Sobre “paixão por voar” e ser piloto profissional

Sobre “paixão por voar” e ser piloto profissional

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Cmte Rolim, famoso pela “paixão por voar”. Ora, se ele era tão apaixonado assim por pilotar uma aeronave, porque trocou os cockpits pelos escritórios?

A história clássica de um piloto é a seguinte. Ainda menino, o sujeito descobre que adora voar – ele não pode ouvir um barulho no céu que já olha para cima. Aí, ele descobre um lugar chamado aeroclube, onde meninos mais velhos que ele vão para aprender a pilotar um avião. Mas ainda é cedo para isso, então ele descobre como “matar as lombrigas” no computador, com os Flight Simulators da vida. Até que ele finalmente chega à idade em que pode se matricular no aeroclube, no curso de PP teórico – que nem é obrigatório, mas é uma maneira de “começar a caminhada”. Então, cai um raio em sua cabeça: o menino descobre que o curso inteiro de piloto custa umas quatro vezes mais que a renda anual de sua família inteira. Mas passado um tempo (que pode durar vários anos), sabe-se lá Deus como, o ex-menino, agora um jovem adulto, se forma Piloto Comercial. Mas isso de nada adianta, pois sem experiência não se vai a lugar nenhum na aviação, então ele dá mais um passo, e torna-se Instrutor de Voo. Começa a maratona para atingir as marcas para entrar para a aviação comercial, que dura mais alguns anos, até que ele finalmente tem como participar de processos seletivos para copiloto. Na 1ª oportunidade, ele toma pau, provavelmente porque havia muito “peixe” na sua frente. Na 2ª… A companhia desiste de contratar no meio do processo porque a economia está em crise. Até que lá pela 5ª tentativa ele é selecionado. Êba! Finalmente! Ele tira passaporte, vai fazer simulador no exterior, volta e “entra na linha”. Alguns (vários) anos depois, surge uma oportunidade, e ele coloca quatro faixas nos ombros. Mas a euforia com a promoção não dura muito. Logo começam as reclamações no Facebook. O sujeito engorda, tem gastrite, toma antidepressivos. Por quê? Não era exatamente isso o que ele queria desde o início? Não era estar na esquerda de um jato comercial a posição que ele sempre sonhou, desde os tempos do Flight Simulator? O cara não ganha bem (para os padrões brasileiros, ao menos)? Por que, então, ele não está feliz?

O problema é que, nessa fase da vida, mais ou menos lá pelos quarenta anos de idade, o sujeito tem filhos pré-adolescentes com os quais não possui a mínima intimidade. Na verdade, ele não os conhece, já que ele “está na linha” praticamente desde que eles nasceram, e nesse período ele tem passado mais de 20 dias por mês longe de casa. E ele sabe que, daqui a pouco eles estarão adultos, e aí nunca mais. O cara ganha bem, o que diminui as possibilidades de encontrar uma ocupação fora da linha aérea com remuneração equivalente – tanto na aviação geral, quanto em empregos em terra, não é fácil ganhar o que um comandante de linha aérea ganha (estou me referindo aos comandantes da “majors” – TAM e Gol). “Ué, mas o cara não está voando, que era o que ele sempre quis?” – pergunta aquele com pouca intimidade com a linha aérea. Pois é… Pergunta pro cara que faz a ponte aérea todo santo dia, com o FOQA fungando no cangote, se “aquilo” era o que ele achava que era voar quando era garoto. Não por acaso, você encontra muitos desses comandantes de linha aérea voando mono/bi-motores a pistão nos aeroportos do interior – justamente para poder de voar “de verdade”… E é aí que eu começo a entrar no alvo deste artigo: ter “paixão por voar” não significa que você deva ser piloto profissional.

