[Editorial] APPA: “Atestados e mais atestados de incompetência : a Copa e os riscos para a aviação”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Reproduzo a seguir como editorial deste blog o artigo originalmente publicado pela APPA-Associação de Proprietários e Pilotos de Aeronaves, o qual endosso cada vírgula:

Atestados e mais atestados de incompetência : a Copa e os riscos para a aviação

A Copa do Mundo de 2014 vai mexer com todo o setor e espaço aéreo brasileiro durante mais de um mês. De algumas semanas antes do seu início até alguns dias depois do apito final, as operações aeronáuticas no Brasil ficarão bastante afetadas em função da realização do evento. Até aí, nada mais do que natural.

Eventos internacionais alteram o funcionamento da aviação. Companhias aéreas precisam remanejar malhas, o que afeta voos, tripulantes e operações. Aeroportos precisam se adaptar para operações em volume e concentração para os quais não foram projetados. A questão de segurança torna-se prioritária, seja por razões operacionais, seja por riscos de ameaças ilegais, crises e terrorismo.

Tudo isso são fatos.

O problema é que no Brasil, mais uma vez, está se assistindo a um espetáculo da incompetência dos seus governantes. O Brasil se candidatou para sediar esse evento em 2003, há nada menos do que 11 anos. Em 30 de outubro de 2007 a FIFA anunciou a escolha do Brasil para sediar a Copa. Alguns meses depois as cidades-sede já estavam definidas.

Hoje, faltando pouco mais de 30 dias para a abertura da Copa o que se vê é o retrato do pior que o Brasil tem para mostrar ao mundo: a gambiarra, o inacabado, a incompetência, o amadorismo, o desperdício. Dos Estádios aos Aeroportos, passando pelo setor hoteleiro e infraestrutura básica de segurança, energia, saneamento e fornecimento de água, tudo ficará por ser concluído. Legados? Isso é uma piada.

No setor aéreo a bagunça é generalizada. Notas e regras recentemente publicadas pelas autoridades aeronáuticas atestam a incompetência do país para organizar e sediar um evento dessas proporções. Todas as medidas anunciadas se iniciam com o mantra “considerando o fato da infraestrutura disponível não ser suficiente para atender a demanda provocada pela Copa do Mundo…”. Ora, isso tudo começou (ou deveria ter começado) há mais de 10 anos! O Brasil não foi informado ontem que sediará uma Copa do Mundo. Pediu para fazer isso 10 anos atrás! Jogou-se dinheiro pelo ralo há uma década em nome desse evento e chegamos às suas vésperas com um conjunto vergonhoso de gambiarras, com as autoridades aeronáuticas justificando medidas restritivas em nome da “falta de capacidade para atender demanda”.

A aviação como um todo já se prepara para contabilizar prejuízos. As companhias aéreas já sabem quanto custará a redução brusca nas receitas com passageiros a negócios o que não será compensado por receitas com turismo. Mais do que isso, por uma questão de imagem e respeito às regras, acabarão assumindo ônus elevadíssimos decorrentes da falta de aeroportos e espaço aéreo. Na Aviação Geral veremos a frota brasileira praticamente mantida em solo, impedida de voar, para que se tenha um pouco a menos de pressão no espaço aéreo e nos aeroportos inoperantes. Operadores internacionais de aviação executiva já manifestam preocupação com políticas de slots, aeródromos alternados e permissões de voo complicadas, quase incompreensíveis.

Em síntese, a Copa do Mundo de Futebol, que deveria servir para celebrar um país que poderia estar dando certo, corre um sério risco de não passar de um fiasco global.

A atenção, a essa altura, deve ser dada pelo menos à segurança das operações. É líquido e certo que um cenário com tantas mudanças e gestão descoordenada, principalmente de aeroportos e espaço aéreo, é propício a acidentes e incidentes.

Os últimos eventos internacionais de porte semelhante (como Copa da África do Sul, Olimpíadas de Londres e o SuperBowl 2014) podem nos dar uma ideia do que significa milhares de aeronaves executivas e comerciais se deslocando ao mesmo tempo, para o mesmo lugar. Quando isso ocorre onde o inglês é língua nativa e se pode contar com estrutura para receber essas operações, os riscos já aumentam. Imaginar o que pode ocorrer quando controladores mal sabem se comunicar em inglês técnico, sistemas de comunicação e navegação funcionam precariamente e aeroportos não estão preparados para atender à demanda tudo se torna realmente preocupante.

