Carta ao pai do piloto-escravo

By: Author Raul MarinhoPosted on
294Views4

Recentemente, ‘rebloguei’ um post de autoria do Décio Correa, o “Mão de obra escrava”, em que o autor começava seu texto conforme segue:

Em conversa recente com um amigo, piloto profissional, muito bem colocado na aviação executiva, comentava sobre o início de carreira do filho aviador. O rapaz voava havia oito meses uma aeronave bimotora, para uma empresa de táxi-aéreo na Amazônia, sem receber “um real” de salário ou qualquer tipo de ajuda de custo. Por inacreditável que possa parecer, o jovem trabalha de graça, paga suas contas de refeições e hotéis do próprio bolso (ou do bolso do pai) e, apesar de possuir todas as licenças de um piloto profissional, faz o que poderemos chamar de trabalho escravo. O objetivo dele é apenas juntar algumas poucas horas de voo em sua CIV ( Caderneta Individual de Voo) e acumular experiência, para disputar uma vaga numa empresa aérea mais séria.

Não sei o que o Décio respondeu ao amigo, pai do piloto-escravo – não está no texto, pelo menos. Então, tomo a liberdade de redigir-lhe uma resposta, que é a que segue abaixo:

Meu caro pai do piloto-escravo,

Também sou pai, como você, e sou piloto recém-formado, como seu filho. Por isso, acho que estou numa posição privilegiada para compreender a situação que você comentou com o seu amigo Décio, e gostaria de lhe falar algumas palavras. Não sou ou fui um piloto-escravo, como seu filho é – muito embora tenha recebido o convite para me tornar um diversas vezes. Não aceitei, e como punição pela minha rebeldia, estou desempregado. Mas estou colocando o carro na frente dos bois, deixe eu começar do começo.

Antes de entrar na questão da empregabilidade aeronáutica propriamente dita, quero falar um pouco sobre escravidão: a experiência brasileira com a importação de escravos negros vindos da África. Nós temos um conceito um pouco romantizado sobre como nosso país importava escravos, e a ideia geral é que homens brancos caçavam negros nas selvas africanas como se caçam bichos hoje em dia. Mas não foi bem assim – apesar de, esporadicamente, isso realmente pudesse ter ocorrido. Acontece que os traficantes de escravos eram homens de negócios que queriam obter o maior lucro possível com a sua atividade, como qualquer negociante contemporâneo. E empreender caçadas na selva custa caro, é preciso mobilizar tropas, equipamentos, há sempre o risco de matar a caça (ou ser morto por ela); enfim: não é eficiente, economicamente falando. E havia uma maneira muito mais fácil e barata de obter acesso ao produto que os traficantes queriam obter: eles poderiam adquirir, a preços módicos, homens previamente escravizados no mercado local.

Isso é uma história que a comunidade negra não gosta de ouvir, mas que pode ser comprovada com textos etnográficos: a verdade é que a maior parte dos escravos negros que chegaram ao Brasil era composta por pessoas previamente escravizadas por outros negros nas suas localidades de origem. Às vezes, eram prisioneiros de guerra; eventualmente, eram súditos de um determinado líder tribal tirano que os vendia para obter acesso a armas, tabaco, ouro, etc.; e, por mais abjeto que pareça, também ocorria de pais venderem filhos ou tios venderem sobrinhos. Não quero aqui fazer qualquer juízo de valor, mas somente mostrar que o mais comum era que os escravos negros que chegaram ao Brasil eram, na verdade, vítimas de outros negros. E isto tudo para começar a falar da “escravidão aeronáutica” que hoje viceja no Brasil, que é muito semelhante à escravidão negra do Brasil colonial na sua origem: em ambos os casos, foram os semelhantes que deram início ao processo.