Pode procurar, que você muito provavelmente não vai encontrar um piloto profissional de origem realmente abastada (estou me referindo a ricos MESMO, não a profissionais liberais e médios empresários de sucesso, ou a funcionários públicos de alto escalão). Eu, pelo menos, nunca vi um “cmte Ermírio de Moraes” (da família dos donos da Votorantim), ou um  “cmte Lemann” (da família do principal acionista da Ambev). Há vários “cmte Marinho” (eu, no caso, sou um exemplo), mas não um Marinho herdeiro da TV Globo… Por que isso? Será que a água Perrier tem antídotos para o aerococus? É claro que não! Há, sim, muita gente rica apaixonada pela aviação – talvez até mais do que a média da população em geral. A questão é que não faz sentido para um sujeito com alternativas muito mais rentáveis pela frente enveredar pela aviação profissional: é muito melhor, em termos econômicos, que eles voem por hobby. Aliás, é pelo mesmo motivo (eficiência econômica) que cada vez menos jovens americanos se interessem pela carreira na aviação, fenômeno que está na raiz do “apagão de pilotos” que hoje está em evidência nos EUA.

Daí chegamos ao ponto principal deste artigo, que é o seguinte: Uma vez identificada a sua “paixão por voar”, não conclua que, por isto, o melhor a fazer será tornar-se piloto profissional. Mesmo que você não padeça do “mal” de ser de origem abastada, pode ser que você tenha outras oportunidades profissionais, e faça mais sentido você ganhar a vida fazendo outra coisa, e voar aos finais de semana por hobby. Mas, principalmente, inteire-se sobre como é o estilo de vida de um piloto profissional. Entenda como funciona o sistema de escalas dos diferentes segmentos da aviação, converse muito com profissionais da área, e reflita como isso se encaixa (ou não) com os seus valores pessoais. Uma vez que você esteja seguro sobre a sua adequação ao estilo de vida de um piloto profissional, ótimo! Vá em frente e sucesso na carreira! Mas não se deixe pegar de surpresa por este “detalhe” que não raramente arruína a vida de muita gente boa que conheço. Fica a dica.

 

 

 

32 comments

  1. Pedro Cintra Machado
    3 anos ago

    O mais sensato artigo que já li sobre o tema. Parabéns!

  2. Robson
    3 anos ago

    Nada melhor do que está em casa com a nossa família amada. Tem vezes que é muito ruim ficar fora de casa o tempo todo, mas tem gente que gosta. Conheço alguns cmte veteranos que não aguentam mais ficar dentro de uma cabine de avião, estão loucos pelas sua aposentadorias. Sei de muitos relatos de arrependimentos. Pensem bem quem quer entrar pra essa vida de piloto de avião, é muito glamour para quem está de fora, mas para quem vive na aviação é muito sofrido.

  3. Marcius
    3 anos ago

    Amo a aviação!!!
    Os bens materiais que conquistei vieram através desta atividade. Acho que não teria 1/10 se estivesse em outra profissão.
    No campo pessoal, também tive conquistas e muitas alegrias (amigos, família, vida social).
    Depois de 25 anos no ramo, a aviação entrou numa outra fase: aquela em que me possibilita uma alavancagem de dinheiro para construir novas oportunidades em outras áreas. Mas deixar a aviação, isso nunca!!!

  4. Luciano Cavalcante
    3 anos ago

    Como sempre, otimo post Raul… quase dois anos atras eu estava nesse dilema de seguir a paixao, pensar na razao $$$ ou ganhar dinheiro de outra forma e deixar a aviacao como hobby de final de semana enquanto prestava selecao para a ASA da Azul… Bem, optei pela terceira: nao preciso voar para ganhar dinheiro, tenho minha vida social e familiar perfeita e nos finais de semana possiveis acalmo a paixao com algumas horinhas de voo sem ter que me preocupar com o FQQA ou escalas que fazem vc ficar dias longe da familia e amigos… fora ter que viver assustado com o lobo “da crise aerea” e as incertezas na profissao de aeronauta com empresas aereas fechando pos fusao e outras nao contratando… hoje junto a familia, os amigos e faco um “panoramico” sobre as belas praias do litoral onde moro e sacio a paixao… na segunda feira vou ganhar dinheiro de outra forma para depois fomentar a paixao, mas sem compromisso com ela ou pressao… kkkkk.
    Esse foi a melhor forma que encontrei de unir o util ao agradavel…

    • Leonardo Teixeira
      3 anos ago

      Você tem avião? Eu tenho um sonho de ser piloto como hobby, igual a você. Mas não tenho avião e não devo adquirir um. Tenho medo de tirar meu brevê e não conseguir pilotar depois. Creio que os aviões das escolas são destinados apenas para aula e eu queria alugar um para voar por aí para me divertir. Como você faz para voar?

