Sobre o post “Comandante criticando pouso do copila no ‘speech’”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Conforme prometido no post “Comandante criticando pouso do copila no ‘speech’“, segue abaixo o meu ponto de vista sobre o vídeo que deu origem à discussão. Eu não quis dar minha opinião inicialmente para não enviesar os comentários dos leitores, mas acho que, agora, já há quantidade suficiente de opiniões para que o que eu disser não mais influa. Então, vamos lá.

Em primeiro lugar, eu quero deixar claro que o que farei aqui é somente dar uma opinião sobre o que eu entendi ter acontecido naquele vídeo. Não estava lá, portanto não sei o que realmente ocorreu; nem se, de fato, foi dito aquilo que se ouve (teve gente que lançou dúvidas sobre ser uma montagem, com superposição do áudio do ‘speech’); não sei se foi o próprio copila que pegou o microfone para se passar por comandante (teve gente que disse isso…), ou se havia um ambiente de cumplicidade tal na cabine, que o comandante poderia “sacanear” o subordinado como um amigo sacaneia o outro num churrasco; e, principalmente, não posso provar que foi uma ironia do comandante (aliás, a ironia, para ser boa, requer a possibilidade da dupla interpretação, né?). Mas isso não faz diferença para os propósitos do meu comentário, pois não se trata aqui de uma investigação ou de um julgamento, e sim de uma discussão sadia sobre ética na aviação. Então, para todos os efeitos didáticos, peço que se entenda o ocorrido como uma crítica do comandante ao pouso do copila, utilizando a ironia. Posto isto, prossigamos.

Antes de entrar nos aspectos exclusivamente aeronáuticos da questão, há que se notar que a crítica pública do comandante foi uma atitude extremamente anti-profissional de sua parte. Mais do que o copila, a maior vítima da “brincadeira” foi a própria companhia aérea, que teve a sua imagem maculada. Imagine que você está no seu banco investindo um dinheiro, e o gerente comenta em voz alta com um colega que não sabe como o Banco Central ainda não interveio na instituição. Pode ser uma piada interna entre eles, mas você pode não entender que é uma galhofa e, além de tirar todo o seu dinheiro daquela instituição, vai falar para todo mundo que o banco está quebrando. Se um diretor do banco soubesse disso, o que você acha que aconteceria com aquele gerente? No caso do comandante, não sei por que seria diferente…

Agora, entrando na seara mais específica da aviação, há que se falar do CRM. É claro que uma crítica daquelas em público é uma das piores coisas que um comandante poderia fazer, de acordo com os princípios do CRM. Mas, em minha opinião, o problema MESMO nem é tanto de CRM, e sim de ética, que vem muito antes. CRM é uma técnica, algo se aprende num treinamento, descrito em manuais, etc. Ética, não: tem a ver com o caráter da pessoa, e isso é bem mais difícil de aprender. Por isso, eu gostaria de encerrar este post com a recomendação de que vocês leiam o artigo do amigo Marcelo Quaranta, “Comandante na Íntegra da Palavra“, que já se adiantou e postou o trecho que mais cabia à situação nos comentários ao post de ontem. Mas não custa nada repetir:

[…] “Ser Comandante, com “C” maiúsculo requer outros atributos que não estão nos manuais e normas dos órgãos reguladores.
Na verdade são atributos que devem ser inerentes ao caráter e nisso, infelizmente, nem todos que são pilotos estão capacitados. A maturidade, a serenidade, o equilíbrio, a temperança e a capacidade de ponderação e análise com imparcialidade… São atributos que fazem parte de um universo que vai bem além da rotina do cockpit. Devem ser incorporados à vida cotidiana do piloto, para que o indivíduo possa realmente ser chamado de Comandante.
Somente tais virtudes são verdadeiramente capazes de impedir a vaidade excessiva e o exibicionismo, que não raro tosam o senso de justiça e de avaliação. O profissionalismo de um piloto não se mede pelo tamanho do avião que ele voa.
O profissional pode ser piloto em comando de Boeing, Airbus, Fokker ou simplesmente de um Corisco. O que vai fazer dele um comandante ou um Comandante é a grandeza dos seus atos. O piloto de um Boeing pode perfeitamente ser um mero “empurrador de manetes” diante de um piloto de monomotor. A diferença entre ambos será definida pela postura de cada um.”[…]

E então, o sujeito que fez o ‘speech’ era mesmo um Comandante, na íntegra da palavra?

 

 

 

 

4 comments

  1. Pedro Augusto
    3 anos ago

    É o comandante foi infeliz no comentário, mas o mesmo pode ter dito isso pra explicar aos passageiros que mesmo o pouso tendo sido emplacado foi seguro. Coisa que os pax não entendem, acham que pouso seguro e sempre um pouso alisado. Não estou dizendo que o comentário do comando foi neste sentido. Se foi, não foi compreendido desta forma e acabou sendo feio. My 50 cents.

  2. Luana
    3 anos ago

    Como bem dito, faltou ética.

    Brincadeira ou não, ironia ou não, desnecessário o “speech” aos passageiros. Imagina se em cada pouso nada suave de um co-piloto tivéssemos que ouvir em seguida a avaliação do comandante? Sinceramente… nessas horas sinto muita vergonha alheia.

  3. Cmte Araújo
    3 anos ago

    Tenho 13 anos de aviação comercial e nunca ouvi nada tão estupido e arrogante e nem se quer ouvi falar de algum acontecido semelhante como o que fez o “comandante” da Azul…. Quando eu era Co-piloto ou One First….

  4. cleverborges
    3 anos ago

    Ser “C”omandante esta acima da instrução,da pratica e da experiência.Esta também naquilo que sala de aula, livro, simuladores e cabines não ensinam.

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