Você me desculpe, mas se você é mesmo um “piloto profissional, muito bem colocado na aviação executiva”, e permite que seu filho se escravize como piloto, então você também é responsável pela escravidão do seu filho. Não que o dono do táxi aéreo que se aproveita da mão de obra escrava de pilotos recém-formados não tenha culpa também – aliás, não quero livrar a cara dos portugueses e ingleses envolvidos com o tráfico negreiro no Brasil colonial: eles também eram culpados, é claro! –, porém, um piloto que fecha os olhos para esse tipo de relação de trabalho lamentável que você descreve contribui decisivamente para que ela se perpetue.

Há meios de denunciar a ocorrência de relações de trabalho irregulares, como pilotos profissionais trabalhando de graça ou por salários miseráveis. Há um sindicato para isso, o SNA-Sindicato Nacional dos Aeronautas; há uma rede de Delegacias Regionais do Trabalho, vinculadas ao Ministério do Trabalho, espalhadas pelo país; há o Ministério Público do Trabalho – escolha você a instituição em que acredite ser mais adequada (e se você não acredita em nenhuma, você pode constituir um advogado e entrar com uma ação na Justiça do Trabalho). Imagine se todo empregador que contratasse pilotos-escravos fosse denunciado ou acionado judicialmente – e sempre há um piloto profissional que sabe quando esse tipo de relação de trabalho está ocorrendo –, o que aconteceria…

Mas você, pai do piloto-escravo, não denunciou o empregador do seu filho para ninguém (e nem o aconselhou a entra na Justiça contra ele)… Afinal, “é assim mesmo”, né? “Denunciar ou entrar na Justiça ‘queima o filme’”, não é verdade? E o seu filho só queria “acumular umas horinhas na CIV”, por que “estragar o sonho do menino”… Só que, com isso, você está contribuindo para prostituir o mercado em que seu filho ganhará o leite do seu neto, no futuro. Este empregador que hoje escraviza o seu filho continuará escravizando o filho dos outros quando ele (o seu filho) deixar de ser escravo, para ser um piloto como você. E, com isto, diminuirá os rendimentos e as chances de emprego do seu filho lá na frente, percebe como a escravidão de pilotos tem efeitos amplos no mercado?

Por isso, acho que está mais do que na hora de que os pilotos profissionais estabelecidos no mercado, como você, parem de fechar os olhos para esse tipo de relação de escravidão que viceja em nosso país. É preciso perder o medo de denunciar e de entrar na Justiça, isso não será prejudicial ao piloto recém-formado que está “fazendo hora” – por mais que, de fato, este piloto vá perder a chance de acumular horas no curto prazo. E, principalmente, é preciso parar de se submeter a este tipo de condição de trabalho. Mesmo porque isso é profundamente injusto, em termos sociais: só pode aceitar trabalhar nessas condições quem tem o papai por trás pagando as contas (como foi o caso do seu filho, aliás); o sujeito pobre, sem “paitrocínio”, não tem essa opção.

Logo no começo da minha carta para você, eu disse que “não aceitei [ser piloto-escravo], e como punição pela minha rebeldia, estou desempregado”, e gostaria de encerrá-la a partir daí. Por mais que possa parecer que esta frase seja um convite à escravidão, o que eu quis dizer foi, na verdade, que é muito melhor estar desempregado do que aceitar ser um piloto-escravo. Porque, uma vez escravo, você não só se prejudica individualmente, mas também prejudica toda a classe dos pilotos em que você está inserido – ou seja: você é duplamente prejudicado. Foi este o motivo da minha rebeldia: foi de caso pensado, e não me arrependo, apesar das consequências. E eu acho que quanto mais gente pensar assim, melhor para todo mundo. É por isso que eu estou lhe escrevendo num texto público, aliás.

