário (do leitor Ben, de Chicago-USA, no FAQ) perguntando “…e voce conhece alguma pagina web onde eu possa pesquisar vagas [para pilotos]?” – em que tive que responder que, por incrível que pareça, isso não existe no Brasil. E neste post vamos explorar os motivos por que isto ocorre.

Na realidade, eu menti para o Ben: existem sites para empregos de pilotos no Brasil, sim. A EJ, por exemplo, tem um banco de currículos; e a Elancers, embora não seja especializada em aviação, atua em todas as companhias aéreas do país (há, inclusive, um post sobre a Elancers aqui no blog). E algum tempo atrás, eu até discuti a viabilidade de se criar um site ou aplicativo para tablets para viabilizar a contratação de pilotos com poucas horas de voo, neste post “iFly-B: discussão sobre um aplicativo brasileiro para pilotos novatos“. Ocorre que nem o banco de currículos da EJ está tendo sucesso, nem o aplicativo/site que eu sugeri foi para a frente, e nem a Elancers consegue atuar na aviação geral (e, hoje em dia, nem na comercial, por motivos óbvios – nenhuma companhia aérea está contratando). Eu menti para o Ben para não ter que explicar tudo isto (que nem sei se um americano conseguiria entender, para ser sincero): nós não temos sites como o findapilot.com porque eles não funcionariam no nosso mercado.

Mesmo na aviação comercial, que praticamente só contrata via Elancers, a gente sabe que parte significativa das contratações somente é formalizada via site: as decisões sobre quem contratar continuam sendo tomadas da maneira “convencional” – leia-se QI. Já na aviação geral, nem é preciso essa frescura de formalização via site, o recrutamento & seleção se dá no QI puro e simples e pronto. Já explorei a anatomia do QI nestes posts – “QI na aviação – Parte I” e “QI na aviação – Parte II” – e não sou do tipo que demoniza o “Quem Indica”. Mas também é preciso reconhecer que a contratação de pilotos  via QI reflete o amadorismo da aviação brasileira, que não consegue estabelecer critérios técnicos e profissionais para a contratação de pilotos. Bem, mas indo direto ao ponto que o amigo Bustani sugeriu: nós não temos um findapilot.com no Brasil (e nem teremos tão cedo) porque nossa aviação (geral, principalmente) ainda não se profissionalizou. Ela cresceu, chegou a mais de 13mil aeronaves, mas continua essencialmente como era nos anos 1950. A realidade é essa, infelizmente.

10 comments

  1. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Raul, sempre torço pela profissionalização, doa a quem doer, e geralmente dói em mim tb. Mas como meus principios sao mais duradouros que as circunstancias, sempre fico com eles – sim, eu nunca canetei, por mais que essas horas façam falta não mercado tão ink flight como o nosso. Torço pra termos sim sites de empregos pra pilotos no Brasil. As dezenas de vagas inalcansáveis que recebo toda semana do pilotjobs ou do aviationjobs soh me dão a certeza de que essa maneira eh justa e pratica. Porém, enquanto tiver mto menos vaga que pilotos no Brasil, não dah pra imaginar isso funcionando aqui. E essa situação horrorosa promete extender-se por anos: soh em 2012 foram alguns milhares de pcs recem formados e plas demitidos pro mercado e qtas vagas foram criadas? O saldo foi sequer positivo? Creio que necessitariamos de algumas dezenas de vagas na geral ao mes pra isso começar a ter chance de dar certo. E tivemos o que? Algumas dezenas no ano? Qdo aparece vaga ba Cato todo mundo esculhamba. Essa eh a cabecinha do pessoal. E mais uma vez, pros low hours seria bom negocio isso? Tenho minhas duvidas. Mas como meus principios sao mais valiosos que uma ou outra vantagem pontual minha, prefiro ficar desempregado num mercado profissional do que, como agora, num amador.

