“Os frios números do Boeing 707 na Varig” e a pergunta que não cala: se a aviação comercial evoluiu tanto assim, por que não a geral?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Nosso estimado amigo e colaborador Enderson Rafael publicou um excelente artigo hoje no prestigiado blog Segurança da Aviação Civil denominado “Os frios números do Boeing 707 na Varig“, sobre o qual gostaria de comentar sua parte final, onde o autor conclui:

No total, foram 20 aeronaves do modelo Boeing 707 de várias séries, operadas ao longo de quase três décadas. Destes, 7 foram perdidos – um em solo, no hangar – pela companhia num total de 279 vidas ceifadas. Nada menos que 35% da frota, ou seja, mais que o dobro da média mundial. E oito vezes mais que a contemporânea Pan Am, que perdeu meia dúzia de Boeing 707 em acidentes, mas ao invés de 20, operou 137 aeronaves do modelo. A mim não há desculpas que caibam para tão pífio histórico de segurança. É como se qualquer das duas companhias brasileiras líderes hoje em dia tivesse perdido 50 aviões na última década e meia. E elas são, cada uma, mais que uma vez e meia maiores que do que a Varig foi no seu auge. Tudo bem, há bem menos glamour, os salários e os destinos também não são tão bons. Mas é inegável o valor maior da aviação em qualquer tempo: elas têm padrões de segurança que também refletem sua época: hoje em dia, uma companhia perder um terço da frota em acidentes seria inadmissível. Por que não era antes?

Sem dúvida, os padrões de segurança da aviação comercial evoluíram muito deste os tempos do 707. Porém, o mesmo não aconteceu com a aviação geral – que, a despeito dos auto-elogios da ANAC, continua uma operação tão insegura como era décadas atrás. Daí, a pergunta que não cala: se a aviação comercial evoluiu tanto assim, por que não a geral?

8 comments

  1. Urcino
    4 anos ago

    O FAA publicou recentemente o q eles têm planejado pra atacar o problema de acidentes na aviação geral:
    http://www.faa.gov/news/fact_sheets/news_story.cfm?newsId=13672

    Um trecho “Similar to commercial aviation, the FAA is focused on reducing general aviation accidents by using a primarily non-regulatory, proactive, and data-driven strategy to get results.” é bem diferente da estratégia adotada no Brasil (e nem tô falando especificamente de aviação) de simplesmente colocar uma nova lei em vigor e achar q resolveu o problema…

    • Enderson Rafael
      4 anos ago

      Filosofia totalmente oposta, infelizmente. Cabeça FAA: já que é impossível fiscalizar todo mundo o tempo todo, vou fazer regras fáceis e baratas de cumprir pra todo mundo voar seguro. Cabeça ANAC: já que é impossível fiscalizar todo mundo o tempo todo, vou fazer regras bem difíceis e caras, então quem conseguir andar na linha vai voar com segurança.

      • Urcino
        4 anos ago

        Como eu disse, acho q não é algo específico da aviação… É meio padrão no Brasil querer resolver apenas colocando regras e leis, q às vezes nem “pegam”.

        No caso específico da aviação, não acho q a FAA teria regras “fáceis e baratas” e a ANAC, regras “difíceis e caras”… Até pq, boa parte dos regulamentos são traduzidos de lá (vide, por exemplo, os de certificação de aeronaves e os de operações). Acho q vai mais pro lado da efetividade da fiscalização (a probabilidade de ser pego fazendo algo errado e de dar em algo), além de outras ações pelo órgão, como de caráter orientativo.

  2. David Banner
    4 anos ago

    Pelo simples fato da ANAC não saber diferenciar um Aeroboero de um Cessna 210.

  3. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Porque, em parte, não há a pressão da opinião pública. Afinal, se nós que somos pilotos conhecemos pouca gente que tem avião, imagina quem não é do meio. Em parte porque na geral morre pouca gente por acidente, pelo tamanho das aeronaves. Porque é muito mais difícil de fiscalizar, porque não tem pressão e auditoria de IATA em cima… os fatores são muitos. Mas como um acidente só aconteece quando um piloto entra num avião com a intenção de voar, é o treinamento que faz toda a diferença. Um piloto da 121 tem um nível de profissionalismo e uma rigidez de treinamento que poucos na 135 e quase ninguém na 91 têm. Sem contar que um cmte de 121, embora responda aos seus chefes em solo, no avião tende a ter mais autonomia que um cmte de um pequeno avião com o patrão, pela própria impessoalidade do negócio. Mas enfim, a grande diferença é o treinamento. E se até na 121 temos incidentes e acidentes que nos deixam boquiabertos, o que esperar das outras menores e mais frouxas aviações…

    • Eduardo Machado
      4 anos ago

      Concordo com quase tudo que você falou, realmente a falta de treinamento é a grande vilã dos acidentes aeronáuticos ! Apenas discordo na questão do profissionalismo, acho que isso independe do RBAC em que o piloto voa, isso tem muito mais a ver com o a cultura, caráter e os valores que cada um carrega consigo ! Abraço !

      • Enderson Rafael
        4 anos ago

        Com certeza, totalmente de acordo! Não quis dizer o contrário, Eduardo. O que disse foi que na 121 o profissionalismo é forçado: mesmo quem operaria de uma forma mais amadora em outro segmento, na linha aérea acaba tendo que se adaptar. Na geral não: ou o piloto traz o profissionalismo de casa e da formação, ou a operação tende a ser mais amadora. E aí, tchau checklists, tchau p&b, tchau performance… aquilo tudo que a gente já sabe, sem nem entrar no mérito das “violations”, que na 121 viram rua, e na geral vira motivo de orgulho no youtube.

        • Eduardo Machado
          4 anos ago

          Com certeza, digamos que não seja um profissionalismo “forçado”, mas um profissionalismo exaustivamente bem treinado, bem dirigido e que mesmo assim ainda não está 100% livre de acidentes ! Acredito que com o trabalho em equipe que existe na aviação comercial, o risco de acidentes também tende a diminuir ! A aviação geral em sua essência tem diferenças importantes da aviação comercial, e que em muitos casos contribuem para o maior numero de acidentes , uma dessas diferenças é que a maioria voa sozinho ! Em minha opinião isso também contribui bastante para um numero maior de acidentes (duas cabeças pensam melhor que uma) !
          Uma coisa muito importante também é saber respeitar limites, limites em aviação servem não só para definir parâmetros, mas servem pra salvar vidas também !!!

          Abraço !!!!

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