O FEBEAPA que assola as notícias sobre aviação na imprensa – Ou: “a pista estava muito quente e o contato do pneu no asfalto poderia ser comprometido” (!!!???)

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Com raríssimas exceções – como as matérias do jornalista da Folha de São Paulo, Ricardo Gallo -, as reportagens que saem na imprensa sobre aviação são as mais estapafúrdias possíveis. Mas, ontem, a repórter Letícia Costa, do jornal gaúcho Zero Hora, se superou nesta sobre um voo que foi cancelado devido à alta temperatura verificada no aeródromo local: “Voo é cancelado no Aeroporto Salgado Filho sob a alegação de calor na pista“. A explicação técnica sobre o assunto está muito bem dada neste post do blog Aviões & Músicas – “Como assim cancelaram o voo por causa do calor? Pode isso?” -, mas aqui, eu gostaria de me ater ao FEBEAPA-Festival de Besteiras que Assola o País (ou, a Aviação), e voltar ao tal “espírito do tempo” comentado posts atrás.

Não é de hoje que se escreve sobre a “calda” ou o “bico” do avião, ou então que “nenhum passageiro se feriu com a arremetida” – para ficar nos exemplos clássicos de erros cometidos por jornalistas ao publicar notícias sobre a aviação. Mas esta reportagem do Zero Hora está particularmente interessante porque mostra a falta de profissionalismo da jornalista em estado bruto, associada à vontade de estar alinhada à revolta geral da população. Qual a dificuldade em verificar com uma fonte isenta se procede essa história de cancelar voo por temperatura elevada? Precisa encher o texto de verbos no futuro do pretérito, de aspas, de “alegações”? Fica claro que a repórter não engoliu a nota da companhia, mas… Por que, então, ela teria cancelado o voo? Não passa pela cabeça da repórter que um cancelamento desses custa dinheiro para a companhia, que lhe traz transtornos operacionais, que aquela aeronave fará falta na malha, que os tripulantes poderão, eventualmente, regulamentar, e outros tripulantes precisarão ser enviados às pressas? Por que não ligar para alguém da Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUC, que deve ficar a poucos metros da redação, e perguntar para qualquer pessoa de lá (até um calouro que ainda nem começou o ano letivo saberia responder) qual a relação entre temperatura e condições técnicas para o voo?

Mas, não, a repórter preferiu entrevistar os passageiros, mostrar a indignação destes, e publicar a absurda informação, “confirmada dentro e fora do avião, de que a pista estava muito quente e o contato do pneu no asfalto poderia ser comprometido”. E é aí que eu chego ao “espírito do tempo”. Hoje em dia, o negócio é ser favorável à revolta, aos protestos, afinal, “o gigante acordou”, etc. e tal. E se os fatos não vão de encontro a este Norte, pior para os fatos… É por isso que os passageiros que “protestaram”, andando sobre a asa do avião da Gol no Galeão, foram retratados muito mais como vítimas de uma companhia inescrupulosa e de tripulantes insensíveis, do que como delinquentes. E é esta, também, a razão de tantos verbos no futuro do pretérito nesta reportagem.

É lamentável que reportagens como esta sejam publicadas, mas infelizmente ela está de acordo com o “espírito do tempo” do Brasil de hoje. Talvez errado esteja eu, que me incomodo ao ler algo assim…

7 comments

  1. Luciano
    4 anos ago

    Raul, enviei um e-mail para a jornalista que me respondeu rapidamente com um novo link e um anexo com a matéria melhor explicada, matéria essa que consta na versão impressa do jornal. De fato ela foi atrás dos especialista da PUC-RS Segue link: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2014/02/temperatura-e-um-dos-fatores-levados-em-conta-na-decisao-sobre-decolagem-4408486.html

    Abraço!

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Não quero ser chato, mas a matéria tbem está errada em diversos pontos – inclusive com erros grotescos de português -, mas tudo bem: ficou menos pior, e no essencial está correto. Agora… Por que não fazer a coisa certa na 1a vez? Dói?

  2. Enderson Rafael
    4 anos ago

    E se eles escrevem essas besteiras sobre o que entendemos, imagina sobre o que não entendemos…

    • Rodrigo Edson
      4 anos ago

      Enderson

      esse é o perigo, grande parte da população é manipulada por essa imprensa rs

    • fredfvm
      4 anos ago

      Eu sempre tive esse pensamento Enderson. Por isso é que sempre dou um crédito de, no máximo, 20% de verdade que se fala nas matérias jornalísticas. Se “chute” fosse sinal de verdade, os diversos jornalistas especialistas em tudo seriam os campeões mundiais em qualquer modalidade esportiva.

  3. Márcio Henrique
    4 anos ago

    Atualmente resido em Porto Alegre e de fato a PUC fica na mesma avenida da Zero Hora. A jornalista nem precisaria ir até lá bastava ligar pra reitoria mas pela foto na reportagem do avião da Copa percebe-se que ela foi ao Salgado Filho…bastava ir a um DO ou na sala AIS certeza que encontaria alguém neutro e capaz de dar a resposta certa. Cara ta achando que é fórmula 1 pneus de chuva pneus duros etc ahh fala serio haha. A zero hora ja tem uma fama daquelaas por aqui pelo menos pra quem tem um pouco d senso crítico aí dps de uma dessas….acho q nem é necessario ser da aviação pra entender que essa é uma reportagem muito equivocada e até parece as piadinhas do jornal do Bairrista com todo respeito.

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