  2. Raul Marinho
    4 anos ago

    Aos amigos Beto Arcaro, Fábio Otero e Marcelo Quaranta, três dos mais seniores leitores daqui do blog, eu gostaria de comentar o seguinte:

    Entendo a importância do QI, inclusive escrevi um texto explicando por que o mercado aeronáutico tem essa característica. Mas, mesmo assim, eu acredito que poderia haver uma maior profissionalização do processo de recrutamento & seleção da aviação geral, como acontece nos EUA, por exemplo. Lá, o QI também é importante, mas boa parte dos pilotos são contratados via sites especializados – o que, acredito, também poderia ocorrer no Brasil. Isso vem ocorrendo na aviação comercial, e na última fase positiva do mercado, muita gente foi contratada desta maneira, especialmente na Azul. E eu acho que, maid dia menos dia, também na aviação geral isso vai começar a acontecer. Vamos ver… “O tempo é o senhor da razão”, já dizia a camiseta daquele outro, né?

  3. Marcelo Rates Quaranta
    4 anos ago

    Amigo Raul, concordando com o Fábio e com Beto, a indicação ou tradicional “QI” vai continuar existindo exatamente pelas razões já expostas. Quando você indica um piloto, o faz por conhecer sua experiência, sua capacidade de trabalhar em grupo, pelo comportamento ético, responsabilidade e sabendo que o cara não vai dar dor de cabeça na empresa.
    E concordando com o Beto, nem sempre é fácil indicar também, pois qualquer atitude errada vai ser cobrada de quem indicou. Logo, tem que conhecer muito bem o indicado. Na aviação geral sobretudo, ainda é o meio mais eficaz, pois não estamos falando de o cara trabalhar num escritório, e sim transportando vidas. Na maioria das vezes, não há na aviação geral o corte no simulador, cursos, padronizações operacionais, avaliações e aprendizado como co-piloto. Então, não há outra forma.

    Grande abraço!

  4. Na Aviação Executiva o Q.I. (ou “networking”, para usar um termo mais pomposo lá de fora) sempre existiu e duvido que um dia deixe de existir, pela própria natureza do segmento. Voa-se sempre entre os mesmos 2 ou 3, tem que ser grupos que “toquem de ouvido”. Não é impessoal como numa feota grande, da linha aérea. Não sou de endossar ou demonizar as coisas, mas a realidade é essa. Por outro lado – e até pelo fato de já ter participado de junta de “screenings”, enquanto exercia cargo de chefia no exterior – acho os tais “critérios técnicos e profissionais” bem discutíveis, ou vou no popular: bem pouco técnicos e nada profissionais. Na verdade, vejo-os como máquina de fazer dinheiro, inventada e imposta pelas tais “consultorias de RH” (xingamentos em 3, 2, 1…fiquem à vontade, mas é minha opinião e ninguém me disse; venho testemunhando pessoalmente absurdos e besteiróis há muitos anos, neste sentido). Se os mecanismos de “screening” tivessem mais influência dos deptos. de Flight Ops (me refiro a empresas brasileiras e estrangeiras), talvez eu os respeitasse um pouco mais. Agora, alienar e/ou mesmo eximir os pilotos (em cargos de chefia) do processo de seleção através da imposição de uma dinâmica de grupo de “kindergarten” (ou de uma entrevista com psicóloga que recém tirou diploma e/ou mesmo estagiária, e que deve saber de Aviação menos do que sabem o Hassan e a Mandala, meus G.S.D.’s), ou mesmo de sessão de polígrafo, como em um certo país latino-americano, não me soam como as melhores metodologias para selecionar os aviadores mais adequados à função.

  5. David Banner
    4 anos ago

    Isso não funciona aqui no Brasil pois é um querendo comer o fígado do outro na aviação geral. Um proprietário vai querer que o piloto que esteja sendo contratado seja avaliado por outro piloto de sua confiança. E é ai que jaz o problema. O “piloto de confiança”, que é quem poderia dizer ao proprietário: “PODE CONTRATAR”, jamais daria esse aval a alguém que não fosse seu chegado/apadrinhado/filho etc… pra que ele iria indicar/avalizar um desconhecido, se ele pode encaixar alguém do interesse dele?

