Sobre empregabilidade de pilotos: a importância da pesistência

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Nos comentários ao post “J.C.Medau: Sobre empregabilidade de pilotos“, o leitor Fernando publicou um comentário sobre sua própria estratégia utilizada para se viabilizar como piloto profissional, que acho que vale a pena dar destaque. Trata-se de um ótimo texto sobre a importância da persistência, que pode servir de “inspiração” para muita gente!

Li esse texto [o post acima citado/linkado] com angústia, pois me vi nele de 2001 a 2010.

Trabalho na mesma empresa do Medau, fui selecionado por ele em 2010. Chequei PC/MLTE/IFR em 2000, e a fim de aprimorar meu inglês e ficar melhor para o mercado e para vida também, morei um tempo no Canada (em 2001). Ao voltar, dei uma sorte danada de entrar num taxi aéreo, copiloto de Seneca e Navajo. Mas esse taxi aéreo durou pouco, de janeiro de 2002 a dezembro. Após isso, não consegui mais nada. Desisti, virei engenheiro, mas sempre com a vontade de voltar a voar.

Vi essa parte de gente experiente sobrando no mercado, etc. Mas, nesse tempo, tentei fazer o máximo para que meu currículo aparecesse. Quando chequei, entrei no site do DAC (Anac nem era sonho), peguei a lista de todos os taxi aéreos do Brasil, e mandei o meu currículo. Mandei mais de 200 currículos: alguns voltaram, muitos ficaram sem resposta, e tive três respostas – dois que não se interessavam por pilotos de SP, e um 2 anos depois me chamando para uma prova. Nessa época, já cursava engenharia, mas fiz a prova e passei – porém nunca fui chamado.

Em Janeiro de 2008, quase formado, decidi que iria voltar a voar. Naquela época, estava tendo um boom na aviação, copilotos eram contratados com 500 horas, e eu tinha quase isso. Analisei, e vi o que o mercado pedia: 500 horas, “faculdade era um diferencial”, e Jet. Fiz tudo o que pediram: revalidei as carteiras, a faculdade estava na mão, fiz curso de INVA e o Jet – “segui a moda”, como diz o texto. Bom, mas para mim isso não era suficiente, precisava me diferenciar: afinal, não tinha tanta hora de voo assim.

Foi quando surgiu o ICAO: perguntava para os pilotos da época, que me diziam que isso era uma grande bobagem. Mas, na dúvida se era bobagem ou não, fiz a prova e passei. A prova era tão desvalozirada pelos demais pilotos, que era fácil de marcar: fiz na GER- IV ou SERAC-IV, tudo em um mês, sem fila.

Não satisfeito, precisava de um novo diferencial. Como trabalhava como engenheiro e não tinha tempo para ficar o dia todo no aeroclube, decidi montar um site com o meu currículo: um site bonito, bem montado, bem feito. Qual era a minha ideia? Mandei fazer 1500 cartões de visita com meu nome, o site, e meu telefone: a ideia era entregar para todo piloto, dono de avião, dono de oficina, mecânico, pessoal de abastecimento, etc que cruzasse na minha frente. Já que eu não tinha a oportunidade de dar um currículo, de me apresentar como se devia, a ideia era que gerasse curiosidade: às vezes alguém poderia achar aquele pedaço de papel no bolso e se interessar em ver – e daí, numa emergência, surgiria minha oportunidade.

Não me dando por satisfeito, saí caçando todo e qualquer taxi aéreo que eu visse na internet: ligava, mandava e-mail e currículo. Dentro disso, lembrei dos amigos da época do taxi aéreo de 2002, e sai ligando. A lei é ver e ser visto: pois bem, muitos estavam na linha aérea, mas um bendito voava num taxi aéreo de Jundiaí. Ele me apresentou ao pessoal do taxi aéreo, ao chefe dos pilotos, e disse ”a partir de agora e com você”. Fui no taxi aéreo, me apresentei, conversei, e me disseram para não sumir: me deram um número de telefone para ligar às vezes – quem sabe não pudessem me ajudar?

Pois bem, além de tudo que eu já fazia, criei uma rotina: ligava toda quinta-feira no mesmo horário – se atendessem, boa, se não, ligava na próxima quinta. Ficava procurando motivo para ir no taxi aéreo, até que consegui uma segunda reunião. Fui apresentado a quem fazia a seleção do taxi aéreo, que me recomendou estudar porque se um dia eu fosse chamado, eu faria uma prova, e essa prova decidiria quem entraria.

