RF do PT-NKS: um relatório que você precisa ler com atenção

By: Author Raul MarinhoPosted on
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RF do PT-NKS

Acho interessante ler o RF do link acima por diversos motivos:

1) Para confrontar suas informações técnicas com o que saiu na imprensa sobre ele (ao final deste post, há duas reportagens recentemente publicadas pela imprensa que citam o acidente e o relatório);

2) Para ver, mais uma vez, como é comum haver acidentes com pilotos na fase de “fazer hora”, vide trecho abaixo (e notem que o piloto era um PP voando de “freelance” – se remunerado ou não, não fica claro no relatório):

nks-1

3) Para ver como é arriscado voar VFR em IMC, conforme explicitado no trecho abaixo (“vou sair daqui a pouco” [de dentro da nuvem]? Como ele pode saber isso?):

nks-2

E, finalmente (mas não menos importante):

4) Para ter uma aula sobre como funcionam as sobrecargas aerodinâmicas em uma aeronave que excede as velocidades máximas estruturais e entra em regiões de extrema instabilidade atmosférica. Para isso, leiam atentamente ao item 1.16 do RF, entre as páginas 14 e 18.

Enfim, por qualquer um dos motivos acima (e, principalmente, por todos eles), este é um RF que vale muito a pena ser estudado.

Notícias veiculadas na imprensa sobre este acidente (fonte: Aeroclipping do SNA de 19/12/13):

1) Portal G1 de 18/12013:

Avião com conselheiro do TCE caiu devido más condições climáticas
Segundo o coronel, o piloto entrou com uma velocidade acima do normal.
Investigações do Seripa mostram que a asa do aeronave se desprendeu.
Do G1 PI

O coronel João Roberto Mendes do Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa) revelou, com exclusividade ao PI TV 1ª Edição, as causa do acidente aéreo que vitimou o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Xavier Neto, e outras duas pessoas em março do ano passado. Segundo ele, as investigações do Seripa mostram que a queda do avião foi ocasionada porque a asa do aeronave se desprendeu devido condições atmosféricas.

Ainda segundo o coronel, o piloto não voava por instrumento (feito quando não há referências visuais para os pilotos) e entrou com uma velocidade acima do normal numa aérea de turbulência. “O relatório está pronto e deve ser publicado nos próximos dias”, acrescentou.

O acidente aconteceu em março de 2012 e vitimou três pessoas, entre elas, dois funcionários do Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Piauí. De acordo com o órgão, o conselheiro Guilherme Xavier de Oliveira Neto, de 65 anos, e o substituto Jaime Amorim Júnior, de 40 anos, iam para a cidade de Parnaguá, no sul do Piauí, quando o monomotor teria colidido com a serra próximo à cidade de Eliseu Martins, no sudoeste do Estado

2) Jornal “O Dia” de PI de 19012/13:

Inexperiência de piloto causou acidente aéreo com Xavier Neto

Foi divulgado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), o relatório final que aponta quais foram os fatores contribuintes para a queda do avião que transportava o ex-deputado estadual e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Xavier Neto, no dia 6 de março de 2012. Também estavam no voo, e morreram, o auditor Jaime Amorim Júnior, que era conselheiro substituto do TCE, e o piloto Edivaldo Pereira Sousa.

Os dados apontam que as condições meteorológicas e a inexperiência do piloto, que não fez o planejamento adequado do voo, contribuíram para o acidente aéreo. O relatório destaca também, que não houve o adequado acompanhamento das fases de planejamento e execução do voo, a ponto de identificar oportunamente as falhas do piloto.

As falhas começaram momentos antes da decolagem, quando dois pilotos deveriam seguir a bordo. Porém, o ex-conselheiro Xavier Neto decidiu levar um passageiro a mais. Por isso, o voo teve que seguir com apenas um piloto. A investigação não descobriu porque, justamente o mais inexperiente, foi escolhido.

O relatório também aponta a responsabilidade do ex-conselheiro, proprietário da aeronave, que decidiu seguir o voo, mesmo tendo certa experiência como piloto recreativo e conhecendo os riscos ocasionados pelas condições climáticas, em desacordo com as características da aeronave PT-NKS, modelo BEM-711C.

12 comments

  1. luiz Serrilho
    4 anos ago

    Julgar e fácil quando está sentado na frente do computador. Tomando coca cola e comendo bobeiras….

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      É isso aí. Vamos falar para o CENIPA parar de publicar esses relatórios ridículos, que não servem para nada, né? Afinal… Para que aprender com o erro dos outros, se a gente pode aprender com nossos próprios erros!

