Curso teórico para PLAs: como tornar obrigatório um curso que nem existe na prática?

By: Author Raul MarinhoPosted on
525Views7

No post “Curso teórico para PPs: a obrigatoriedade faz sentido?“, falamos sobre a questão do ensino teórico para quem está começando na aviação, os PPs – que, é bom frisar, é voltado também a quem só quer ter a aviação como um hobby (muito embora a maioria queira se tornar piloto profissional mais à frente). Agora, vamos tratar do curso teórico para PLAs (tanto de avião quanto de helicóptero), voltado quase que exclusivamente aos pilotos profissionais já habilitados como PCs. Neste caso, eu acho correto o curso ser obrigatório (pelo mesmo motivo que o curso teórico de PCs deva continuar sendo – vamos explorar isso mais à frente), mas o problema, no caso de PLAs, é o inverso do de PPs: simplesmente não há quem ofereça tal curso! Essas e outras questões relacionadas à recente obrigatoriedade do curso para PLAs é o que trataremos a seguir.

Como funciona a parte teórica da habilitação de PLA atualmente

Hoje em dia, para se obter o CCT de PLA (que tem sua validade ‘considerada como’* indeterminada – ou seja: não vence nunca), basta fazer uma prova na ANAC com duas matérias: Regulamentos e Teoria de Voo + Peso & Balanceamento e ‘Performance’). Não há curso teórico de PLA disponível (na verdade, os bons cursos teóricos de PC incluem a matéria do PLA), e para fazer a prova basta estar aprovado na banca de PC: não precisa estar com a CHT de PC nem estar voando o curso prático de PC para poder fazer a banca de PLA.

*Na verdade, a questão nem é regulamentada hoje em dia, já que esqueceram de incluir a subparte das provas teóricas no RBAC-61. Então a validade da prova de PLA só é indeterminada por uma questão de “tradição”: não existe nada escrito no RBAC-61 neste sentido.

A banca de PLA é, de longe, a mais fácil de ser aprovado. Para começo de conversa, são só duas matérias, ao invés das cinco das bancas de PP e de PC (e sem os cálculos complicados de Navegação!). A prova de regulamentos é praticamente igual à do PC – fora o fetiche que a ANAC tem quanto às perguntas sobre velocidade máxima para entrada em espera (assunto de uma relevância ímpar na aviação, por sinal…). Metade da outra prova é de Teoria de Voo de alta velocidade, igual à prova do PC, e somente a outra metade é realmente nova. Mas tanto Peso & Balanceamento quanto ‘Performance’ não são, nem de longe, conhecimentos sofisticados, pelo contrário: tratam-se de conceitos simples, e o máximo que se tem em termos de cálculo é a média ponderada para P&B (matemática do Ensino Fundamental). Daí eu pergunto: precisa de curso para ensinar isso???

Bem, a ANAC acha que precisa. Então vejamos como é o curso que ela acha que deve ser obrigatório.

O curso de PLA: como (não) é

Fora os malucos aficcionados em regulamentos da ANAC como eu, quase ninguém sabe disso, mas existe um “Manual de curso de piloto de linha aérea – avião (PLA-A)” e um “Manual de curso de piloto de linha aérea – helicóptero (PLA-H)” – respectivamente, o MMA 58-7 e o MMA 58-8 (MMA é Manual do Ministério da Aeronáutica, o que já entrega a idade – há quanto tempo os ministérios militares foram extintos?). Ambos acabaram de completar 23 anos de existência (foram publicados em 25/07/1991), e permanecem em vigor até hoje – pelo menos, em tese. Para quem tiver curiosidade de conhecê-los, eles estão listados aqui. Não vou torturar o leitor, obrigando-o a ler longos trechos do documento, mas não deixa de ser curioso (ou irônico) que, dentre os “objetivos gerais do curso [de PLA]”, esteja o de “capacitar o piloto a responder às exigências da evolução tec­nológica, no comando de aeronaves de última geração, propor­cionando-lhe revisão, atualização e ampliação de conhecimentos técnicos e científicos” (item 1.4-b).

Então, ficamos assim: como se quer manter o piloto de linha aérea atualizado tecnologicamente, o negócio é ter um manual de curso da época pré-internet/GPS/celular… Que coisa fabulosa! O manual é tão detalhado, que recomenda que se tenha em sala de aula um videocassete para reproduzir diversas fitas VHS sobre os temas a serem abordados no curso. E é este o manual que uma escola disposta a oferecer o curso de PLA deveria seguir!

Mas fora as questões de atualização tecnológicas acima, o manual até que é bem pensado para a época. Ele poderia até servir de base para um bom manual de curso de PLA atualmente, na verdade! Ocorre que isso não aconteceu, não sei quando vai acontecer, porém o tique-taque da bomba relógio está soando, e em 21/09/2015, o curso de PLA será (será?) obrigatório.

Mas que curso!!!???

O curso de PLA: como deveria ser

Em primeiro lugar: no caso de PLAs, o curso teórico deve ser obrigatório?