Passei a fazer um monte de coisas, e a estudar todo fim de semana. Um dia o telefone tocou (após 4 meses) dessa segunda reunião: era a tal prova. Pois bem, minha insistência e estudos anteriores e específicos para a prova me ajudaram: quando fui fazer a prova, só tinha eu na seleção porque gostaram do currículo e da minha vontade de estar lá, de trabalhar lá. Gabaritei a prova. Foi uma luta de 8 meses, todo dia pensando o que eu poderia fazer diferente dos outros, e também sabendo que o mercado estava se abrindo e que eu deveria estar pronto para essa abertura.

Trabalhei nesse taxi aéreo 8 meses, morando do fora de SP. Nesse tempo, usei a mesma tática para entrar na linha aérea: procurei amigos, mandei currículo toda semana, até que voei de Oceanair pela primeira vez. E conversando com o pessoal (eu fazia isso sempre que pegava um voo comercial), consegui o e-mail dos responsáveis pela seleção da Oceanair. Das outras empresas eu já tinha, e passei a mandar um currículo atualizado toda quinta-feira, por volta das 10:30 da manhã. Mandei tantos, mas tantos, que no final de 2009, próximo ao Natal, recebi uma resposta de que eu não precisava mandar toda semana, que meu currículo estava lá e tinha sido visto.

Em janeiro, passei a mandar a cada 15 dias, e em fevereiro recebi o telefonema que eu tanto lutei: fui chamado para uma seleção – sem peixada, sem QI (como muitos disseram aí), apenas correndo atrás, e todo dia me perguntando o que eu poderia fazer diferente dos demais. Me angustiava pensar que alguém naquele dia tinha se esforçado mais do que eu para conseguir o que eu queria.

Nessa época do taxi aéreo, tínhamos comandantes novos e copilotos novos (menos de 35 anos): esses já estavam lá há um bom tempo. Eu fiquei 8 meses, e consegui ir para a comercial. O que eu fiz de diferente? Não me acomodei, meu currículo na época tinha mais do que pediam: ICAO, o povo estava começando a acordar para a necessidade eu já tinha; Jet, a mesma coisa, eu já tinha; faculdade, esse era um diferencial que por sorte eu tinha; PLA teórico, eu já tinha; até já estava inscrito num curso novo lá, para tentar trazer mais um diferencial ao meu currículo.

O mais curioso de tudo: na minha seleção para a Oceanair, havia muitos caras que voavam jato – que voavam pistão tinham só três: eu e mais dois. Era nítida a diferença de interesse de querer entrar lá, entre nós três e eles. Alguns desdenhavam do F100, outros do salário inicial de piloto aluno, outros queriam, na verdade, voar Airbus na concorrente. Quando fiz minha seleção, sabia tudo sobre a empresa: pesquisei tudo na internet, me preparei para seleção, igual me preparara para seleções como engenheiro, sabia as rotas, a história da empresa, etc .

Curiosamente, os três que voavam pistão e queriam muitos estar ali, passaram. E os caras que voavam jato, e estavam ali para o “se der, deu; se não der, tudo bem, afinal a Oceanair era pequena mesmo”, todos ficaram pelo caminho. De tudo isso, tiro duas lições: 1)faça a sua parte, mas faça bem feito; e 2)corra muito atrás, e deixe que o resto a vida se encarrega. Faça as portas se abrirem para você, mas você tem que fazer. (Eu, como acredito em Deus, digo “faça sua parte, e deixe Ele fazer a dele: se você não fizer a sua, não tem como Ele te ajudar).

Abraços e boa sorte a todos!

P.S.: Só complementando o texto enorme, aos que não se mexeram ainda. Se as promessas de estímulo à aviação regional se concretizarem, é possível que haja uma nova demanda grande por pilotos. Saibam identificar isso e correr atrás! Eu me lembro bem do dia em que percebi essa futura necessidade, em 2008, e comecei a me mexer. Façam o mesmo agora, pois se isso acontecer, quem quiser ser selecionado tem que estar pronto, senão a onda passa, e aí vai saber quando virá a próxima?

