Apagão de pilotos nos EUA??? Bullshit de novo!!!

By: Author Raul MarinhoPosted on
210Views6

Nos idos de 2011, quando publiquei o post “Apagão de pilotos??? Bullshit!!!“, sobre o mito do “apagão de pilotos” que estaria ocorrendo no Brasil à época, construí minha argumentação com base em um artigo do economista Cláudio de Moura e Castro para a revista Veja, que explicava o conceito de escassez de mão-de-obra: “é quando aumenta a demanda e, como resultado de mais gente querendo contratar, os salários sobem”. Ora, então, se os salários dos pilotos no Brasil não estavam subindo, era porque não havia o tal apagão – e fim de papo! Pois muito bem. Agora, em 2013/14, tenho reproduzido e comentado diversos artigos que tem saído na imprensa internacional sobre o “apagão de pilotos” americano. Argumentos que explicam a escassez catastrófica de pilotos nos EUA não faltam: o efeito do 11 de setembro, as mudanças no regulamento exigindo 1.500h para os copilas de linha aérea, e por aí vai. Só que, apesar disso tudo, os contracheques do pessoal das linhas regionais tem permanecido nos mesmos patamares famélicos de anos atrás – o que, de acordo com a teoria econômica, seria um contrassenso.

Mas eis que, finalmente, aparece um artigo elucidativo sobre essa questão – que me foi enviado pelo dileto amigo Beto Arcaro. Saiu na última edição da revista Flying, ainda indisponível online (daí ele ser acessível somente pelas imagens a seguir), um excelente texto – “What shortage? It’s kinda, sorta, maybe here” – do Sam Weigel. Nele, o editor contribuinte da revista faz algumas considerações importantes:

1) O número de tripulantes habilitados é fartamente superior à demanda

De acordo com a FAA, há 134.374 PLAs e 111.562 PCs com menos de 65 anos de idade habilitados para voar nos EUA, contra cerca de 80mil pilotos voando nas linhas aéreas daquele país. Portanto, se há algum apagão por ora, ele é somente o de tripulantes dispostos a trabalhar pelos salários oferecidos…

2) Bônus por fidelidade nas linhas aéreas regionais? Hmmm…

Há, de fato, casos como o da American Eagle, que está pagando bônus de até US$5mil para que os pilotos contratados fiquem na companhia por um certo período de tempo. Porém, esta companhia também está propondo a seus empregados que abram mão de certos direitos e benefícios trabalhistas para que ela não tenha que cortar voos – fato que, segundo o autor, também ocorre em diversas outras linhas regionais. Ou seja: na prática, não está havendo aumento salarial para os pilotos até o momento.

3) O modelo de linhas aéreas regionais de baixo custo está em cheque – e enquanto não falir de vez, vai ter que manter seus pilotos à beira da indigência

Finalmente, o autor explora o próprio modelo de negócios das companhias regionais, que estaria fadado a desaparecer. Ocorre que, enquanto isso não acontecer, as companhias regionais terão que manter os atuais níveis salariais de sua tripulação, não há alternativa.

Com tudo isso somado, o resultado é que o tal “apagão de pilotos” nos EUA não é aquilo tudo que se espera… Sim, de fato está havendo mudanças nas relações de oferta e demanda de pilotos neste momento no mercado americano. Mas, não, isso não necessariamente representará o fim imediato dos baixos salários nas companhias regionais – e, principalmente (para nós brasileiros, em especial): dificilmente o mercado americano irá se abrir para tripulantes estrangeiros no curto prazo (vide item #1, acima).

(Obs.: Para ler o texto abaixo em tamanho ampliado, clique nas respectivas imagens)

Apagão de pilotos nos EUA - Flying Magazine - Parte 1

Apagão de pilotos nos EUA - Flying Magazine - Parte 2

6 comments

  1. Júlio Petruchio
    3 anos ago

    É. E as aéreas bananenses aprenderam o mimimi das americanas quando o assunto é salario dos tripulates.

  2. Rafael
    3 anos ago

    Putz… e olha que quando deixei o comentário no último post nem tinha lida essa matéria.

