Lá vem a Passaredo, ladeira abaixo…

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Vejam essa reportagem publicada na Folha de hoje, informando que a Passaredo está deixando parte da bagagem dos passageiros para trás para poder carregar mais combustível. Motivo: ela não possui crédito junto à empresa fornecedora de combustível no destino intermediário, então precisa de partir com mais querosene para poder chegar ao destino final. Depois das notícias sobre atraso no pagamento de salários, esta outra mostra que o futuro da companhia está seriamente comprometido. Infelizmente.

7 comments

  1. Thiago.
    4 anos ago

    Como conversado com o Raul, vou expor as minhas considerações, de forma a contemplar também, o outro lado.

    A questão toda , nada , repito, nada tem a ver com combustível em SBQV. Vamos considerar os dois cenários que cumprimos – SSA/VDC/GRU e GRU/VDC/SSA. Vindo de Guarulhos, sempre fazemos o abastecimento, de forma a chegar em QV com o MFR (Minimum Fuel Required). Ok, nenhum crime, nenhum atentado à segurança. O MFR prevê também tempo de espera em voo, ida para alternativa, blablabla que tá lá no RBAC 121.

    Os pontos mais importantes a ressaltar, são os seguintes;

    – SBQV possui uma pista de 1700m, a 3000 pés de altitude. Qualquer grau acima da ISA, e todo mundo sabe pra onde vai a altitude-densidade né? Fora o fato do slope de conquista, predominantemente operando pela 15, fora o fato do segundo segmento, fora o fato do comprimento da própria pista….vai somando….

    – É um voo muito muito bom. Raríssimas as vezes que se decola com menos de 90% de ocupação. Então constantemente a aeronave está cheia. Pega o ponto acima exposto, e entra numa equação com este segundo. Bingo! Pensemos, pois: combustível em conquista? pra que? Sendo que o avião já tá cheio…. eu coloco QAV lá pra que, sendo que já tenho o mínimo chegar , ou em Guarulhos, ou em Salvador, dois destinos pra quem sai de QV.

    – O ATR é avião pra etapa de 01h00 no máximo. Basta ver na Europa, onde um voo de 01h00 atravessa praticamente um país. A Azul, neste caso, vem de CNF e vai pra SSA. Vem de um voo de 01h10, e vai pra próxima etapa de 01h00 pra SSA. Eles precisam trabalhar com menos combustível, bem menos. O MFR deles pra seguir pra CNF é pouco mais da metade do que eu preciso para uma etapa de quase 03h00. Uma lógica cartesiana até…

    – Um ponto a se considerar é: o MTOW dos -500 é de 22.500kg e o dos -600 é de 23.000kg. A empresa já percebeu a necessidade de deslocar os -600 para este voo em específico, devido ao maior disponível. Todos nós, eu, você que me lê, todos, aprendemos muito mais com os erros, do que com os acertos propriamente. Este detalhe (do peso citado) é plenamente atingido, se estivermos dentro da análise de pista ( de cabeça, me lembro que abaixo de 23 graus, headwind de 5 a 10kt, operando a 15). Acima disso tudo, cada grau acima, ou cada nó a menos, a conta começa a apertar. Mas nada, repito, NADA tem a ver com combustível a abastecer em SBQV.

    – TODAS as companhias aéreas brasileiras, repito, TODAS, fazem Fuel Tankering. Oras, o que é Fuel Tankering diria William Bonner. Caro âncora, tankering é uma forma que as empresas aéreas tem, de escapar da sanha tributária do governo de cada estado. Abastece mais combustível onde dá, e onde cobra um menor ICMS, e abastece menos onde a faca entra até o cabo. Ambos os casos são feitos perfeitamente dentro dos ditames de segurança de voo. Nada é feito à galega. A Passaredo faz tankering. Ótimo. Mas, parece que, tudo o que a Passaredo faz, tem um viés ruim, mesmo fazendo exatamente o que as outras fazem, e que à imprensa em geral, pouco interessa. Afinal, os outros são bons anunciantes em pop-ups que vivem enchendo o saco do internauta né….mas que dão um retorno mais gordo que o André Marques em configuração pré-operação-do-estômago….

    – Existem erros, e a empresa tá trabalhando pra minimizar, e se possível, mitigar. Nós aviadores, fazemos tudo priorizando a segurança. Mas existem os limites do avião. E contra estes, nada se pode fazer.

    Valeu Raul.

    Abraço.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Ótimos esclarecimentos, Thiago!

      Valeu!

    • BeechKing
      4 anos ago

      Quando vejo noticia de aviação na nossa imprensa, nem perco meu tempo, só sai besteiras.
      Thiago, deveriam postar seu esclarecimento lá, para mostrar o quão o buraco e mais fundo, mas deixa pra lá…
      Abraços!

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Eu enviei uma mensagem ao Ricardo Gallo, repórter da Folha responsável pela matéria citada neste post, com o comentário do Thiago, acima. Abaixo, sua resposta:

      Raul, obrigado por me escrever. Entrevistei dois pilotos, um atualmente na Passaredo e outro que saiu ha pouco tempo. Nenhum me deu essa visão que o Thiago deu –bem técnica e ponderada, aliás.

      Estou com essa reportagem faz duas semanas. Fiz pelo menos dez contatos com a assessoria de imprensa da Passaredo. Em nenhuma ocasião a empresa falou isso o que o Thiago disse. A resposta deles foi o que foi publicado.

      Eh uma pena eu nao ter falado com ele antes de a matéria sair. Independentemente disso, eu procurei puxar a reportagem pelo que mais interessa ao leitor da Folha: o fato de a empresa estar deixando malas pra trás.

      Fico a disposição

      Grande abraço,

      Ricardo Gallo
      repórter – Cotidiano

      PS: Quando pedi autorização para reproduzir o texto acima, ele me pediu que publicasse também seu e-mail, para o caso de alguém ter alguma outra dúvida sobre este assunto: ricardo.gallo@grupofolha.com.br.

  2. Beto Arcaro
    4 anos ago

    Teve um Amigo nosso, né Raul, que saiu do fogo, e caiu na frigideira…
    Ainda não é o fundo do poço!
    Ele chega, quando começa a faltar “Suco”.

  3. Raphael
    4 anos ago

    O problema não esta na companhia aérea e sim no governo que só fiscaliza um lado e deixa o outro fazer oque quer, isso não aconteceria se o abastecimento fosse num preço justo, lá o querosene esta R$5,96 , sendo que em Pampulha sai por R$3,60 , sendo assim é bem compreensível a situação, pois de outra forma a população reclamaria dos preços altos das passagens, não da pra ganhar dos dois lados.

  4. Lamento sinceramente pelos colegas cujos empregos estão em risco, mas eu trabalhei lá (na Air Plus, nos A310-300’s, 1997-1999) e nunca houve cultura organizacional, pelo menos naquela época. Aviação não é boteco de esquina nem fábrica de leite em pó. Ou nego se moderniza, ou vai à gaita. Ou – se não for – é pq a empresa está alí por razões outras que não o transporte seguro e eficiente de pax, carga e mala postal. Tenho dito.

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