  2. Yuri justino
    4 anos ago

    Uma lastima as vidas perdidas… porem fica a dica sobre segurança de voo… e q realmente e fundamental q se preparem melhor os cadidatos a piloto… pois a pratica do VISUMENTO… jah tirou muitas vidas… e vai continuar tirando enquanto n acabarmos com essa pratica…

  3. Löhrs
    4 anos ago

    Saber o que fazer e/ou admitir erro e ter o bom senso para pedir ajuda ou disciplina para manter-se calmo e não se embriagar com a auto-confiança excessiva, requer vivência aeronáutica e obviamente experiência. Porque o “experiente” para ser experiente inevitavelmente já passou cagaço e sabe que pra morrer basta estar vivo. Disciplina e bom senso se consolidam com o tempo. Formação nos USA ou Europa sem experiência REAL não dizem nada!!!!

    • Enderson Rafael
      4 anos ago

      Valores. Eles vêm de casa e da formação. São aperfeiçoados com a experiência, mas dificilmente moldados por elas. E voar 250h na Florida, um lugar dado a furacões e tornados, e claro tempestades amazônicas e pantaneiras (o Everglades é um tipo de pantanal), sendo a maior parte delas sem instrutor do lado, dá sim uma boa ideia do que não se deve fazer. A diferença fica nos recursos, que aqui são mais escassos, bem mais escassos (o check do PP lá exige a leitura e interpretação de mais de dez cartas de weather, muitas que aqui nem existem, e muito menos são cobradas). Enfim, continuo achando equivocada a frase que encontramos em muitos relatórios, de que os pilotos estavam habilitados mas não tinham experiência. Pra mim elas são uma crítica à formação insuficiente. Repito que não há nada de absurdo em um PP ser piloto em comando de um monomotor a pistão em voo VFR. É pra isso que ele estuda e se forma. Se ele não tem condições, então, talvez não devesse ter passado no check – e isso explica porque a média de horas de aprovação no check de PP da FAA é de 70 horas, o dobro do que escutamos falar aqui. E experiência em condições adversas… Bom, se alguém ganha experiência em atravessar CB é porque fez o que não devia: não é o tipo de experiência que se deva procurar.

  4. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Eu discordo que o piloto tinha pouca experiencia pra realizar o voo. Com 278h, um voo VFR num monomotor nao tem nada demais. O que ele tinha sim era uma falta de nocao consideravel, de se meter em IFR, e ainda dentro de CB. Experiencia eh algo menos relevante, muito menos relevante, que disciplina, formacao e bom senso.

    • Thiago T
      4 anos ago

      Acredito que a ”falta de experiência e/ou conhecimento” em cenários de condições adversas aliado a má formação aeronáutica o induziram a um mal gerenciamento e reconhecimento das ameaças e erros que por fim o levou a consequências catastróficas

  5. fredfvm
    4 anos ago

    Considero a atitude desse piloto uma irresponsabilidade que não tem tamanho. Muito mais ainda do dono do avião, mais ainda por ter escolhido o piloto menos experiente para o referido voo, que diga-se de passagem, foi mais um voo de TACA. Por parte do piloto foi um suicídio mesmo.

    Em aviação, querer adquirir mais experiência significa voar de copiloto e ser supervisionado por outro piloto mais experiente, e não fazer o que esse pseudo-piloto fez. Acumular experiência não é arriscar a vida. Acumular o que, oque ele não sabe ainda ?

    Relatórios desse tipo deveria ser lido pelos alunos e pilotos novatos, mas muitos ou todos nada querem saber disso. Ignoram totalmente esse assunto, de vital importância.

    • Eduardo Machado
      3 anos ago

      Negativo senhor !!! O tal de Xavier Neto era um dos donos da aeronave !!!

  6. Dennis
    4 anos ago

    Fiz muito essa rota SBTE para SNGG instrumento, onde o avião que trabalhava ficava baseado. Um dia esqueci de avisar ao ACC Recife que havia chegado, não passou 10 min. do estimado e eles ligaram para meu celular perguntando se estava tudo bem. Quando ia VFR, não entravam em contato.
    Simplesmente não existe nenhuma “montanha” nessa rota, super tranquilo qnd vc conhece a aeronave (e tem os equipamentos funcionando).

  7. Rafael
    4 anos ago

    Deus que receba bem essas almas, pois com certeza deve ter sido muito ruim os momentos finais…

    Acho que isso é uma das coisas que faltam nos cursos de PP. Tinha que ter algumas aulas só sobre segurança de vôo.

    Pow, tu é PP, não conhece direito a aeronave e ainda se mete a besta num voo IFR. Já não era nem para ter decolado, mas já que decolo, entrou na nuvem, já deveria ter pedido auxílio para o Controle para voltar. E o piloto que fez o plano de voo? Cade ele? Seria interessante ele dar a versão dele por que deixou o PP seguir. Se sabia do mau tempo e etc.

  8. “…certa experiência como piloto recreativo…”. Que fantástico. E bota tempo ruim nisso, fazer com que uma asa se soltasse. Deus defenda…

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