    Um banco de CVs desse só seria vantagem pra um proprietário que vive a margem da lei, que contrataria então um zé ruela PP qualquer, ganhando R$1200,00 pra voar Cirrus e RV-9, como já vi por ai, com documentação/manutenção atrasada, operando em pistas no mínimo suspeitas e por ai vai…

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Foi o que eu disse no evento da FUMEC: “O problema não é que a classe dos pilotos é desunida; e sim que ela é composta por fura-olhos!”.

      • Freddy da Silva
        4 anos ago

        Verdade Raul. Infelizmente.

    • Beto Arcaro
      4 anos ago

      David Banner….Não fique “Verde” de nervoso! Rrsrsrsrs….Só “os fortes” entenderão essa !
      Brincadeiras à parte, posso dizer por experiência própria, que ultimamente até com QI e uma experiência razoável, a coisa está difícil.
      Já estive na pele de quem “indica” por obrigação (muitas vezes, faz parte do trabalho) e posso dizer que também não é fácil.
      Às vezes o “feitiço volta contra o feiticeiro”! No meu ver, com os meus pricípios, é muita responsabilidade indicar alguém na Aviação.
      Aí entramos, de novo naquele “Mimimi” do QI.
      Você, como “Piloto Chefe” de uma Linha Aérea, Táxi Aéreo, ou de um Departamento de Vôo na Aviação Geral, não daria preferência para “quem você conhece”? E olha que na Aviação, a gente conhece muita gente!
      Isso do QI, existe no Mundo inteiro!
      Aqui no Brasil isso é mais arraigado, por questões culturais, a formação, as coisas são mais difíceis, etc.
      Quem tiver uma “Revista Skydive”, ou “Aviação em Revista” antiga, vai se lembrar de uma propaganda de extremo mal gosto, até para aqueles dias, do ARGS.
      Ela mostrava a foto dos Pais (Cmtes da Varig, é claro!) e dos filhos (Copilotos, todos formados no ARGS, também na Varig).
      No topo da página, em letras garrafais, estava o seguinte ditado:
      “FILHO DE PEIXE, PEIXINHO É !”
      Posso dizer mais alguma coisa?
      Voltando ao tópico do post, do “porquê” não existirem “Sites” de bancos de emprego em Aviação no Brasil, acredito que a resposta é simples:
      Não existe mercado para isso !
      E o mercado que existe é restrito, não só por conta da situação econômica, mas também, um pouco por “Nossa Culpa”!
      Aqui no Brasil, temos muito essa mania de “começar por cima”!
      O Cara tem 200 Hrs de vôo e quer entrar com QI numa Linha Aérea!
      Ou então quer voar na “Geral”, de Copiloto de….no mínimo, “King Air”!
      Se você olhar os “primeiros empregos” nos EUA (Enviei um artigo da Flying pro Raul já à algum tempo. Ele postou no Blog e você verá muitos deles nos “FindAPilot” da vida), são basicamente, aqueles que ninguém quer, aqui no Brasil.
      “Puxar Faixa” na praia, dar instrução (lá o instrutor ganha bem, mas “faz por merecer”), voar de Copiloto naquelas “Super Máquinas” de apagar incêndios, Ambulância aérea, etc.
      Um amigo, que foi meu Copiloto no Baron, está voando um Skylane lá em Fortaleza, rastreando carros roubados, e aí?
      Quando o Mercado estiver bom, de novo, se é que um dia ele já esteve, ele terá um número de horas de vôo bastante expressivo, e olha que ele não está ganhando tão mal não!
      Será que não é melhor, na atual conjuntura, ser “CABEÇA DE SARDINHA, DO QUÊ RABO DE BALEIA”?
      Seria assim a nova propaganda do ARGS?
      Talvez seja difícil explicar isso pro tal do Ben, mesmo…
      Enfim, são só opiniões.
      Como o Raul disse, para explorar melhor esse assunto.

      • Rodrigo
        4 anos ago

        Realmente a indicação sempre vai fazer a diferença. Fui indicado para o meu primeiro emprego, fui indicado para o segundo e fui indicado para o terceiro. Das 3 indicações duas fui indicado por pilotos experientes e respeitados na região e que me conheciam desde quando era criança, mas ainda acho que se não fosse capacitado para o cargo eles não colocariam a mão no fogo por mim. Existem os capacitados e os qualificados para o cargo.

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