Um grande abraço para você e para o seu filho,

Raul Marinho

4 comments

  1. gustavo melo
    3 anos ago

    oi gostei desta materia sobre piloto escravo,gostaria de deixar meu comentario e de certa forma me expresar o que acho,como o colega disse sobre sua rebeldia d não trabalhar de graça concordo plenamente eu hoje tambem estou com as carteiras de piloto MTNE e MLTE e IFR e me encontro desempregado
    houve gastos do meu pai e outros que me ajudarão,meu IFR ja venceu e em abril vai vencer o MTNE,como que pode vc ter um gasto desse e os taxi áreos te falarem se vc tem experiência acho isso um absurdo se vc não ter uma chance como vai ter experiência,moro em Goiânia – Go,e vejo que aqui vc so se da bemno momento estou trabalhando de bombeiro civil pois não posso dar o luxo de esperar uma oportunidade na aviação pois não sou filhinho de papai que tem uma mesada boa e ficar voando de graça para adquirir horas de voo para CIV, na aviação se vc não tiver um padrinho muito bom para te dar uma ajuda pois a panelinha e grande e a fila e imensa,outra duvida se vencer minnha carteira e eu não tiver como revalidar perco o MTNE e o MTLE dai tenho que fazer as provas das 5 materia tudo de novo se tiver e outro erro que eu acho pois vc jafez o teste foi aprovado,muito obrigado pela atenção,aguardo respostas.

  2. Salinas
    3 anos ago

    Tudo é uma questão de princípios. Meu avô, durante a ocupação nazista na França, ao invés de se aliar aos invasores que concediam ótimos benefícios pra quem topava o esquema foi pra resistência. Trabalhou infiltrado passando informações importantes aos aliados. Foi ferido diversas vezes e esses ferimentos cobraram sua morte pouco tempo depois do fim da guerra. Individualmente suas ações não mudaram o curso da guerra, mas junto com todos aqueles que resistiram, conseguiram atingir o objetivo maior e ajudar a libertar o país e depois a Europa. Hoje, somos livres.

    Exploradores sempre vão existir, cabe a cada um de nós resistir e lutar por aquilo que é o certo, ajudar quem está ao lado, não baixar a cabeça ao opressor e a tentação de levar vantagem a q custo, mesmo que o individualmente soframos a curto e médio prazo. Uma pena que muitos não tem essa postura.

  3. Renato G.
    3 anos ago

    Me resumo a lhe parabenizar e dizer que também estou desempregado por não aceitar ser escravo. Lógico que não é só por esse fator, o mercado está ruim também, mas é um grande contribuidor para a situação!

    Abraços!!

  4. A
    3 anos ago

    Raul

    Parabens pelas palavras. Ao ler a reclamação do “pai profissional piloto” estava escrevendo uma carta resposta no mesmo tom, porém nunca sairia tão bem feita como a sua.

    É lamentável essa situação. Eu, mesmo sem pai piloto profissional comecei minha carreira sozinho e dei a cara a tapa. Após formado, neguei muitos convites para voar de graça, pensando no coletivo (mercado de trabalho) e não somente (fazer umas horinhas).

    Finalmente consegui um emprego em um taxi-aéreo relativamente bem remunerado, pois na entrevista disse que não iria trabalhar pelos “mínimos”. Durante os meus 2 anos no taxi aéreo, vi outros pilotos chegar e voar de graça, inclusive filhos de “comandantes” amigos dos dono da empresa. Nunca me conformei com a situação.

    Hoje a situação é séria e lamentável; essa empresa de taxi-aéreo que me refiro empregava pilotos em início de carreira e os remunerava e dava carteira. Hoje com tanta disposição de pilotos para voar de graça, ela não paga NADA a ninguém, e tem gente fazendo fila.

    3 vagas a menos no mercado que ja é difícil, destruídas justamente por aqueles que mais precisam, os pilotos me início de carreira. Me revolto com os futuros “profissionais” que se submetem a isso, me revolto mais ainda com os “pais pilotos profissionais” por permitirem e serem cúmplices disto, pois com tanta vivência e experiência na aviação deveriam ser os primeiros a não permitirem o fato.

    Lamentável,

    A

Deixe uma resposta