O perigo da AVgas

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Muito pouca gente dá bola para isso, mas é importantíssimo: a AVgas é extremamente tóxica devido ao chumbo presente em seu componente (além da toxidade “comum” de qualquer outro combustível – gasolina automotiva, diesel, etanol…). Se ela cai na sua pele, o seu organismo absorve o chumbo dela muito facilmente, já que ele é solúvel em gordura; e respirar a fumaça emitida pelas aeronaves que utilizam AVgas – praticamente 100% das usadas na instrução – é terrivelmente perigoso. Jogar esse combustível no chão do pátio, que é o que muita gente faz na inspeção pré-voo, também é péssimo: contamina o lençol freático e o solo. O terreno do Campo de Marte, por exemplo, está condenado: se, um dia, ele for mesmo desativado, vai ser necessário um investimento astronômico para que nele se possam construir casas, escolas, shopping centers, hotéis – ou mesmo parques: vai ser difícil utilizá-lo para outros fins que não instalações aeroportuárias, na realidade.

Eu diria que manusear AVgas sem proteção é equivalente a manejar aparelhos de raios-X sem aventais de chumbo: se for muito esporadicamente, o risco é baixo, mas para quem faz isso com frequência e por muito tempo, é bastante perigoso. Daí que, para mecânicos, instrutores de voo, e pilotos que voam aeronaves que utilizam esse combustível, o risco é bem maior, e seria muito recomendável que todos utilizassem luvas nos procedimentos de drenagem – e que, de maneira alguma, se jogasse o combustível diretamente no solo. Mas, como faz parta da nossa cultura não dar bola para “esse tipo de bobagem”, eu sei que os mecânicos vão continuar limpando peças com AVgas sem proteção e depois vão almoçar sem lavar as mãos direito; que o instrutor vai voar depois de derramar um pouco de AVgas no braço sem se importar, e por aí vai.

Mas, de qualquer maneira, eu acho muito interessante assistir ao vídeo “Cosmos: Odisseia no Espaço 1×07 – Dublado“, no trecho que começa aos 24min:19seg. Ele vai te dar uma dimensão muito mais ampla sobre o problema do chumbo e como ele acabou banido nos EUA (para a gasolina automotiva). Vale muito a pena! Depois agradeçam ao Pedro Santos, que foi quem indicou o vídeo e o tema.

PS: Alô CENIPA e SERIPAs! Será que não estava na hora de vocês publicarem um boletim de segurança sobre este assunto?

 

22 comments

  1. Arthur Tomazi
    2 anos ago

    Raul, juro que comecei a ler sobre o assunto, porque tambem assisti ao episódio da séries Cosmos. Sou Piloto Comercial, e até hoje então, não avia me atentado ao tamanho do risco que me coloco, e como você citou, muitos dos profissionais da nossa área se expõem manuseando a gasolina de avião sem alguma precaução. Segundo alguns dados que coletei numa pesquisa rápida logo após assistir ao episódio da série já citada, fiquei abismado com o tamanho da nossa exposição ao chumbo, quando lidamos com o AVgas. Só pra citar um dado que consegui, o limite máximo estabelecido pela ANVISA para contaminação por chumbo em alimentos, sendo o maior, o Sal para consumo humano, é de 2,0mg/Kg. A AVgas hoje utilizada, contem na sua composição 0,56% de chumbo, sendo assim, 1Kg de Avgas tem uma concentração de 5600mg/Kg, 2800 vezes maior que o limite máximo permitido, no grupo de alimentos com a maior tolerância a contaminação por Chumbo, regulados pela ANVISA. Ao meu ver algo nem perto do que poderiamos considerar seguro para o manuseio humano.

  2. wassall
    3 anos ago

    Tudo que foi escrito sobre o chumbo tetra-etila é pertinente, agora, aquele hábito de ficar colecionando restos de AVGAS de drenagem é muito perigoso, devido a incêndios, explosões ou contaminação pelos vapores; pergunto descartar onde? No próprio tanque.