    Para mim, o item 3 é o mais importante. Não dá para falar de baixo custo quando se fala de aviação, ponto! Avião é caro, mantê-lo é caro e operá-lo é caro.

  3. Enderson Rafael
    3 anos ago

    O título é ótimo! Mas vamos às minhas considerações que têm um componente de wishfull thinking, mas fazem bastante sentido: primeiro, muitos desses ATPs e mais ainda dos PCs não são americanos. Eu sou um exemplo de que a conta não fecha tanto assim: se cortarem os brasileiros, árabes, chineses e talz da conta, esse número será o número real, e não os que se apresentam no artigo. E mais, no final do artigo ele diz que sim, o shortage tá chegando, e isso vai tornar a carreira de quem está no começo mais fácil do que a de quem pegou a última década. Vamos ver as cenas do próximo capítulo, mas que tem shortage, leve ou forte, tem.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Entendo seus argumentos, Enderson. Mas apagão sem salários aumentando, não é apagão… No dia em que um copila de regional estiver ganhando mais que motorista de caminhão, eu começo a acreditar no shortage.

      • Enderson Rafael
        3 anos ago

        Mas dinheiro tb não é tudo: o cara entra de olho nas experiência, pra quem pagava pela hora, ganhar por ela já é vantagem. As regionais sempre foram um trampolim pras majors. Vão continuar sendo. E claro, a aviação americana vai crescer junto com o PIB, o que vai ajudar a tornar os números atuais obsoletos em breve.

  4. Não entro no mérito dos fatores que determinam salários tão miseráveis. Falo por mim:

    1)- Quando dá tudo certo em um vôo, sai- se do avião com aquela (ingênua) impressão de ser um “turista remunerado”. Ledo engano. Burrice. Melhor pensar nos dias em que não deu certo, principalmente naquelas situações em que, de uma decisão tomada corretamente, dependeu a manutenção da nossa licença, ou mesmo da nossa liberdade. Só quem já sofreu um acidente e/ou mesmo passou por um incidente grave sabe a montanha de responsabilidade que é ser um comandante de linha aérea. Ninguém está livre de – numa época ruim – ter que “amassar barro” num emprego muquirana, mas no que aparece coisa melhor, nego vaza e com toda a razão. Avião polido e uniforme bonito não pagam as contas do fim do mês, como todos aqui já devem ter se dado conta.

    *Em tempo: estou dos dois lados do balcão (empregado / free-lancer / empregador etc.);

    2)- Trabalhei em empresa subsidiária da Boeing na Ásia por muitos anos. Emprego bom. Convivi com muito ex-piloto da United, American, Delta, Northwest, Eastern etc.; todos falavam com saudade dos tempos em que voaram para as “major carriers”, mas nenhum tinha boas lembranças das regionais. Bem ao contrário: o que se ouvia, no mais das vezes, eram impropérios, quando alguém falava delas. Pelo padrão de vida alto que se via que eles tinham, ninguém alí cogitaria de sair da Ásia para trabalhar novamente nos EUA em empregos miseráveis ou mesmo nos “meia-boca”, embora culturalmente a maioria deles não se sinta muito bem nos ambientes expatriados multiculturais. Mas são outros tempos. Todo o mundo tem que prover para si e para os seus, trabalhando quase até o dia de morrer. Então a maioria dos expats que está bem não volta tão cedo para os EUA, a não ser que seja forçado por razões pessoais/familiares etc.;

    3)- “Quem não tem competência, que não se estabeleça”, diz o ditado. Se as regionais dos EUA – espremidas pelas “leis de mercado” (que eles adoram invocar, na hora de arrochar os funcionários!) não tiverem mais condições de operar pagando migalhas a seus tripulantes, a história é aquela: chegou a hora da caça. Renegociem com as grandes para que cessem os “reverse auctions”, ou considerem seriamente a possibilidade de encerrar suas atividades. E aí as grandes que se virem para posicionar seus passageiros do interior de e para os “major hubs”. Em outras palavras: Aviem-se!!!

Deixe uma resposta