Obter uma colocação como INVA/H deverá ficar mais difícil – mas isso não necessariamente é uma má notícia

By: Author Raul MarinhoPosted on
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No post “Está começando uma crise no setor de instrução aérea?”, apontei para a possibilidade de as escolas de aviação – e, principalmente, de os aeroclubes do Brasil – entrarem numa grave crise em breve, que poderá, inclusive, levar alguns à bancarrota. Se isto realmente ocorrer (e, na verdade, a dúvida é só em termos de grau), é claro que os empregos dos instrutores serão afetados negativamente. Também naquele post apontei para o SNA estar, finalmente, atuando no sentido de regularizar a situação trabalhista dos profissionais da instrução, que será outro fator a influenciar na quantidade de vagas disponíveis para INVA/Hs (a tendência é a de que haja menos instrutores ganhando mais). Fora isso, há o fato de muitas instituições estarem atualmente trabalhando com um elevado “estoque” de instrutores, devido à possibilidade da entrada em vigor a regra das 200h PIC para INVA/Hs. E, uma vez que tal exigência caia definitivamente na próxima revisão do RBAC-61 (o que é praticamente certo que irá ocorrer até set/14), os profissionais excedentes também deverão ser dispensados, já que não mais fará sentido manter tais “estoques”. Então, obter uma colocação como INVA/H deverá ficar (talvez, muito) mais difícil no futuro próximo – mas pode ser que isso não seja uma notícia tão ruim quanto parece. Vejamos.

Dar instrução de voo é uma atividade meio, como se sabe, não um fim em si (pelo menos na grande maioria dos casos). A “estratégia de carreira-padrão” na aviação tem sido, já há algum tempo, a sequência formação-instrução-mercado – sendo que por “mercado”, entenda-se a aviação comercial (que é o que iremos assumir neste artigo, para facilitar a compreensão – mas registre-se que há opções muito interessantes também na aviação geral). Ocorre que a relação entre a oferta de vagas na aviação comercial e na instrução é de mão única, ou seja: a instrução fica aquecida se há grande oferta de empregos na aviação comercial (muita gente quer aprender a voar, e isso leva à contratação de muitos instrutores); porém a contratação de pilotos pela aviação comercial não se altera pelo fato de os aeroclubes/escolas estarem mais lotados. Disto se conclui que ficar mais difícil conseguir um emprego de instrutor não significa que ficará mais difícil chegar à aviação comercial, pois a oferta de vagas no segmento-fim não têm relação com a oferta de vagas no segmento-meio. Ou, por outra: o diretor de RH da Azul não irá contratar menos (ou mais) copilotos porque está mais difícil (ou fácil) se tornar INVA – na verdade, ele não está nem aí para isso, o que importa é qual a estimativa de necessidade de copilotos da empresa devido ao tamanho da frota (atual e projetado). Em resumo: o funil que interessa (o da aviação comercial) está com o mesmo calibre; o funil da instrução é que vai ficar mais apertado. Este é o primeiro ponto a destacar.

O segundo é o seguinte: se dar instrução hoje é uma boa estratégia para acumular horas de voo, isso não significa que, uma vez com horas acumuladas, você consiga uma vaga na aviação comercial. Na verdade, existe uma quantidade imensa de ex-instrutores que ralaram anos a fio como INVA/Hs e não conseguiram um “emprego de verdade” na aviação. E, não, em sua maioria não são maus profissionais, antes que o digam. São, simplesmente, pessoas que não tiveram a sorte de estarem prontas no momento certo, ou que não têm os contatos certos, etc. Pois é, acontece, e é muito mais comum do que se pensa. Por outro lado, quem conseguir uma colocação como INVA/H no futuro próximo terá mais chances de se profissionalizar na instrução, transformando, finalmente, a atividade num “emprego de verdade”, que é o terceiro ponto que eu gostaria de abordar.

