O pouso sem o trem do nariz do Fokker da Avianca: foi heroísmo, sim, mas diferente do que se pensa

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Desde 6ª feira última que não se fala em outra coisa na pilotosfera que não a extrema competência do piloto da Avianca que efetuou o “pouso de barriga” (na realidade, estava mais para um “pouso de nariz”) em Brasília, demonstrando extrema calma e profissionalismo na fonia, e um “pé e mão” exemplar para manter o nariz em cima pelo maior tempo possível após o toque. Aquilo eclipsou, inclusive, o outro fato que estava nos “trending topics” da aviação naquele momento, que era o caso do piloto escrevendo bobagens contra os nordestinos no Facebook – por coincidência, também ele um funcionário da Avianca. Para entender melhor o ocorrido, há, fora o relatado aqui na própria 6ª, uma infinidade de reportagens e vídeos na internet, inclusive uma reportagem do Fantástico com a entrevista com o piloto – basta uma ‘googlada’.

Na imprensa, o piloto que comandava a aeronave com a pane no trem do nariz está sendo aclamado como herói – adjetivo que o próprio repudia. Ocorre que houve heroísmo no que ocorreu, sim, só que diferente do que se pensa. Indo pelo caminho que o amigo Fábio Otero começou a trilhar num comentário ao post de 6ª feira – “quando a emergência na vida real fica parecida com o LOFT do simulador, é sinal de que o departamento de ensino/treinamento, o CRM e o SMS estão funcionando de maneira adequada (…)” -, gostaria de ampliar o raciocínio para mostrar que o heroísmo foi coletivo, não de uma única pessoa.

Os primeiros heróis responsáveis pelo ótimo desfecho daquela emergência foram os pais, professores e demais mentores do rapaz que, anos mais tarde, entraria para a aviação e se tornaria comandante de Fokker-100 na Avianca. Foi graças ao heroísmo daqueles que este se tornou um adulto consciente de seus deveres como profissional, e teve condições para conduzir a situação para um final feliz. Depois, foram heróis os instrutores e demais responsáveis pela formação aeronáutica básica daquele rapaz, que se tornou o aviador consciente e profissional que demonstrou ser. Também foram heróis os profissionais de RH que o entrevistaram e selecionaram nos seus empregos da aviação, que agiram com igual profissionalismo. E, uma vez na linha aérea, foram heróis seus instrutores – tanto teóricos quanto práticos (em simulador e no avião) -, que o preparam corretamente para reagir com naturalidade a uma pane daquelas. E então, só aí é que entram os heróis mais visíveis: os controladores de tráfego aéreo, a tripulação e, em último lugar, o piloto em comando do voo que protagonizou o acidente. Se uma só, dentre todas as pessoas citadas acima, não fosse uma heroína, o piloto daquele voo não teria sido o herói que foi. Se ele merece uma medalha pelo que fez, todas essas outras merecem igualmente.

Por este motivo, eu acho que, mais do que parabenizar o comandante (que merece os parabéns, é claro!), devemos refletir sobre a importância que todas essas pessoas têm na formação de um profissional realmente competente. Um herói, meus amigos (pelo menos, um herói da aviação), não surge isoladamente. Ele é o resultado de uma longa cadeia de eventos que começa praticamente quando o sujeito nasce, uma espécie de “diagrama de Reason” (aquele dos furinhos do queijo suíço”), só que “do bem”. Por isso, você que é INVA hoje, pense na qualidade da instrução que você dá para seus alunos: o PPzinho que você ensina hoje a glissar poderá ser o cara que irá salvar centenas de vidas daqui a alguns anos. E, se isso acontecer, você será tanto herói quanto ele!

19 comments

  1. Vinicius
    4 anos ago

    Parabéns mesmo ao comandante, mas até o momento não ouvi tocar no nome do co-piloto!

  2. Tarcísio Neto
    4 anos ago

    Parabéns Raul, bela analogia !!!

  3. Thiago Thomaz de Souza
    4 anos ago

    Perfeito Raul…

  4. Italo
    4 anos ago

    Falou tudo Raul!

  5. Boanerges
    4 anos ago

    Raul, apesar de pouco comentar, acompanho diariamente seu blog e gosto mto dos seus pontos de vista sobre diversos assuntos, mas agora vc se superou. Foi um maduro e quase exclusivo prisma de avaliação. Parabéns!!

  6. John Noarm
    4 anos ago

    Gostaria que os INVAs tivessem essa consciência citada ao final do texto. A maioria não tem.

  7. Menezes
    4 anos ago

    Existem muitos heróis e heroínas nascendo todos os dias em maternidades Brasil a fora, mas a falta de oportunidade ou ate mesmo a falta de políticas publicas fazem com que eles não sejam considerados tão heróis assim em um futuro próximo, e nós os perdemos com o passar dos anos, com isso logo na vida adulta serão chamados de bandidos, ladrões, corruptos, racistas, etc. Terão como recompensa a morte e cadeia, no mínimo uma vida medíocre e pensamentos e comentários maldosos do seu próximo, será um mal vizinho, péssimo funcionário, mas sabe-se que um bandido também foi um bebê e os bebês não nascem bandidos, também é sabido que os bebês não nascem com uma personalidade formatada e com uma educação pronta, essa por sua vez é apresentada ao longo da vida do individuo e são os pais, avôs e avós que tem essa responsabilidade de ensinar o que a escola não ensina primeiramente. Esse aspirante a herói quando chega a uma sala de aula não é um pote vazio que será enchido de conhecimento, ele já trará uma bagagem que será compartilhada com outros alunos e até professores.
    Agora, como o futuro herói poderá se tornar um herói se os primeiros tutores, os pais, também não foram bem iniciados? É um clico vicioso do mal.
    Outro dia um aluno puxou uma faca para ameaçar a professora porque a mesma deu nota baixa a ele, pode isso? Dá pra ter uma idéia do tipo de pessoa e/ou profissional que esse individuo será se nada for feito agora.
    Quanto ao Cmte. Meus parabéns com toda certeza é foi um herói e como bem disse o Raul, parabéns aos pais, professores, instrutores etc… vocês foram verdadeiros heróis também.

  8. Show!!!

  9. Lucas A.
    4 anos ago

    Além de tudo isso, ainda é possível perceber a humildade do comandante na entrevista. Pessoas assim merecem chegar onde ele está.

  10. Marcelo Pinheiro
    4 anos ago

    Perfeito Raul, parabéns!

    Pena que este tipo de abordagem não seja o padrão na imprensa, pois como o próprio Comandante Eduardo Verly disse hoje na Folha de S. Paulo “Não sou herói, apenas fiz meu trabalho”, e fazer bem o trabalho é resultado de ser bem treinado, ter boa educação e mais algumas coisas..

  11. Mario Lopes
    4 anos ago

    Bravo! Excelente observação.

  12. Marcelo Holschauer
    4 anos ago

    PARABÉNS mais uma vez! Me inscrevi ha pouco tempo e ainda não consegui ler algo ruim! Tudo extremamente atualizado e com ótimos pontos de vista! Parabéns Comandante! (com “C” maiúsculo)

  13. Beto Arcaro
    4 anos ago

    Perfeito mais um vez, Raul!
    Diga-me como é a sua vida, e eu te direi como você voa!

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