Sobre empregabilidade e redes sociais – Ou: Como não perder o seu emprego por um comentário infeliz no Facebook

By: Author Raul MarinhoPosted on
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A não ser que você tenha estado (real ou metaforicamente falando) nas nuvens durante o dia de hoje, muito provavelmente você já esteja sabendo do caso do piloto que postou comentários preconceituoso contra os nordestinos no Facebook – trata-se do caso relatado nesta reportagem: “Piloto da Avianca taxa nordestinos de porcos após almoçar em JP e vereador pede respeito“, da qual reproduzo a imagem acima. A própria companhia já postou uma nota no Facebook repudiando o comentário (vide aqui) e, pelo que consta, o sujeito já foi demitido. Acho desnecessário comentar o quanto tal comentário foi infeliz, mas entendo que vale a pena explorar um pouco o tema das redes sociais & empregabilidadae, já que este é um blog sobre formação aeronáutica e orientações sobre o mercado de trabalho.

Em 1992, quando estava me mudando de Fortaleza-CE para Campinas-SP (morei um ano na capital do Ceará, trabalhando como gerente contas do Citibank), abasteci meu carro num posto de Campinas, e tentei pagar o combustível com meu cheque que ainda era da filial de Fortaleza do banco. Naquela época, praticamente só se usava cheques como meio de pagamento – o cartão de crédito era muito pouco aceito, o de débito nem existia, e ninguém andava com dinheiro vivo por causa da inflação elevada -, mas eu tinha, além do cartão do banco e do RG, meu cartão de visitas que mostrava que eu era gerente do banco. Mesmo assim, a dona do posto recusou-se a aceitar meu cheque porque aquela simpática senhora disse que “não confiava em cheque de ‘nortista (sic)'”. E, embora eu fosse paulista, e argumentasse de todas as maneiras possíveis para que ela mudasse de opinião, não teve jeito: tive que sofrer a humilhação de retirar o combustível que já estava no tanque, e sair à caça de um frentista amigo que aceitasse cheque de “nortista”…

Contei esse ‘causo’ para mostrar que sei bem o que se sente ao ser discriminado. É horrível, concordo, e por isso sou solidário aos irmãos nordestinos que se sentiram insultados e humilhados pelo comentário do (agora ex?) piloto da Avianca. Mas o problema se amplifica milhares de vezes por ele ocorrer nos dias de hoje, na era das redes sociais (onde, a propósito, o caso se originou). Se fosse hoje que uma dona de posto dissesse para mim que não aceitaria meu cheque de “nortista” , e eu postasse o fato no Facebook, o que aconteceria? Para sair barato, a imagem comercial do posto ficaria seriamente arranhada; mas não acho difícil que depredassem o estabelecimento ou atacassem fisicamente a sua dona. Em 1992, o máximo que pude fazer foi xingá-la… Percebem como as redes turbinam o poder de retaliação? Para um mesmo fato gerador – o ato preconceituoso da dona do posto -, temos desfechos completamente diferentes em 1992 e hoje, unicamente devido à existência das redes sociais.

Onde quero chegar com isso é no seguinte ponto: TOMEM EXTREMO CUIDADO COM O QUE VOCÊS ESCREVEM NAS REDES SOCIAIS – partam do princípio que tudo o que vocês fazem na internet é público. Mais do que isso: tudo também pode ser gravado, fotografado, filmado. Lembram-se do comandante que ‘cornetou’ o copila num pouso? Foi gravado por um passageiro, que jogou no Youtube e, até onde se sabe, acabou em demissão. E o outro comandante, que deixou o Latino sentar-se na sua poltrona durante um voo? Também foi para a rua, junto com toda a tripulação, porque o cantor quis fazer graça no Instagram. Mas nada se compara ao que a própria pessoa escreve, como foi o caso do piloto da Avianca, daí minha recomendação maior seja quanto à “produção literária” das pessoas nas redes.

Foi dado o recado?

7 comments

  1. Ricardo
    3 anos ago

    Achei engraçado que a conclusão onde chegaram foi a de que temos que ter cuidado com o que se escreve ou posta nas redes sociais. Pensei que o grande problema era o PRECONCEITO contra nossos amigos nordestinos, alias, pensei que o grande problema era o fato de um piloto de cia aérea ter uma cabeça tão pequena e ser tão infantil. Mas infelizmente o ser humano é assim! Tem preconceito porque a pessoa é negra, ou porque é pobre, ou porque é nordestina, ou é mulher ou porque é gay….ou porque é tudo junto.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      O problema do preconceito em si é tão óbvio, e tão espezinhado em outros textos, que não achei importante comentar.

  2. Beto Arcaro
    3 anos ago

    Na rede social, você se relaciona com pessoas , ou pelo menos deveria se relacionar, da mesma forma que você se relaciona pessoalmente.
    Aí, fica tudo bem, ou não….
    Como em um telefone, tem sempre alguém do outro lado.
    No caso das redes sociais, “Alguéns”!!
    Tem que haver essa “Disciplina”!
    Vai demorar um pouco ainda, pra gente aprender…
    Pra mim, isso é “Seleção Natural”.

  3. provocador
    3 anos ago

    Eu sei explicar isso: o rapazinho é daqueles que deve ser fã do Bolsonaro. Ele tem certeza que o Brasil está indo para uma ditadura comunista e culpa o nordeste por eleger Dilma. Viu que a ultima pesquisa Dilma está com 43%! Ele só conversa e vive entre riquinhos (porque piloto, afinal, ganha bem), e nao conhece ninguém que vota na Dilma! Criou ódio! rarara sifuuuuu

  4. Alexandre
    3 anos ago

    Raul, acompanho seu blog diariamente, o qual está de parabéns. Em meu recente período de formação como piloto, tive coincidentemente a oportunidade de trabalhar com transporte para tripulantes de diversas cias aéreas, tanto no translado aeroporto x hotel, como passeios na cidade onde ficavam hospedados. Conheci muitas pessoas educadíssimas, mas até hoje me causa espanto a frequência com que presenciei comportamentos idênticos ao do tema deste post. Tripulantes sempre falando mal da cidade e seu povo (como se o motorista não fosse de lá), arrogâncias e ofensas de todo tipo, vindos desde comissárias a comandantes, houve caso de jogar objeto em camareira de hotel, além de baixarias que também terminaram em demissão, pelo que soube depois. Vi caso de comandante experiente aconselhando comissárias a se comportarem melhor, pois determinado hotel em outro estado não mais aceitava tripulantes por causa de mau comportamento. Percebi que os reclamões sempre citavam SP, RJ e Sul do Brasil como exemplos de “cidades perfeitas”, isso aqui no Sudeste, então imagino o que não faziam nos rincões deste país. Sei que não posso generalizar, mas quero chamar a atenção de como devemos nos policiar para evitar determinados tipos de comportamentos, seja no ambiente virtual como no ambiente real.

  5. Cmte Araújo
    3 anos ago

    Aqui no Oriente as regras são tão severas que o celular tem que ir na bagagem se aparecer uma foto sequer de um cockpit em uma pagina nas redes sociais de um colaborador no outro dia ele esta na rua……….o Comissário chefe só pode entrar no cockpit se for chamado por nós comandante os oficiais não tem autonomia para o mesmo…….Agora o que você diz ou deixa de dizer nas redes passa batido a não ser que esteja relacionado a empresa ou infringindo as leis do país…….Agora o colega ai foi muito infeliz e mais infeliz ainda quando ele diz não ter usado de preconceito e discordo completamente dele voei por anos para as cidades do nordeste e é o povo mais maravilhoso e acolhedor que conheci….!!!

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