Português nível 6: você merece?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Segue abaixo um excelente artigo do amigo Enio Beal Júnior, escrito especialmente para este blog (embora baseado num post publicado no fórum Contato Radar por ele mesmo), que trata do problema da indigência linguística do português falado no meio aeronáutico. Não sei o motivo, mas o fato é que os pilotos realmente comunicam-se muito mal – fato que pode ser aferido em diversos comentários deste blog, aliás. Como complemento, eu sugiro ainda esta matéria da Exame.com “100 erros de português frequentes no mundo corporativo“, que ampliará os exemplos trazidos pelo Enio.

PORTUGUÊS NÍVEL 6: VOCÊ MERECE?

Depois de tanta luta (sim, quem é piloto sabe como é!), você finalmente recebe sua carteira emitida pela ANAC. Além das licenças e habilitações conquistadas com muito suor, lá no final consta a seguinte observação: ¨Português nível 6¨ (e essa vem ¨de graça¨!). É bem provável que você nem tenha notado isso – afinal, nos últimos anos, mormente quando se passou a exigir comprovada proficiência em Língua Inglesa para a admissão em muitos empregos de piloto, a grande preocupação dos aviadores se voltou para a qualificação no idioma de Shakespeare. Todavia, será que nós, aviadores, temos esse mesmo cuidado no que tange ao uso da Língua Portuguesa? Afinal, merecemos o grau máximo em nosso próprio idioma?

Antes de tudo, um ponto precisa ficar bem claro: o conhecimento do inglês é, sim, extremamente importante para a carreira do piloto. Fraseologia, Manuais de Aeronaves, revistas especializadas, bons artigos em periódicos, livros; enfim, praticamente tudo o que diz respeito à aviação exige conhecimento da Língua Inglesa. Isso sem falar dos contatos com manutenção, FBO, handling agents, catering e tantos outros, indispensáveis para aqueles que voam ou almejam voar para o exterior.

Voltemos, então, ao português. O piloto que deseja se destacar precisa estar ciente de que a capacidade de expressão, tanto oral quanto escrita, é algo de que não poderá prescindir, desde o início de sua carreira. A habilidade de se comunicar com precisão será observada na redação de seu currículo, nas entrevistas de emprego, nos speeches dos voos, na elaboração de documentos e em muitas outras ocasiões.

Em um episódio recente (real), um piloto teve a necessidade de abortar sua decolagem. Logo após a manobra, ao regressar para o pátio de estacionamento, esse comandante, muito corretamente, prestou os devidos esclarecimentos aos passageiros. O incidente acabou tomando grandes proporções, o que fez com que um vídeo gravado por um dos passageiros circulasse pela internet e fosse exibido em todos os telejornais. A interrupção da decolagem transcorreu sem problemas, mas o mesmo não pode ser dito sobre o speech. Nele, ao se referir à aeronave que o fez abortar, o comandante escorrega ao declarar que “não dá para mim afirmar quem é.”… Além dos ensinamentos aeronáuticos que podemos extrair do incidente, essa ocorrência também se mostra um excelente auxílio ao nosso tema, por envolver um erro primário de uso do Português, que certamente poderia (e deveria) ser evitado.

Ao acompanhar um fórum de debates sobre Aviação, foi possível colher outros exemplos de deslizes que seriam facilmente contornáveis com um pouco de estudo. Naquele espaço, bastante frequentado por pilotos e aspirantes à carreira aeronáutica, observam-se falhas de, por exemplo:

a) ortografia

  • preucupar (preocupar)
  • própio (próprio)
  • não exitaria (não hesitaria)
  • nāo é muito confiável, mais ajuda (mas ajuda)
  • ruin (ruim)
  • habilitações caçadas (cassadas)
  • coletania (coletânea)
  • acento duro de um avião (assento)
  • não deve ser atoa (à toa)
  • alguém mau intencionado (mal intencionado)
  • vai intender (entender)

b) uso do verbo “haver” no sentido de “existir”

  • haverāo possibilidades (haverá possibilidades)
  • houveram falhas (houve falhas)
  • não houveram feridos (não houve feridos)
  • haverão adaptações (haverá adaptações)
  • quando haverão mais seleções? (quando haverá mais seleções?)

c) concordância

  • a aviação está cheio de pilotos (a aviação está cheia)
  • muita coisa é levado em conta (muita coisa é levada)
  • ta misturado e mal distribuídas essas escala (estão misturadas e mal distribuídas essas escalas)
  • lamentável esses fatos com o Dreamliner (lamentáveis esses fatos)
  • as seleções pra pilotos está encerrada (as seleções para pilotos estão encerradas)
  • como é os testes para Pilotos na Azul (como são os testes)
  • composta por pessoas […] que não foi chamada (por pessoas que não foram chamadas)
  • os serviços que vai ser oferecido (os serviços que serão oferecidos)

d) uso da vírgula / crase

  • pergunta à quem passou (a quem passou)
  • será que tem substitutos a altura? (à altura)
  • as vezes a oportunidade está (às vezes)
  • vida longa a Embraer! (à Embraer)

e) uso de verbos e tempos verbais

  • já iniciaram a um tempo as obras (há um tempo)
  • que estavao realizando (estavam realizando)
  • eu a 11 anos atras ganhava igual e as vezes mais (há onze anos*)
  • o que esses fatores de discriminação tem haver (tem a ver)
  • ainda tem muita coisa por vim (por vir)
  • se você dar uma passada (se você der uma passada)

Obs.*: Neste caso, por uma questão de estilo, deve-se suprimir o termo “atrás”.

