Sobre uma “faculdade de aviação” pública

By: Author Raul MarinhoPosted on
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No post “Jornal da Cidade (Bauru): Faculdade de aviação entra na rota’”, reproduzi a reportagem que informava sobre a possibilidade de o governo de São Paulo oferecer cursos técnicos gratuitos voltados à formação de pilotos e de mecânicos de aeronaves pela FATEC, em Bauru. Trata-se, em minha opinião, de um assunto muito mais complexo do que parece – sobre o qual, diga-se, eu tenho muito mais perguntas do que respostas. Então, sem a pretensão de esgotar este assunto, vamos refletir um pouco sobre esta possibilidade – não sobre a questão dos mecânicos, que não é o foco deste blog, mas a dos pilotos, exclusivamente.

Pelo teor da reportagem, pareceu-me que a proposta seria a de criar um curso de PP+PC no âmbito da FATEC, algo próximo de uma habilitação como tecnólogo ou algo assim – enfim, uma versão pública e gratuita dos cursos de PP+PC que há nos aeroclubes (inclusive, um dos idealizadores do projeto entende que o curso deveria ser oferecido no próprio Aeroclube de Bauru). Não se explica se o tal curso abrangeria só a parte teórica, ou a prática também, e acho que reside aí um primeiro ponto importante a ser esclarecido. Há duas possibilidades:

1) Só oferecer cursos teóricos, o que não faz muito sentido, uma vez que estes não são, nem de longe, a principal dificuldade de quem quer se tornar piloto; ou

2) Oferecer também o curso prático, o que levaria o custo do projeto a patamares equivalentes ao de cursos como Engenharia, por exemplo – e aí fica a questão: dado que os recursos são limitados, é melhor formar um piloto ou um engenheiro?

Fora essa questão política citada no final do item 2, há inúmeras outras dificuldades de ordem prática no oferecimento de cursos práticos de pilotos. Por exemplo: como fica a situação do sujeito que só quer usar a estrutura do curso para aprender a pilotar, mas não deseja se tornar um piloto profissional? Ou: quem fica responsável pela gestão da frota de aviões do curso (ou isso seria terceirizado para o aeroclube)? A quantidade de dúvidas sobre um projeto desses é imensa.

Em minha opinião, talvez o melhor modelo possa ser algo mais parecido com o que é feito na Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUC-RS, com um curso muito mais profundo do que um mero curso de PP+PC, e com a parte prática sendo realizada em paralelo, e paga diretamente pelo aluno. Mas, como se trata de uma faculdade pública, deveria haver alguma subvenção ou financiamento para isso, o que começa a gerar outros tipos de complicações. De qualquer maneira, acho que não faz muito sentido simplesmente formar pilotos de graça com a mesma qualificação dos formados nos aeroclubes ou nas escolas de aviação. Se é para ter um curso de aviação em faculdade pública, então ele tem que ser de excelência.

Eu acho que a intenção dos envolvidos com o projeto é boa, mas há muito o que se discutir sobre esse assunto. Vamos ver como isso evolui.

14 comments

  1. Douglas
    3 anos ago

    Muito bom, perfeito. O Brasil precisa de mais pilotos. (rss)

  2. No meu (humilde) entendimento, já há duas excelentes escolas públicas de Aviação: a EPCAR de Barbacena-MG, de 2o. Grau e a AFA de Piraçununga-SP. É só passar nos exames de admissão e ir para lá. Lá é porteira fechada (teoria, prática, hospedagem, comida, uniforme etc etc). Quem não gostar pode – depois dum tempo – pedir a emissão das licenças equivalentes e ir para a Aviação Civil.

    • Aguiar Filho
      3 anos ago

      A parte de aviação, mormente a prática, somente ocorre na AFA. Na EPCAR os estudos são voltados para o 2º grau. O que ocorre é que o aluno não precisa prestar o vestibular para ingressar na AFA, pois sua vaga já está garantida. Nada mais.

      • Márcio Lira
        3 anos ago

        Há duas formas de se ingressar na AFA e cursar o CFOAV, uma é sendo aluno da EPCAR e a outra é prestar concurso direto (vestibular) para a Academia.
        O aluno não tem vaga garantida na AFA, pois o número de vagas para o CFOAV não é o mesmo do número de alunos que estão cursando o terceiro ano da EPCAR; o aluno, além de se preocupar com a classificação e o término do segundo grau na Escola, deve passar pelo TAPMIL, que é o Teste de Aptidão à Pilotagem Militar (se rodar nesse teste, já era, fica fora do CFOAV); além de estar com a condição física/médica apta ao ingresso na Academia.
        De outra forma, o civil, incluindo aí candidatas do sexo feminino (não existe a figura de aluna da EPCAR), fazem o vestibular para AFA, e o número de vagas para estes é reduzido, tendo que, além da aprovação no concurso, estar com a condição física/médica apta para o Curso de Formação de Oficiais Aviadores.

        Quem não gostar, ou for desligado, se já estiver voando (o voo é feito no segundo e quarto anos do curso), pode pedir o registro das horas voadas e seguir, se for o caso, na aviação civil.

        Detalhe do CFOAV, só para registro, é que o curso (aviador) é divido, além da parte de educação física, em matérias militares, além de formação superior em duas áreas (Ciências Aeronáuticas e Administração – com ênfase em Gestão Pública) e o treinamento de pilotagem, dividido (como na formação civil) em duas fases distintas – entre outras “sub-fases”, treinamento básico (realizado no segundo ano do curso, no Segundo Esquadrão de Instrução Aérea, voando o T-25 Universal) e a parte mais avançada (realizado no quarto ano do curso, no Primeiro Esquadrão de Instrução Aérea, voando o T-27 Tucano).
        No final do curso, o cadete sai habilitado a voar somente mono, mas IFR, acrobacia, voo em formatura e com umas 200 horas de voo, e etc.

