“Piloto de avião de Bieber usa máscara contra ‘marofa’ de maconha”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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A Veja-online de hoje publicou a reportagem citada no título deste post, sobre o consumo de maconha por passageiros de aeronaves – no caso, de uma aeronave em que viajava o astro pop. Situações como essa são menos raras do que se supõe: eu mesmo conheço um piloto que atua aqui no Campo de Marte que já passou situação semelhante, em um Seneca em que atuava como piloto free-lance; e num livro sobre comportamento dos muito ricos (“Riquistão”, Robert Frank), há um caso idêntico ao da reportagem, com máscaras de oxigênio e tudo. Mas o que interessa mesmo falar é outra coisa. Reproduzo três artigos do CBA em seguida, para depois comentar:

Art. 166. O Comandante é responsável pela operação e segurança da aeronave.

§ 1° O Comandante será também responsável pela guarda de valores, mercadorias, bagagens despachadas e mala postal, desde que lhe sejam asseguradas pelo proprietário ou explorador condições de verificar a quantidade e estado das mesmas.
(…)

Art. 167. O Comandante exerce autoridade inerente à função desde o momento em que se apresenta para o vôo até o momento em que entrega a aeronave, concluída a viagem.

(…)

Art. 168 Durante o período de tempo previsto no artigo 167, o Comandante exerce autoridade sobre as pessoas e coisas que se encontrem a bordo da aeronave e poderá:
I – desembarcar qualquer delas, desde que comprometa a boa ordem, a disciplina, ponha em risco a segurança da aeronave ou das pessoas e bens a bordo;
(…)

Ou seja: na prática, o comandante que se omite quanto a um eventual consumo de drogas em sua aeronave acaba por se expor a riscos legais muito mais sérios do que os de quem consumiu efetivamente a droga. Hoje em dia, o usuário não é mais visto como um delinquente, no máximo é um problema de saúde pública. Já o comandante da aeronave que é conivente com o consumo de drogas na aeronave em que ele é responsável está se expondo ante o CBA. Entenderam o drama? “Ah, mas eu vou me indispor com o patrão?” Bem… O que você prefere? Ser despedido, ou sofrer um processo judicial?

18 comments

  1. Raul Marinho
    4 anos ago

    Pessoal, acho que não consegui transmitir o que gostaria nesse post. Não se trata de risco de incêndio (embora ele possa existir) ou de denunciar o patrão à polícia (apesar desta ser uma opção). O que eu quis enfatizar neste post é o fato de o comandante ter responsabilidades objetivas sobre o que acontece na aeronave que ele comanda, e não vai colar um “ah, eu não sabia…”, se a coisa engrossar. Eu reproduzi trechos do CBA para enfatizar isso, com o intuito de mostrar que o comandante da aeronave está mais enrolado que o usuário, se houver uma batida policial na aeronave. “Ah, mas isso nunca aconteceu…”. Pois é, nunca porque a ANAC não fiscaliza. Mas e se um funcionário do hangar, que tem inveja de vc, resolve denunciar que aquela aeronave chega todo dia com cheiro de maconha? A polícia dá uma batida, e o passageiro sai livre, afinal não se prende usuário no Brasil; mas vc, que está sujeito ao CBA, prevaricou, e sai do hangar de camburão… Entenderam onde quis chegar?
    E como resolver isso? Eu acho que denunciar o passageiro à polícia é a última alternativa, que só deveria ser utilizada numa situação em que se vc não fizer isso, é vc que vai acabar se ferrando. Mas, em 99,9% dos casos, uma conversa franca e adulta com o proprietário, explicando os riscos a que vc está exposto, e às particularidades da legislação (CBA), deverá ser suficiente.
    Esclareci?

    • Renan
      4 anos ago

      Com certeza! Acho que deve haver o tal “jogo de cintura” e o bom senso sempre. Os extremos devem ser as últimas alternativas e sempre serão arriscados em quaisquer circunstâncias e profissões.

      • provocador
        4 anos ago

        A unica coisa que eu diria ao cara é “fuma, mas fuma tudo, nao deixa provas!”.

  2. Vitor Castro
    4 anos ago

    Na boa pessoal, a questão não é se a droga é lícita ou não, no meu ponto de vista o problema é “mais embaixo”. No meu entendimento é e sempre será inadmissível que alguém, seja ele o patrão ou o papa, maneje qualquer artefato que possa colocar a aeronave em iminência de uma situação de fogo abordo.