É óbvio, por exemplo, que o candidato que em entrevistas de emprego comete erros por vezes tão simples estará transmitindo uma má impressão a seu examinador. Então, se estiver à procura de uma colocação, prepare-se para essa etapa do processo seletivo, pois isso poderá fazer a diferença!

Para aqueles que já estão empregados, cabe um alerta: pesquisadores afirmam que grande parte das agressões à Língua Portuguesa ocorre porque o profissional tende a se acomodar após ser admitido. Depois de alcançado esse objetivo, é comum notar um desleixo no uso das regras ortográficas e gramaticais. Essa acomodação normalmente faz com que o piloto passe a ser mal visto em seu ambiente de trabalho. Para piorar a situação, via de regra, seus colegas não se sentem à vontade para “dar um toque” ou corrigi-lo nas falhas mais embaraçosas.

A melhor forma de não cair nessa armadilha é, além de estar atento às principais regras, continuar estudando, sempre. Outra excelente dica para a melhoria do uso do português é conservar o hábito da leitura: além de fixar conceitos de ortografia, uso de vírgulas e concordância, por exemplo, também ajuda bastante no aprimoramento do vocabulário.

Piloto: procure prestar um pouco mais de atenção naquilo que você fala e escreve. Saiba que tão ou mais importante do que obter um bom resultado no teste ICAO é o correto emprego da Língua Portuguesa, habilidade fundamental para se alcançar o sucesso em sua profissão. Faça por merecer, enfim, o seu ¨Português nível 6¨!

Enio Beal Júnior

18 comments

  1. Flemming
    3 anos ago

    Excelente texto, Beal!
    Explorou um ponto bastante importante da nossa atividade.
    Quem não comete seus deslizes na nossa complexa língua portuguesa?
    Parabéns pela publicação, Raul!

    • Enio
      3 anos ago

      Valeu, Flemming!
      Grande abraço.

  2. Márcio
    3 anos ago

    Como já disseram aí, o correto: “há onze anos”. Aproveitando, “Faz 11 anos” e não “Fazem onze anos”, como se vê muito. Mas o absurdo mesmo é o infame CONCERTES(Z)A.

    • Enio
      3 anos ago

      Exato, Márcio! Já solicitei a correção. Essa passou…
      Abraço.

  3. Burton Jr.
    3 anos ago

    eu a 11 anos atras ganhava igual e as vezes mais (há onze anos atrás)

    Usa-se : 11 anos atrás ou há 11 anos. Jamais os dois juntos como na oração.

    • Enio
      3 anos ago

      Perfeita a observação! Pedirei ao Raul para alterar o texto. Abraço.

    • Felipp Frassetto
      3 anos ago

      “e às vêzes mais…”

  4. lucas
    3 anos ago

    A correção do exemplo, “eu a 11 anos atras ganhava igual e as vezes mais (há onze anos atrás)”, também está errada. As palavras “há” e “atrás” têm o mesmo significado, gerando um pleonasmo; o correto seria a utilização de apenas uma das palavras.

    • Enio
      3 anos ago

      Correto, parabéns por sua observação!

  5. Alessandro
    3 anos ago

    Mario, curso homologado de PP por correspondência não é para se aprender a ler… Aprende-se a ler é fazendo boas leituras, como disse o Fábio.
    Fora isso… quem tem o vício de mandar mensagens abreviadas, por celular, têm grandes chances de escrever muitas bobagens também.

  6. Falta de (boas) leituras, no mais das vezes. Pouco importa apreender o que é prosopopéia, ênclise, mesóclise etc, a menos que você queira se graduar em Letras. Mas lendo coisa boa, você apreende a escrever corretamente, pq saberá ordenar seus pensamentos e passá-los para o papel de forma adequada.

  7. Mario
    3 anos ago

    É Isso que dá não exigir curso homologado. PP por Correspondência dá nessas coisas.

    • Julio N.
      3 anos ago

      Você teve aulas de português no seu PP homologado é?

  8. Enderson Rafael
    3 anos ago

    É, ser piloto escritor tem lá suas vantagens…

    • Menezes
      3 anos ago

      Ai já é nível 7. hehe..

      • Enderson Rafael
        3 anos ago

        hahaha nada, é 5+ :-P Revisor é nivel 7 haha

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