A decolagem abortada em Aracaju e as consequências de um ‘speech’ prolixo

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Uma aeronave da Azul que ia de Aracaju para Campinas-Viracopos teve ontem a decolagem abortada por um possível conflito de tráfego aéreo – vide este post do blog Senhores Passageiros, da Folha, que inclui o áudio do ‘speech’ do comandante: “A gente acertaria a outra aeronave em 20 s, diz piloto que evitou colisão“. Mais tarde, a FAB soltou uma nota dizendo que não foi bem assim, e que o outro tráfego – um helicóptero, no caso – não oferecia risco ao avião da Azul, como explica este outro post do mesmo blog acima citado: “Avião da Azul não correu risco de colisão, diz FAB“.

É difícil opinar sem estar lá, mas em princípio (e pelas informações disponíveis), eu acho que faria a mesma coisa que o comandante daquele voo da Azul fez. No meio da corrida de decolagem, soa o alarme do TCAS, a pista está acabando, a V1 chegando… Na dúvida, eu abortaria a decolagem também! Mesmo sendo, ao que parece, uma frenagem de alta energia, e a pista estar molhada e em reforma, o que é melhor: varar a cabeceira oposta ou colidir em voo? Mas discutir a decisão do comandante não é o foco deste post, eu gostaria de tratar aqui do que não se tem dúvidas: o ‘speech’ feito pelo comandante, disponível na íntegra no primeiro link acima.

Em primeiro lugar, há o próprio fato de a gravação existir e estar na internet – ou seja: tudo o que se fala em público hoje em dia pode (e vai!) ser gravado e, uma vez em formato digital, é só uma questão de (pouco) tempo para chegar às redes sociais. Por este motivo, há que se tomar muito cuidado com o que se diz em público (na verdade, também em privado em muitas situações), pois qualquer deslize poderá ser muito amplificado. Exemplos disso não faltam, esse é só mais um…

Depois, há a questão da forma. Se o Raul fala alguma coisa para os amigos no bar, é o Raul falando – e qualquer impropério será problema meu, exclusivamente. Mas se o comandante Raul utiliza o sistema de som da aeronave para se comunicar com os passageiros, então é a própria companhia que está assinando o que é dito, o problema não é só meu neste caso. Daí o fato de se cometer deslizes de português e de se falar mais do que o necessário serem pontos dignos de nota. Não é meu objetivo julgar ou criticar ninguém, mas como este é um blog voltado à formação de futuros pilotos, não posso deixar de comentar certos aspectos:

1) “Não dá pra mim afirmar quem é” (1:36min do vídeo)??? Poxa, imagine uma mala direta ou um site corporativo escritos desta maneira? Eu sei que uma pessoa pode ser ótima profissional mesmo claudicando no português, mas imagine o seu cirurgião dizendo que “não dá prá mim operar você até os seus exames apresentarem melhora”, o o engenheiro da obra da sua casa falando que “não vai dar para concretar a laje enquanto continuar chovendo”, o que você iria achar disso?

2) O excesso de informações – “isso é uma colisão em 20 segundos depois que a gente decola”, “o pessoal da manutenção me falou em ‘off’ que isso acontece direto”, etc. No que estas informações poderiam ajudar na condução do problema? E como o que não ajuda geralmente atrapalha…

Então, eu acho que o melhor a fazer numa situação dessas é ser conciso. Alguma coisa na linha do “senhores passageiros, devido a um conflito de tráfego aéreo, tivemos que abortar nossa decolagem, e vamos ter que retornar para o pátio”, mais as informações sobre o que vai acontecer em seguida – “temos uma espera estimada em X minutos”, “o pessoal da manutenção precisará realizar uma checagem, que é padrão nesses casos”, “nossa decolagem deverá ocorrer à tal hora”, etc. – e pronto. Com isso, evita-se cometer erros de português (bastante prováveis devido ao nervosismo) ou falar mais do que se deve.

“Ah, Raul, mas quero ver você lá, se faria tudo certo”! Pois é, pode ser que eu falasse ainda mais besteira e espancasse o vernáculo com mais violência! Como disse, não estou aqui julgando ninguém. Mas acho importante aproveitar a oportunidade para levantar a discussão sobre como se comunicar de maneira eficiente no desempenho das funções de piloto, pois é esta a finalidade do blog.

5 comments

  1. Yuri
    3 anos ago

    Na minha opinião, se empolgou demais e faltou CRM e gerenciamento de crise no seu treinamento na Universidade Azul como chamam. Se fosse na Tam, poderia tomar uma chamada do Grant ou até mesmo demissão.

  2. Douglas
    3 anos ago

    Isso é só uma amostra da “boa” formação nos dias de hoje. Eu nunca pensei que a “pelada” da aviação geral fosse chegar na Linha Aérea. Viverei bastante e não verei tudo.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Sinceramente, não acho que se possa relacionar o ocorrido a problemas da formação aeronáutica contemporânea. Não sei há qto tempo o comandante é formado, nem se aprendeu a voar no Brasil… Enfim, não acho razoável afirmar que isso “é só uma amostra da ‘boa’ formação nos dias de hoje”.

      • Douglas
        3 anos ago

        Perdão Raul… quando falei formação, estava pensando em: ensino fundamental, médio, português, matemática e etc… Formação aeronáutica, na minha modesta opinião, ultrapassadíssima.

  3. Marcelo Santos
    3 anos ago

    Muito bom seu texto amigo, acompanho seu blog sempre que posso. Sou piloto da OMNI, dona do helicóptero que estava na “mira” deste avião. Como você disse, não está em questão aqui a decisão do piloto, mas sim o que foi falado depois. Muito bom.

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