  3. Ygor Cunha
    3 anos ago

    Muito interessante!

    Na semana passada mesmo, dei uma pesquisada exatamente sobre esse assunto. Fui pesquisar mais pela curiosidade, pois sempre que via o avião ser abastecido, o abastecedor estava com a cara quase encostada na asa, olhando pra dentro dela. De longe, eu só via aquele vapor subindo e ele respirando.
    Depois que li algumas matérias, parei de acompanhar o abastecimento de perto. Confiro o combustível que está sendo abastecido, mas não fico lá junto com o abastecedor, inalando todo aquele vapor de AVGAS. Quando ele termina o abastecimento, vou lá e confiro.

    Não sei se acontece com todo mundo, mas quando vou drenar, em quase 90% das vezes, acabo derramando um pouco de combustível nos meus dedos.

    Acho a solução de usar luvas pouco prática no dia-a-dia. Na correria, as pessoas não vão procurar luvas, vestir as luvas e depois tirá-las. Se forem descartáveis, um custo a mais pro Aeroclube; se forem reutilizáveis, vai acumular suor e resto de combustível, vai ficar com um cheiro horroroso.

    A forma mais rápida de resolver isso, ao meu ver, seria utilizando copinhos(tem outro nome? rs) maiores e com uma marcação pra encher, por exemplo, até 50% do copo.

  4. Antonio
    3 anos ago

    Um pouco de informação em menos histerismo.

    E na boa. AVGAS é uma pedra no sapato da industria petroquimica. Eles adorariam poder deixar de faze-la. Mas para nossos motores funcionarem com segurança ( por n motivos ) ela ainda vai fazer parte da nossa vida.

    Cheirinho bom !

    Segue matéria.

    http://www.flyingmag.com/blogs/going-direct/unleaded-avgas-do-we-really-have

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Ok. Então leia esse comentário da leitora Amber Berlin ao referido post:

      Piston-engine aircraft are the largest source of airborne lead (Pb) emissions in the U.S. Breathing Pb emissions raises the blood-lead-level in the body, causing various biological problems. According to the Center for Disease Control (CDC) there is no save level of Pb in the blood and even low level Pb exposure can result in permanent cognitive damage, refuting the authors claim above. Additionally, because of the causal relationship between Pb exposure and decreased IQ scores, and the The World Health Organization’s finding that “exposure to lead causes mild mental retardation resulting from loss of IQ points”, they determined Pb in fuel should be phased out of operations as quickly as possible on a global scale (2000). Aside from contaminating the air, airborne Pb emissions also fall to the ground as particulate matter and contaminate the soil, water, and vegetation. Kids are at an increased risk because they play outside in the dirt…the same dirt we are poisoning with our small aircraft emissions. The National Emissions Inventory (2005) recognized piston-engine aircraft as producing 653 tons of Pb emissions each year. A study on the external costs of Pb airborne emissions determine that for each kg of lead emitted into the air, it costs us approximately 41-83 Euros. That’s $55-$112 per kg of Pb emissions, and with 907.185kg/ton that totals $32-$66 MILLION dollars each year. And that’s just the airborne part of the lead, not including the soil contamination or other impacts on the environment. Also, not considered are the individuals who lost IQ points, and now get Social Security for “Intellectual Disability”, of which IQ is a qualifier. There were 833,252 people who received benefits in the intellectual disability category for 2011, at approximately $692/month per person, that’s 576.6 MILLION dollars. And what about the kids that have to be put in special education classes? In the 2009-10 school year there were 463,000 students who suffered from intellectual disability, and the U.S. Department of Education requested $822 MILLION dollars from the federal government to support programs for these kids. This is only the federal portion, not including the money the states are required to contribute. While a study on Danish citizens determined the lifetime loss in income is 19,000-30,000 Euros/IQ point, the EPA favors a much lower value of $8300-$8800/IQ point. The cost of Pb emissions is great, and we should be aware of exactly how much it is costing us to continue using leaded AVgas. In light of the findings, piston-engine aircraft owners should be the driving force behind a solution for their aircraft’s emissions. They should be pressuring the EPA and the FAA. They should be encouraging FBO’s to carry unleaded fuel, instead of resisting the change as this article portrays. It may be inconvenient to change, but it will be even more inconvenient if it is your son that ends up with an intellectual disability because you resisted changing.