Em minha opinião, sem dúvida que sim! Porque, diferente do curso de PP, os cursos de PC e de PLA são profissionalizantes, e não basta uma prova para certificar um profissional como apto para exercer uma profissão – mesmo porque, não são somente as provas que deveriam avaliar um profissional: há uma série de outras maneiras de fazer isso, como trabalhos práticos, participação em atividades externas ou treinamentos específicos, seminários, etc. Além disso, há muito mais do que giz e saliva como ferramentas de ensino: há laboratórios, simuladores, visitas a oficinas, torres de controle, fábricas de aviões ou de componentes… Enfim: se for para levar um curso de PLA a sério, ele deveria ser obrigatório, sim! (É claro que se for para ele  ser pro forma, aí não faz sentido ser obrigatório mesmo, mas nem estou contando com essa possibilidade aqui, já que estamos falando de como ele deveria ser).

E também é claro que um curso de PLA deveria ter muito mais “novidades” (que nem novidades são, pois já fazem parte do programa de PC, embora raramente ensinadas) do que somente Peso & Balanceamento e ‘Performance’. A bem da verdade, Peso & Balanceamento deveria ser matéria cobrada no PP, e ‘Performance’ é um conhecimento que qualquer copila de aeronave TIPO tem que ter (logo, PC). Então, esses assuntos nem deveriam estar no curso de PLA, em minha opinião, pois já seriam standard de qualquer Piloto Comercial num mundo ideal. Mas, e quanto a CRM e/ou LOFT? Não há, nem no PC nem no PLA, qualquer menção a técnicas de pilotagem em tripulação composta por comandante+copiloto. E o CBA, ou os regulamentos da ANAC como os RBACs 91, 135 e 121? Também são conhecimentos imprescindíveis para um piloto profissional que não constam do programa de nenhum curso. E as novas tecnologias? E analisar acidentes, também não seria interessante? Enfim, não vou reinventar a roda aqui porque eu sei que gente muito mais competente do que eu já pensou no assunto – vide o post “[R/RBAC-61] A origem das alterações propostas ao RBAC-61“, que mostra uma apresentação sobre um novo paradigma nos cursos teóricos, realizada pelo Prof. Elones Ribeiro (FACA/PUC-RS) à ANAC -, mas o fato é que este é um assunto que já deveria estar resolvido ANTES de que as regras tornando o curso de PLA obrigatório fossem publicadas. Ou estou falando bobagem?

Concluindo

Assim como na questão das habilitações de TIPO, também quanto aos cursos teóricos de PLA, a ANAC colocou a carroça na frente dos bois: criou-se a demanda sem que haja oferta para supri-la. Mas, se no caso das hab.TIPOs, a questão é muito mais econômica (o quanto o uso de CTACs encarecerá a obtenção/revalidação das habilitações), no caso do curso teórico para PLAs, o problema é de falta de regulamentação mesmo. Simplesmente não há regras que possibilitem, na prática, que uma escola ofereça tal produto. A não ser que algum maluco monte um curso baseado numa regulamentação de 1991 – e, dentre outras coisas, compre um videocassete para passar audiovisuais que nem existem mais! -, não há como oferecer este curso no mercado hoje!

Então, o que veremos é que, às vésperas da entrada em vigor dessa obrigatoriedade, os pilotos que precisarem do CCT de PLA começarão a ficar aflitos. Até que, em cima da hora, aparecerá uma prorrogação ou algum outro remendo improvisado para que os pilotos possam respirar aliviados por mais algum tempo, e tudo voltará à calma. E assim vamos indo, de improvisação em improvisação, até que a aviação se inviabilize de vez!

7 comments

  1. Ciro Laudissi
    3 anos ago

    Boa tarde Cmte, se puder tirar uma dúvida: no momento é necessário realizar curso teórico para a banca de PLA? Pois no compêndio de instruções para candidatos está escrito que a partir de 22/06/2014 é necessário ter concluído o curso. Ja no RBAC diz que é a partir do final de 2015 (não me lembro o mês correto). Muito grato!!

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Negativo.

  2. Chumbrega
    3 anos ago

    Raul (e demais colegas), alguém já sabe de alguma escola oferecendo o cheque de PLA pra quem já tem as 250 PIC?

  3. Wagner
    3 anos ago

    Como que ficara após 21/09/2015 a CCT de PLA-A tanto como PLA-H, ela terá prazo de validade ou ficara na mesma com seu prazo de validade indeterminado?

    Aguardo contato.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Até o momento, nada muda – nem agora, nem em set/2015. Só qdo a ANAc publicar a tal da subparte S, regulamentando as provas teóricas, é que alguma coisa vai mudar qto a isso.

  4. Enderson Rafael
    3 anos ago

    Estou curioso pra ver o que o curso da FAA de ATP, que começará em breve, vai ensinar. Afinal, se lá PP já precisa saber performance e p&b, vamos conferir. E quase posso apostar que ele terá a duração de umas 10 ou 20h/aula. E aqui? Any guess?

Deixe uma resposta