10 comments

  1. Marcelo Pinheiro
    3 anos ago

    Na minha opinião os dois textos são ótimos e descrevem estratégias distintas porém validas para entrar no mercado de aviação. Gostaria de acrescentar um outro ponto que é a questão da idade pois tenho de certa forma vivenciado isso. Após desenvolver minha carreira profissional como auditor no mercado financeiro decidi me tornar piloto de avião, hoje tenho PC/MLTE/IFR, INVA, ICAO 5 e Jet training, além de outros cursos sobre segurança de vôo, porém tenho 38 anos de idade e tenho percebido que a maior parte das empresas aéreas contrata copilo tos sem experiência em linha com no máximo 39/40 anos, a Emirates, no Seminário do Contato Radar, foi clara neste sentido por exemplo, a Gol e a TAM não declaram isso abertamente mas em off já tive a mesma informação. O que quero dizer é que além de todos os treinamentos a questão da idade é também preponderante para ingressar em uma Linha Aérea.

  2. Cesar
    3 anos ago

    Ótimo texto, inspiro aqueles que estão na luta, uma pergunta para o Fernando, qual foi a idade que conseguiu entrar na linha aérea na minha conta 30 ? Grato

  3. Enderson Rafael
    3 anos ago

    Olha, sem desmerecer tudo que o Medau sabe e viveu, porque todas as experiências são válidas, mas me identifiquei bem mais com o texto do Fernando. De certa forma, foi o que fiz: se não dava pra voar, eu ia me especializando, escrevendo meus artigos, gravando meus podcasts, estudando, mantendo a proficiência do IFR no FSX, fazendo cursos e tirando licenças que eu sabia serem valorizadas, não descuidando do inglês. Infelizmente, somar horas e horas não é viável pra quase ninguém hoje em dia. Não que eu não quisesse, mas as minhas opções, que vc sabe bem, Raul, eram outras. Agora começo a colher os frutos das minhas escolhas e do meu esforço. E sei que muita gente vai desdenhar, já aconteceu até. Vão dizer que foi “fácil”. Eu que sei… sugiro a qualquer que me diga que foi fácil que trilhe o meu caminho, duvido que o farão. Verdade que sou piloto há pouco tempo, tem gente que está nessa estrada de piloto há muito mais tempo e não chegou onde estou quase chegando. Mas de aviação, dessa eu tenho quase uma década nas costas. E de sonho, três décadas. Dá pra dizer que a minha será uma long short history. Grande abraço pra vc e pro Fernando, que merece tudo de melhor que conquistar.

  4. Magalhães
    3 anos ago

    Excelente depoimento !!! Nós podemos criar oportunidades, correr atrás e não ficar reclamando e esperando…

  5. Ótimo texto!!!
    Por curiosidade e para servir de modelo, o site com o CV do Fernando ainda está no ar? Alguém poderia postar o link?

  6. Pedro
    3 anos ago

    Muito legal a historia de vida e profissional do Fernando, eu que estou começando me ajuda muito em saber que nao e facil mais se me esforçar vou conseguir chegar ao meu objetivo.

  7. Anônimo
    3 anos ago

    Agora sim um texto condizente com a situação! O texto do Medau é desmotivador! (Inclusive já vi o mesmo desmotivando pessoas num curso que ele da em uma grande escola). Se a aviação está parada logo ninguém conseguirá entrar como Inva. Então cada um se vira como pode! Todos têm um sonho e um objetivo! Uns são mais espertos, outros mais devagar, mas todos têm um objetivo em comum! VOAR! Desculpem o meu desabafo! Não vou me identificar pois fiz a seleção na empresa do Cmte e talvez eu possa me prejudicar com este texto. Não desista de seus sonhos! Vá atrás, custe oq custar!

  8. Lucas Góis
    3 anos ago

    Contra fatos não há argumento. Excelente depoimento!

  9. Otaviano Jr
    3 anos ago

    Muito bom o texto!!!
    Curiosamente compartilhamos da mesma estratégia e formação de Engenheiro. Estou no momento angariando recursos para concluir o inva e fazer o Jet.. os demais eu já tenho.
    Já tem mais de um ano que comecei a ligar nos taxi aéreos disponíveis no site da ANAC. porém ainda não apareceu nada..
    Espero estar preparado para a próxima onda!.. se o dinheiro der!..

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