      • Raul Marinho
        3 anos ago

        Sem querer atravessar o samba da sua conversa com o Luciano, o fato é que há, sim, aeroclubes onde é possível alugar um avião para voar nos finais de semana. Não são todos (na verdade, são poucos), e nem há tanta disponibilidade de aviões assim, mas no Aeroclube de São Paulo, por exemplo, vc pode alugar um Tupi/Corisco e viajar com a família, se quiser.

  5. Enderson Rafael
    3 anos ago

    Essa é a vantagem de ser comissário por vários anos antes: vc já sabe o que esperar. E depois de 9 anos de 121, sei bem o que gosto e o que não gosto nela, como driblar o que não gosto e aproveitar mais do que gosto. E diferente da profissão de comissário, a profissão de piloto abre um leque bem maior de opções. Tanto na 121 quanto sob outros RBACs/FARs. Vai de cada descobrir o seu. E feliz de quem pode ter um avião. Passa bem menos “crise de abstinência aerocólica” do que nós que não temos.

  6. Roberto Magalhães
    3 anos ago

    Boa Raul! Paixão é paixão, mesmo quando ela te decepciona no meio do caminho. Grande abraço e ótimo artigo!

  7. Rodolfo
    3 anos ago

    bom artigo que leva a uma boa reflexão

  8. Denis Rodrigues da Silva
    3 anos ago

    Excelente Raul. Soube descrever em poucos parágrafos as peripécias e as diversas fases da vida de um piloto. Parabéns!!

  9. Cmte Bob
    3 anos ago

    Muita boa explanação para os sonhadores menos desavisados. Aviação profissional hoje em dia é uma ” Doce Ilusão”. Gosta de voar? então faça uma boa faculdade, ganhe $$$, compre sua aeronave a voe quando quiser. E seja feliz.

    • Carvalho
      3 anos ago

      O que eu devia ter feito

  10. Celso
    3 anos ago

    Excelente Raul…tenho um amigo meu de familia riquissima que esta na linha ha 8 anos,e voa por paixao mesmo…e um caso curioso,quando voava agricola,conheci um ex medico oftalmologista,que depois de 22 anos largou a medicina pra voar agricola,que era o sonho dele desde criança…cada um cada um ne!
    E existem aquelas famosas 3 fases do piloto:
    -Paga pra voar
    -Ganha pra voar
    -Paga pra nao voar
    Eu estou na segunda ainda,mas confesso que tem dias que sou capaz de pagar pra nao voar…talvez os meus 27 anos de aviaçao ja estao pesando…

  11. David
    3 anos ago

    Perfeito este post! Tenho o exemplo vivo aqui em casa, meu pai entrou para a FAB aos 16, teve diversas oportunidades de ser piloto militar/civil mas ele preferiu a formação de engenheiro pois a longo prazo é mais promis$ora e anos mais tarde saiu das forças armadas e foi incrementando a formação em tudo quanto é possível, hoje ele atua na aviação executiva de pequeno a grande porte, sempre perguntei o porque ele não quis ser um piloto e ele me respondeu quase igual ao teu post.

    • Julia
      3 anos ago

      Ele fez engenharia onde?

  12. Júlio
    3 anos ago

    Ai depende também né, Raul.. É fácil conhecer gente que virou piloto porque o pai também era piloto, ou porque o pai foi piloto, ou porque o pai amava aviação, enfim, você entendeu. E por causa desse motivo a relação dos dois é bem íntima e bacana, como nas outras profissões. Inclusive eu sou um desses casos.

    Mas sempre me pergunto qual a relação de um PLA com seu filho que nao quer seguir na aviacao.. Algum PLA nesse exemplo me tira essa dúvida?