Tomara que a lógica simplesmente esteja errada, que o evento seja um fracasso de público estrangeiro ou que em último caso, se prove que Deus realmente é brasileiro. Dependendo do tamanho do caos, só milagres evitarão uma vergonha global e até ocorrências mais graves.

8 comments

  1. Amgarten
    4 anos ago

    É com tristeza que vejo, dia após dia, a situação do país deteriorar. Um dia uma jovem é espancada e morta no meio da rua, no outro dia escândalo de sangue-sugas, outro dia outra barbaridade, e assim caminhamos como zumbis.
    No caso da aviação, que amamos tanto, mesmo quando acontece uma tragédia, nada muda, é apenas o tempo de surgir qualquer outra notícia para esquecermos e tudo volta como era antes.
    Tenho voado e acompanhado pilotos pelo Brasilzão há tempos e não vejo nenhuma melhoria de infraestrutura, novas pistas, novos taxiways, novos auxílios, novos radares, nada! Soma-se a isso a economia horrível que obviamente afeta o mercado de trabalho para os aviadores. Ou seja pressão para todo lado.
    Para piorar, agora os aviadores foram eleitos os vilões de qualquer problema que acontecer, e serão, nas palavras de uma alta autoridade “punidos”. Eu acrescento: “punidos severa e exemplarmente”. Claro! São palavras e medidas tomadas por uma pessoa, um burocrata, que não sabe o que é um avião, não conhece nada sobre a área. Conhece apenas a “arte de fazer política no Brasil”.
    A decisão de emigrar aumenta, estamos cansados de ouvir sobre o “país do futuro”. Um futuro que nunca chega. Talvez já tenha chegado e passado sem que nós, os zumbies, tenhamos percebido. Uma decisão bastante difícil de ser tomada, está de partir daqui, mas sem dúvida alguma, como lembrou o Fábio, esse pensamento começa a se fortalecer diante de tanto descalabro.
    Boa sorte mesmo!

    • Löhrs
      4 anos ago

      Prezado Amgarten, sou de opinião que quem tiver a oportunidade e os mínimos, tem que emigrar. Sei que adaptar-se a cultura estrangeira não é a mesma coisa pra todo mundo mas não é nada impossível. Especialmente para brasileiros acostumados a todo tipo de intempéries, lá em cima e cá embaixo. E não acredito que o país do futuro tenha passado e nós não nos tenhamos apercebido dele. Isso simplesmente não aconteceu e não vai acontecer tão cedo. A louca terrorista vai ficar por mais 4 anos porque o PT compra e corrompe todo mundo. Em 2018 o louco bêbado com seus bilhões guardados, vai se reeleger e continuaremos nessa ditadura esquerdopata. Se eu tiver a chance concreta de voar fora em condições normais, vou na hora!

    • Beto Arcaro
      4 anos ago

      Cássio,
      Falou tudo!!
      Se não dá mais pra viver nesse País, muito menos dá pra trabalhar.
      A coisa tá muito feia!
      Vivemos num País onde todos os “Buracos” são sempre mais embaixo.

  2. Vejo pelo lado bom: esse descalabro todo está tornando mais fácil a decisão para muitos de nós (no sentido de emigrar daqui). Às vezes, é preciso chegar ao fundo do poço para ver que – ao contrário do que preconizava Caetano Veloso – nem sempre há uma mola instalada, no sentido de empurrar-nos de volta para cima. No caso deste país, geralmente é um sumidouro, mesmo. Boa Sorte para todos nós.

    • Löhrs
      4 anos ago

      Infelizmente Fábio, mas infelizmente mesmo, eu não consigo mais emigrar por causa da equação idade X equipamentos X horas totais. Porque ICAO e falar em inglês, eu tenho. Mas vontade de dar o fora dessa república eu tenho mais ainda. A acft Tipo máxima que eu voei foi King C90 e B200. Agora estou na AG…

  3. Eduardo Ruscalleda
    4 anos ago

    Cada vez mais revoltado!

  4. Löhrs
    4 anos ago

    Luciano, o que já vai ocorrer. Se o que disse Marcelo Guaranys à folha se concretizar, preparemo-nos todos.

  5. Luciano Faiolo
    4 anos ago

    E caso ocorra algum acidente/incidente, não esperem que isso seja o incentivo para a tão sonhada mudança de pensamento e finalmente investimentos em infraestrutura e mais atenção ao segmento aéreo. Não, o que podemos esperar dos nossos competentes órgãos reguladores é no máximo algo como multas e punições para os operadores! Suspensão de carteiras de pilotos e tripulantes! Se adaptem! Esse país não é sério!

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