Uma vez que os aeroclubes e as escolas de aviação remunerem melhor seus instrutores, respeitando os direitos trabalhistas, e sem essa exploração abjeta que muitos fazem (obrigando o sujeito a pintar paredes, cortar grama, servir de office-boy, etc.), é de se esperar que o mercado mude, com uma progressiva contratação de profissionais mais perenes na instrução, que deixaria progressivamente de ser encarada como um “bico”. A tendência é de que os INVA/Hs fiquem muito mais tempo na função, e a atividade perca (pelo menos em parte) a característica de fornecedora de mão-de-obra para a aviação comercial. Sem entrar no mérito do inerente aumento da qualidade da instrução que isso possa gerar no longo prazo (que não é foco deste artigo, embora seja um ponto importante), o fato é que a aviação comercial deverá encontrar outros fornecedores de mão-de-obra para seus quadros. É claro que os aeroclubes/escolas de aviação ainda irão continuar fornecendo pilotos para a aviação comercial, mas com menos gente disponível – e, os que restarem, ganhando mais e menos propensos a sair –, este segmento deverá ir buscar profissionais em outros lugares. Quais? Bem, os de sempre: na ‘91’ (aviação executiva) e na ‘135’ (táxis aéreos), seja nos centros urbanos, seja no “garimpo”, quanto a isso não há novidade. Mas a questão relevante é outra, que vou tentar explicar com base numa anedota.

Dois caçadores, já sem munição, estavam voltando para o acampamento, quando surge um leão. Ao avistar o animal, um dos caçadores tira seus tênis de corrida da mochila e apressa-se a calçá-lo. Aí, o outro caçador diz: “Ih, cara, larga mão de ser besta! Você acha que calçando esses tênis você vai correr mais que o leão?” Ao que o primeiro caçador responde: “E quem disse que eu quero correr mais que o leão? Eu quero correr mais que você!”.

Não precisa rir, essa piada não tem muita graça – e, muito provavelmente, você já a conhecia. Eu só a contei para ilustrar o quero dizer quanto à estratégia a ser adotada: você precisa estar mais bem preparado para a concorrência do que a maioria, o que significa:

1)      Ter uma qualificação técnica superior à média

Ter uma certificação ICAO de proficiência em inglês não é obrigatório, mas quem tem sai na frente. E quem tem nível 5 se sai melhor do que quem tem nível 4. E, além disso, quem efetivamente sabe conversar em inglês se sai melhor ainda. Mesma coisa quanto a faculdade ou qualquer outro item: você não pode achar que ter “os mínimos” está bom; você tem que lutar pelos “máximos”, se é que você me entende…

E

2)      Ter relacionamentos melhores que a média

Ter uma boa indicação não é uma dádiva dos deuses – ou melhor, às vezes até é, para quem nasceu em berço esplêndido em termos de QI, mas estes são uma minoria –, é possível construir relacionamentos. Há toda uma categoria de posts sobre este assunto aqui no blog: explore-os!

Como se vê, não há nenhuma estratégia realmente nova acima. Na verdade, a única novidade é que começar pela instrução, sendo INVA/H, deverá se tornar uma estratégia menos viável no futuro próximo. De qualquer maneira, o importante é lembrar que, independente do tamanho da crise no segmento de instrução, as chances futuras de sucesso – isto é, de se conseguir chegar à aviação comercial lá na frente – não serão alteradas. Como disse, o funil que interessa estará com o mesmo calibre, mesmo que o funil da instrução fique mais estreito. Então, mãos à obra! Comece a correr agora, pois o seu competidor já está calçando seus tênis!

12 comments

  1. Raphael
    3 anos ago

    Lendo os comentários vejo que ainda tem muita gente pessimista. Tudo bem que o mercado não está bom. Mas ser INVA não é a unica solução para conseguir um primeiro emprego. Ha muitas empresas de taxi aéreo que não exige muitas horas de vôo e contratam novatos para trabalhar. Acho que se você tem um sonho é bom correr atrás. E não ficar contando com o Ovo no cú da galinha! Esperar que tua escola vá de contratar ou que o mercado melhore é muito comodismo. No incio nós eramos nômades, então porque temos que ficar parados no mesmo ligar?

  2. Weyne
    3 anos ago

    Amigo Pedro concordo com suas palavras,me cheteia muito ver os amigos que gastaram muito dinheiro,as vezes sem poder por uma fantasia de ser Piloto,e quanto consegues as tais credenciais começa a intender que pp-pc-multi fir ícao ,não valem de nada,que nesse momento vc está apto a sentar na direita de uma aeronave classe e começar acumular hora de janela.
    Nunca acreditei em devaneios de PCs rasos(recém formados) já saírem ganhado algum dinheiro ou comandando alguma aeronave(até pelas óbvias razões de não terem capacidade),com exceção de irresponsáveis e alguns afortunados possuidores de QI.