  5. anonymous
    3 anos ago

    O canal é acender a churrasqueira com AvGAS LOOOOOL

  6. Enderson Rafael
    3 anos ago

    Muito bacana ver a Ann Druyan levando o legado de Carl Sagan adiante. Bom, o chumbo deve ter um motivo muito bom pra estar lá, afinal até pros motores é ruim… quantas vezes não precisamos limpar as spark plugs no power check, né… quem sabe um dia não conseguem fazer uma avgas chumbo free?

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Eu acho que o futuro da aviação leve passa pelos motores diesel que queimam QAV…

  7. Ilo Rego
    3 anos ago

    Grande amigo Pedro, sempre colaboando com a aviação e com os amigos, parabens pela dedicação.

    E parabéns Raul sempre top os temss do seu Blog.

  8. Filipe Silva
    3 anos ago

    Eu descobri isso na segunda aula de segurança de voo do aeroclube, pois o professor nos mostrou casos de câncer de pele e outras doenças causadas pelo AVgas e o chumbo nele contido. Esse texto se torna importante porque é muito raro o repasse dessa informação. Na primeira aula de instrução minha já pedi para que o instrutor providenciasse as luvas e estou enviando pra ela agora esse texto. Temos que lhe agradecer Raul pela preocupação com os companheiros e pelo repasse dessa preciosa informação. Ótimo texto.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Pois é, isso NUNCA foi comentado nem no PP nem no PC teóricos, e muito menos pelos instrutores dos cursos práticos. E olhe que eu fiz meus cursos teóricos no ACSP e os práticos no ACSP e na EJ… Aliás, cansei de ver os mecânicos da oficina do ACSP lavarem peças com AVGas. Só não vi usarem AVGas como Listerine, mas não duvido que tenham pensado nisso…

  9. David Banner
    3 anos ago

    Bom, o AVGAS está ai desde que a aviação é aviação.

    Alguém conhece algum caso real de pessoa que ao final da carreira (ou mesmo durante) tenha contraído alguma enfermidade devido a exposição prolongada ao AVGAS? Eu nunca ouvi falar. Da toxicidade de chumbo sim. Mas será que o combustível oferece todo esse risco? Acho que falta estudos sobre o assunto.

    Com um estudo bacana ficaria mais fácil criar os procedimentos de segurança que fossem adequados e efetivos pra evitar contaminação.

    Enquanto isso não acontece, o melhor evitar mesmo.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Vc assistiu ao video recomendado? Ele fala exatamente do lobby da industria petroquímica para não divulgar informações sobre a contaminação por chumbo presente na gasolina…

  10. Renato G.
    3 anos ago

    Falta de orientação, conhecimento, e até mesmo a cultura de que se usar luvas para tal fim, por exemplo, “é coisa de homossexual”, colaboram para que isso aconteça.

  11. Muito interessante, todo mundo ouve falar mas como dito não dão valor… Vou imprimir aqui e colocar no mural do Briefing. Parabéns pelo site!

  12. pedropk
    3 anos ago

    Ficou show de bola, Raul. Bem melhor do que o micro-texto que eu tinha enviado.

    E pensar que já presenciei amigos Inva’s puxando AvGas via mangueira pela boca.

    Nunca mais vou fazer uma inspeção do mesmo jeito :/

  13. Filipe Pazzine
    3 anos ago

    Muito bom, um hábito do cotidiano que muitos não se dão conta. Sempre evitei entrar em contato com Avgas, mas agora mesmo vou arranjar luvas para drenar.

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