    • fredfvm
      4 anos ago

      Fica uma situação bem complicada, onde o patrão bebe wiskey, outros fazem sexo com garotas de programa (a bordo durante o voo), alguns cheiram cocaína, outros fumam maconha, e nos casos mais simples fumam cigarros – todos os ítens são casos parecidos – só o do cigarro ou da maconha que envolvem o “fogo a bordo”, e nesse caso acho que é o que se trata nesse artigo.
      Simplesmente é assim: o patrão deseja fazer da cabine uma extensão de sua casa ou de sua vida pessoal e ativa – “Manda quem quer (ou quem pode) e obedece quem tem juízo”.
      Resumindo, não se trata da maconha em si, mas do “FOGO A BORDO”… Estou certo Raul Marinho ???

      • Felipe Machado
        4 anos ago

        Wiskey, sexo, cocaína, maconha e já uma vez por incrível que pareça uso de Crystal dentro da aeronave.
        Sempre fui da aviação executiva é acontece sim. Não são todos os voos, mas como qualquer outra profissao que passa por momentos “atípicos”.

  3. patoeconomico
    4 anos ago

    Raul, sinceramente voce já viu alguem ser processado por isto? E. ademais, a responsabilidade criminal e admistrativa, em regra é propria e objetiva. Salvo se o “barato” estiver casando problemas a segurança, acho dificil o piloto ser processado por isto

  4. fredfvm
    4 anos ago

    Já aconteceu comigo, voando de copiloto em um Navajo com destino a Fernando de Noronha, transportando surfistas. Eles perguntaram ao comandante se podia fumar… Tentei de tudo para que o comandante desse a resposta negativa, mas o mesmo, numa ação quase ingênua liberou que os passageiros fumassem. Não foi o espanto dele quando sentiu o cheiro forte da Marijuana, que deixou o avião todo impregnado com a fedentina da erva. Este se arrependeu da ordem dada, e até me chamou a atenção por este feito.

  5. Renan
    4 anos ago

    Pena que não é tão simples assim…

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Discorra sobre o assunto…

      • Renan
        4 anos ago

        Ainda não sou piloto comercial e não passei por tal experiência para citar um exemplo, porém, acredito que o tema “indispor com o patrão – sim ou não?” é um tanto quanto delicado. Cada caso é um caso e não quero entrar no mérito da ética, o do fazer o que é certo. Mas neste caso, sofrer um processo judicial é relativo – pode ou não acontecer, se for “pego” ou não. Se indispor com o patrão também é relativo – o que pesa é o caráter do patrão. O problema é convencê-lo de que a maconha compromete a segurança do voo e que todos correm risco com isso. Caso não concorde com isso, a demissão é quase certa. E todos sabemos o quão difícil está uma recolocação neste mercado de altos e baixos. A recolocação pode demorar meses ou anos e as contas não param de chegar. E por isso eu digo que a decisão de se impor perante o patrão no que tange o regulamento, a ética e os bons costumes não é tão simples assim.

        • provocador
          4 anos ago

          Ficar dedando o patrao que fuma maconha? Ta louco? É para fazer o que, chamar a policia? Nao né? Desde que o cara exagere e seja o Pablo Escobar!

          • Raul Marinho
            4 anos ago

            Se vc só vê essas alternativas, provocador, talvez esta não seja a profissão certa para vc seguir.

            • provocador
              4 anos ago

              Na pratica, a teoria é outra.

              • Raul Marinho
                4 anos ago

                Na prática, é preciso ter maturidade para saber lidar com situações de saia justa como esta… Veja a resposta dada ao Renan, que cabe também neste caso.

                • provocador
                  4 anos ago

                  Por falar em entorpecente, e o piloto dos Parrela, hein? rsrs

        • Raul Marinho
          4 anos ago

          Pois é, Renan, não é simples mesmo. Como também não é simples negar-se a realizar um voo quando as condições meteorológicas não recomendam, apesar de o patrão estar rosnando na sua orelha… Mas quem disse que ser comandante é fácil? É por isso que a profissão não é para qualquer um: o sujeito tem que ter o perfil certo para poder exercê-la, senão… Senão, acontece o que vemos acontecer no mundo real: acidentes, gente indo em cana, etc.

  6. John Noarm
    4 anos ago

    Sinceramente? Processo.

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