  3. Cesar
    3 anos ago

    Ate concordo com o posicionamento do SNA, agora com a anac infelizmente nao, muitos como eu juntando dinheiro pra fazer o inva ai anac entra com essa bosta de regra de 200h, e agora como vou achar emprego, não tenho QI nem nada.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Mas a regra das 200h para INVA deverá cair! E, justamente por isso, os aeroclubes deverão demitir instrutores…

      • augustogentile
        3 anos ago

        Mas devem demitir os “mais velhos”, não? Tenho notado que, em várias escolas, eles fazem os invas girarem após atingir um determinado número de horas. Até porque, escola que não contrata seus alunos, tende a ficar sem, pois eles darão preferencia a um lugar onde tenham possibilidade de entrar. Não seriam o caso das “1000 horas? Tchau”?

        • Raul Marinho
          3 anos ago

          De fato, em condições normais, há essa rotatividade que vc menciona. Mas, agora, enfrentaremos uma situação impar, e não sei quais serão os critérios. Neste momento, acho difícil prever.

      • Cesar
        3 anos ago

        E que nem o amigo postou embaixo eles tao demitindo por tempo de casa, conheço varias pessoas, um amigo no meio que foi dispensado do nada sem darem explicações. Esse cair tinha entendido como entrar em vigor a regra(ma interpretação minha). abs

  4. Daniel
    3 anos ago

    não consigo ver um lado bom, como os recém-formados 150h conseguirão cumprir a exigência de horas da comercial se as opções são ser inva ou ter um bom QI e ir para as raras vagas para novatos na avc geral?

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Acho que vc não entendeu o artigo. Eu não falei que tem “lado bom”, e sim que “isso não necessariamente é uma má notícia” – o que é bem diferente. Eu disse que as dificuldades serão para todos, e que as vagas na comercial não serão alteradas, e que, portanto, será necessária uma mudança na estratégia tradicional, focando mais na qualidade da formação e no estabelecimento de relacionamentos produtivos.

      Mas vc sabe que, pensando melhor, existe um “lado bom” da crise na instrução… Depois escrevo sobre isso.

  5. Douglas
    3 anos ago

    Excelente análise!

    Quando ficar bom. Parar com essa prostituição (coitada das putas, ganham bem mais que INVA/Hs). Vou tirar minha Habilitação de INVA da gaveta e tentar uma vaga em alguma escola. Sou um caso raro, meu sonho é ser INVA, voar no finais de semana. Voar por prazer e ainda ensinar futuros aviadores. Nas duas ou três entrevistas que fiz para entrar de INVA em escolas, recebi como resposta, que eu, não tinha o perfil para ser INVA. Realmente. Da maneira que a coisa se encontra, não tenho o perfil mesmo. A duvida é: O que pesou? Eu ter dito que a remuneração era muito baixa? Ou ter falado que não tinha a menor vontade de me tornar “motorista” de airbus? Uma resposta que talvez nunca vou saber.

  6. Antonio Santos
    3 anos ago

    Muitas vezes essa resposta você só vai encontrar quando sentar ao lado direito do comandante e perceber que a carreeira de piloto nada mais é do que uma fantasia alimentada durante anos na sua cabeça e no final das contar ser piloto é uma profissão como qualquer outra, e tudo que você quer no final do dia é chegar logo em casa, infelizmente muitas vezes sendo piloto o final do dia esta bem longe da sua casa.
    Mas como sonho é sonho cada um corra atras do seu e se decepcione ou realize-se.

  7. Pedro
    3 anos ago

    Difícil….às vezes desanima mesmo. Juntei muitas horas como inva, porém vejo que o tal do “Q.I.”é o fator determinante. Já ví de tudo, recém formado voando de copila de King, copila de jato e tudo mais, e tudo devido “amizades”. E você alí saindo na ventania de aeroboero pra garantir o R$ no fim do mês, muitas vezes não é lembrado. E ainda suas inúmeras horas de voo, parece ter menos valor que o tal icao 4, para entrar numa aérea grande. Eu me pergunto, será que esse esforço todo vale a pena?

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