        Sem dúvida a formação, até pela carga de exigência em cima do cadete, é bem superior a da nossa (civil – aeroclube/escola de aviação). Não só pela cultura de disciplina e etc, mas também pela melhor padronização (que falta demais no meio civil de formação) e cultura de segurança (que também, muitas vezes falta em nossas escolas civis).

        E quanto às diferenças de propostas: a AFA visa realmente a formação não só do piloto militar, mas do oficial que gerenciará os recursos da FAB (comando, liderança e etc), mas a vantagem é que o aviador militar consegue se adaptar mais rápido a diferentes tipos de aviação (e não é puxando sardinha também para os milicos, mas é uma exigência na vida do aviador militar, pelas mudanças de atividades aéreas ao longo da carreira).

        Bem, de tudo isso, seria bastante proveitoso e interessante que existisse realmente uma instituição civil de ensino na aviação que seguisse moldes semelhantes ao da AFA, contribuindo com a excelência e mudança na visão de ensino de futuros aviadores no país. Que fosse um novo paradigma na nossa formação. Pode ser utopia, mas, quem sabe isso possa sair do papel, né?
        Abraço!

        Márcio Lira
        Aluno em 98 da EPCAR (desligado no exame médico para AFA) e Piloto Privado de Avião (atualmente)

        • Raul Marinho
          3 anos ago

          Excelente explanação, Márcio! Agradeço em meu nome e em nome dos leitores.
          Abs,
          Raul

        • Aguiar Filho
          3 anos ago

          Muito bom. Não tive a intenção de trazer tantos detalhes, só fazer um apanhado posto o objetivo do tema era outro. Parabéns pelos esclarecimentos. Só um detalhe, hoje, voa-se muito mais de T-27 que T-25 e a sistemática é a seguinte: voo num dia e estudo noutro; e qualquer deslize sai da escala de voo e vai estudar (muito comum, ao menos no meu tempo).

          • Márcio Lira
            3 anos ago

            É isso aí, rsrs
            Grande abraço, amigos!

    • Skynet
      3 anos ago

      Concordo contigo…..só esqueceu que você também tem que nascer privilegiado em termos médicos, que não foi o meu caso. Formação da Afa certamente está muito acima ,se não, uma das melhores da américa latina, sem querer puxar sardinha para os milicos. Creio que um estudo de mercado possa inviabilizar esse curso da Fatec, a não ser que haja apoio da Anac e empresas do setor.

    • Eduardo Silveira
      3 anos ago

      Bem observado, porém ambas entidades visam a formação e oficial aviador para atuarem como pilotos militares para defesa e transporte pax/cargo. A proposta aqui abordada visa estabelecer curso público comercial para atender a demanda existente na área de transporte de aviação civil.

      A ideia seria boa, mas creio que precisa ser estudado a forma de dificultar ao máximo o ingresso através de severas provas de admissão, testes e exames psicotécnicos.

      Que não seja uma versão pública do que vemos no sistema atual de formação de piloto prestado por escolas, faculdade e aeroclubes.

  3. Gabriel
    3 anos ago

    Quem ganhará a licitação a Aeroboero SA ou a Aeromot???

  4. Oi Raul…. tudo bem……muito bom abrir este debate….. realmente são mais perguntas do que respostas mesmo…… Lembre-se que no inicio da reportagem é utilizado à palavra “inédito” para o País que poderá ser implantado em breve em Bauru. Trata-se da Fatec (Faculdade de Tecnologia) da aviação, que passaria a oferecer cursos gratuitos voltados à formação de pilotos e de mecânicos de aeronaves.
    Até onde tenho conhecimento será a primeira Faculdade Pública de Aviação com a formação inicial de Tecnólogos em Pilotagem Profissional de Aeronaves, com teoria e prática para os alunos. Esta sendo pensado um modelo parecido com o da Academia da Força Aérea (AFA) em Pirassununga em dimensões menores, em relação à estrutura, mas com a mesma excelência quanto ao seu ensino e treinamento na formação de pilotos e mecânicos.
    Como existem cursos superiores públicos de engenharia nas mais diversas áreas, assim como cursos nas áreas de saúde como: medicina, odontologia, fisioterapia, etc., que também são cursos “caros”, o TRANSPORTE AÉREO também necessita de profissionais para o desenvolvimento de nosso país. Daí a necessidade da existência de um curso superior nesta área. Em um país continental como o Brasil é difícil levar o desenvolvimento de diversas regiões sem a utilização de aviões.
    Até hoje quem desejar ser piloto, “nasce rico” ou lamentavelmente precisará de muito esforço e dedicação para ingressar na carreira, se não desistir antes. O que acontece na maioria dos casos.
    Existindo esta faculdade pública de aviação com certeza será uma forma de inclusão e ascensão social para os que possuem menos recursos financeiros. Pois, para ser piloto, precisará “apenas” estudar e conseguir passar no vestibular e depois nas provas da Faculdade e da ANAC.

  5. Aguiar Filho
    3 anos ago

    Abrindo os debates, pelo quanto já informado, o curso, realmente, vai sair, mas apenas na parte teórica. Aliás, isto já ocorre em Taubaté na Escola Municipal de Ciências Aeronáuticas – EMCA, mantida pela Prefeitura Municipal. Há, inclusive, um convênio com a Aviação do Exército para estágios na parte dos mecânicos. O curso teórico de pilotos, embora previsto, não é realizado, até por limitação de verbas. Vale dizer: não há qualquer impedimento legal para que o Estado promova tais cursos.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Então a pior hipótese é a que vai acontecer. Lamento pela oportunidade perdida.

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