  13. Carlos Lopes
    3 anos ago

    Concordo contigo Raul… deve ser por isso que acho que hoje (aos 28 anos) depois de 10 anos de experiência como Analista de Sistemas me sinto muito mais pronto para entrar no mundo da aviação… com certeza se tivesse entrado aos 18 anos seria o máximo mas pelos primeiros 2 anos talvez…. e depois certamente entraria no momento de desilusão e perderia o brilho pela coisa que mais amo hoje… mas depois de 10 anos vivendo tudo que vivi nesta profissão, tenho plena consciência que nada é 100% perfeito… tudo tem seu ônus e na aviação não é diferentes, sim sou apaixonado por voar, mas quando aparecer o cara do FQQA por exemplo, estarei muito mais habituado a saber que apesar de estar ali realizando meu sonho a Cia Aerea não deixa de ser uma empresa como uma outra de um mundo capitalista e por isso regras devem ser seguidas padrões devem ser respeitados visando sim o lucro e não um parque de diversões como alguns jovens iludidos acham que é este mundo…

  14. Denis
    3 anos ago

    Resumindo, como sempre nesse blog -“Blá blá blá…. deixem de voar” – Marinho; Raul

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Sim, é claro! Deve ser por isso que o blog está chegando a 2milhões de visitas…

      • Menezes
        3 anos ago

        Hiiii vamos ter que pagar pra ler os artigos… ferrou!!! Se bem que pela qualidade deveria ser pago mesmo, mas não faça isso Raul rsrsrs….. Ganhe pela publicidade.
        Parabéns mais uma vez.

        Grande Abraço.

  15. Eduardo
    3 anos ago

    Depois de ler tudo isso me deu vontade de largar minha faculdade aqui na FACA, fazer ADM, abrir minha empresa e ficar milionário…

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Pra vc ver como são as coisas… Eu, que escrevi o artigo, larguei uma carreira de 20 anos como administrador, fechei minha empresa, e decidi me tornar piloto pelo mesmo motivo!

      • Eduardo
        3 anos ago

        Pois é Raul, já tentei resistir ao aerococus… Iniciei na faculdade de engenharia, mas logo no inicio senti falta de frequentar o aeroclube e estar perto dos aviões. Não tive mais dúvidas, troquei para ciências aeronáuticas para seguir meu sonho. Vai fazer um ano que ingressei na FACA e tenho certeza que é isso que quero pra mim. Que vai ser difícil e que talvez eu não me realize plenamente no futuro eu sei, mas se isso me fizer parar, não farei mais nada na vida.

        Aproveito para te agradecer e parabenizar pela criação desse blog e de seu e-book.

        • Raul Marinho
          3 anos ago

          O importante é vc estar consciente sobre a realidade da carreira de piloto – que, parece-me, é o seu caso.

      • Carvalho
        3 anos ago

        Ficar milionário?

  16. Engraçado…quando leio artigos como este, confirma o velho clichê espírita segundo o qual “Nada é por acaso”. No meu caso específico não foi “mar de rosas” nem “um passeio no parque”, como não foi para a maioria mas – olhando para trás – me dou conta de que meus “pulos do gato” foram dados mais ou menos nos momentos certos. Cheguei relativamente cedo a certas posições na Aviação (com as quais jamais havia sequer sonhado, nem para o final da carreira). Tenho mais a agradecer ao Astral Superior do que qualquer coisa, principalmente por Terem me protegido nas horas de emergência, dois acidentes etc.; não estou milionário, mas não estou mal, e estou intacto, sem uma cicatriz. Não sei, entretanto, se faria tudo de novo, se soubesse – lá no início – tudo pelo que teria de passar, ao longo dos últimos 34 anos. Provavelmente não.

  17. Jonatas Gabriel Rossi Martins
    3 anos ago

    Parabéns, comandante Raul. Já há anos acompanho o seu blog e aprecio imensamente os excelentes artigos produzidos pelo senhor. No entanto, esse em comento foi excelente, simplesmente sem palavras.

  18. BeechKing
    3 anos ago

    Uma duvida, nos sites e blogs de medicina, advocacia, da associação de vendedores, há algum texto desse, dizendo que quanto mais a pessoa trabalha, mais ela vai gostar de trabalhar??? Pq pelo que eu sei, uma pessoa sendo empregada, pode ser qualquer coisa nesse mundo, mas ela nunca vai estar contente….

  19. Jonas Do Carmo
    3 anos ago

    Parabéns pela ilustração, achei excelente o artigo.

    Em 1 de abril de 2014 11:48, Para Ser Piloto

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