Mais uma reportagem sobre o “apagão de pilotos” nos EUA

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Agora é a Bloomberg Businessweek que publica uma matéria sobre o “apagão de pilotos” nos EUA: “Yes, There’s a Pilot Shortage: Salaries Start at $21,000” (agradeço ao amigo Flávio Veiga pelo compartilhamento) – matéria que dá destaque ao fato de os salários de pilotos nas companhias regionais começarem com US$21mil/ano (US$1.750/mês, ou aproximadamente R$4,3mil/mês, atualmente – se isso é pouco no Brasil, vocês não imaginam o quanto significa nos EUA…). O problema disso, meus caros, é que o americano médio não vai investir US$100mil na sua formação de piloto para, depois de formado, ganhar US$21mil/ano, o que retroalimenta o “apagão”. Daí, só duas coisas podem acontecer: ou os salários da aviação regional aumentam significativamente, ou… Eles vão começar a admitir estrangeiros neste segmento da aviação, o que faz do comentário do nosso amigo Enderson Rafael, postado em sua página no Facebook bastante sensato na minha opinião:

Confirmando o que falamos aqui semana passada. Não vão conseguir milhares de pilotos do dia pra noite. Ninguém vai sair do Brasil pra voar 777 da American. Mas as regionais e as executivas, essas sim, quase certamente começarão a olhar com mais carinho para estrangeiros que tenham carteiras FAA.

6 comments

  1. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Mas tem um detalhe muito importante nessa história: em todos os textos em inglês que lemos até agora ninguém sequer menciona a possibilidade de contratar estrangeiros. Acho que se acontecer vai ser algo bem low profile.

  2. Renato G.
    4 anos ago

    Sem entrar no mérito da falta de pilotos: cara, 21k por ano é pouca coisa a mais do que salário de empacotador do Walmart lá. Não é a toa a total falta de interesse dos americanos pela profissão.

    Mas é importante lembrar que não dá pra fazer a conversão dita “burra” para o real, pois lá ganha em dólar e gasta em dólar. Mas lá o poder de compra é bem maior do que aqui no Brasil, então os 1750 USD/mes rendem pelo menos umas 3x mais do que os 4,3mil reais aqui. Mas para o padrão de vida deles é muito baixo.

    • Renato, moro nos USA e posso afirmar com categoria que $21K/ano é ligeiramente acima da linha de pobreza. Impossível um piloto viver com $1,750/mês. Por isto, a maioria deles tem empregos part-time, para complementar a renda. Observe que a base de operação de regionais é quase sempre em cidades grandes, onde um aluguel não sai por menos de $900 por um studio (JK). Some uns $200 de seguro saúde, impostos e alimentação… Dá pra ver que a conta não fecha…

  3. O problema é que o crivo deles para te aprovar num chk ride como “cliente estrangeiro” (e que só irá voar um avião de matrícula estrangeira, com licença estrangeira) é um. Mas a partir do momento em que um estrangeiro se candidatar a obter uma licença do FAA – e principalmente a partir do momento em que eles souberem que o destino do trainee/checkee é disputar mercado lá dentro – a coisa assume um patamar de cobrança bem distinto. Pelo que se conhece deles, não me parece provável que venham a baixar o padrão de exigência técnico-operacional e/ou de “english skills”, só por conta da escassez de mão de obra, pq lá o aspecto “liability” pega pesado (na certificação 142 eles recomendavam a gente a preservar os training records e anotações por até 5 anos, “just in case”). Então não estou pagando pano preto e nem desencorajando ninguém, só dizendo que – aconteça o que acontecer – o nível de “arrocho” na instrução / cheque oral e prático e proficiência lingüística continuará alto, se não for mais elevado ainda, para os estrangeiros que se candidatarem a voar no NAS/ADIZ. Falo por experiência própria, pois eu trabalhei para uma empresa americana na Ásia em que a esmagadora maioria dos colegas era de anglófonos (americanos / canadenses / australianos / neozelandeses / sul africanos etc). No período em que mais houve brasileiros lá, éramos apenas 3. Hispanos nunca passaram de 3 ou 4, também.

    • Enderson Rafael
      4 anos ago

      Oi, Fábio, concordo nisso totalmente. Dar a licença pro cara que vai embora depois é uma coisa, pra quem vai ficar por lá é outra. É tudo ainda conjectura, mas creio que as primeiras vagas, se surgirem, sejam pra quem teve toda sua formação lá. Como você contou do seu check de ATP em outra oportunidade, ele é muito limitado pois presume-se que você tenha passado pelos outros. A gente percebia isso com quem vinham com PP do Brasil pra fazer IFR nos EUA. O check do cara ficava muito pior, pois ele tinha que falar da matéria dos dois, e o PP tem sei lá, 60% de tudo que você vai aprender na vida. É o check mais pesado de todos, ainda que tenha parâmetros mais frouxos. Quanto à proficiência, quem vai daqui pra lá com PP pra continuar a formação precisa chegar com ICAO 4+ já. Quem fez tudo lá não precisa de ICAO em nenhum momento, justamente porque um dos requeriementos da licença é falar, escrever, entender e ler em inglês. Então, acho que o grande limitante ainda é o visto de trabalho prum país ainda tão marginal quanto o nosso. De qualquer forma, perto de chineses e árabes, nossa facilidade com o inglês é louvável.

  4. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Oi, Raul, muito obrigado pela atenção. Complementando o que temos falado aqui, a coisa veio mais rápida e dramática do que se esperava. Eu pessoalmente achava que iriam começar a ficar no chão aviões da executiva por agora e só depois as regionais, mas o dado mais impressionante do texto é o da regional que vai deixar mais da metade da frota no chão. Esse é o tipo de coisa que provoca um efeito cascata. Ainda há uma pequena e limitada válvula de escape: eles voltarem atrás na exigência de ATPL (1500h e check de PLA) para copilotos da regional – uma regra inócua na minha opinião – mas mesmo assim, seria um alívio curto e limitado. E claro, agravaria a situação das escolas que estão cheias de alunos estrangeiros e ficando sem instrutores nativos.

    Quanto ao salário, 21k/ano é muito pouco pra eles. Mas não porque se viva extremamente mal com esse dinheiro – um copiloto da regional lá certamente tem um poder aquisitivo maior do que o copiloto das regionais daqui. É aquele velha história do “quem converte não se diverte”. 21k/ano equivale a 4,3 mil reais por mês aqui. É um salário alto pra Brasil, menos de 10% da população ganha isso. Mas lá, ainda que se viva melhor do que aqui com o mesmo salário, é muito mais baixo proporcionalmente, pois a renda per capta é 5 vezes maior. Ou seja, o cara que é piloto lá profissionalmente na regional ganha realmente mal perto dos colegas de outras profissões, o que não acontece no Brasil com tanta força – afinal, tudo no Brasil paga muito mal, e ganhar isso fora da aviação não é tão fácil assim. Mesmo assim, tanto o salário da aviação de lá quanto o da daqui precisa melhorar. Pelo menos eles tem a “oferta [vs] demanda” a seu favor agora.

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