“Comandante na íntegra da palavra”, de Marcelo Quaranta – O livro

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Acho que 100% da pilotosfera já leu o artigo “Comandante na íntegra da palavra”, do Marcelo Quaranta. O que poucos sabem, entretanto, é que este também será o título do livro do mesmo autor que será lançado em breve pela Editora Bianch. A seguir, vocês podem conferir a capa que ele terá e, depois, o texto do meu prefácio (há um outro prefácio no livro, de autoria do Ruy Flemming), que explica o que é e qual a importância desta obra. E é claro que eu informarei aqui quando e onde o livro será lançado.

Pessoal, vocês não perdem por esperar… O livro é sensacional!

cmte quaranta

Quando li os originais de “Comandante na íntegra da palavra”, demorei muito tempo até compreender do que se tratava. É um livro sobre aviação? Até é, mas nada impede que um médico, uma professora de balé, ou um sapateiro o possam ler e compreender 100% de seu conteúdo – além, é claro, de gostar! Porque este livro trata de dramas humanos, principalmente. No caso, ambientados no contexto da aviação, mas isso é o de menos.

Além dos citados dramas, em especial no maravilhoso capítulo “Fogo selvagem” (o meu preferido), o livro também traz ensinamentos espetaculares sobre segurança de voo (tomada de decisões, CRM, etc.), empregabilidade (em especial sobre o “Q.I.”, o popular “Quem Indica”, essencial para que pilotos consigam uma colocação no mercado de trabalho), e é claro, sobre ética na aviação, dentre outros temas. Mas o mais legal é que tudo isso aparece misturado, sem didatismos irritantes, referências teóricas, ou chatices do gênero. Pelo contrário: este é um livro para ser lido muito mais com o coração do que com o cérebro.

Na verdade, este é um livro para se emocionar. Você ri, chora, fica zangado, torce pelos personagens… E quando você menos espera, está ali um ensinamento, como em “A última pescaria”, em que o protagonista, um piloto chamado Índio, decide decolar mesmo com um motor de seu avião apresentando superaquecimento. Escrever que não se deve voar sem que a aeronave esteja em perfeitas condições de segurança é fácil, mas pouco efetivo: é como dizer que você deve escovar os dentes após as refeições, ou que se deva evitar comer gordura trans. Ok, mas e se eu não escovar meus dentes só desta vez? E se eu for só hoje ao McDonald’s? A gente está acostumado com as pequenas transgressões às regras sem que estas tenham consequências mais graves – ou, pelo menos, mais imediatas. Mas na aviação é diferente, e você só entende isso quando se entra na pele de um cara como o Índio, ou quando a coisa se passa com você mesmo.

Falo isso porque aconteceu comigo. Quando voava num aeroclube do interior, havia um avião que queimava quase um litro de óleo por hora. Estava óbvio que havia algum problema, e que em algum momento alguém iria se dar muito mal com aquela aeronave. Mas apesar de todo mundo ali saber que aquilo era errado (inclusive eu), ninguém deixava de voar naquela aeronave por causa daquele “probleminha” – mais ou menos como as pessoas não veem um grande mal em comer um torresminho “só desta vez”, afinal “não será este torresmo que vai me provocar um enfarto”, não é mesmo? Porém, um dia, o motor não aguentou, e eu tive uma pane na decolagem com aquela aeronave, pouco antes de atingir mil pés de altura. Por sorte, havia um vento favorável que me ajudou a retornar para o aeroporto e pousar em segurança, mas poderia não haver (e um pouso forçado ali seria terrível, pois era uma área urbana densamente ocupada). Por ter vivido a situação, a lição de nunca voar sem que a aeronave esteja 100% OK entrou no meu DNA. Mas não dá para aprender sobre segurança de voo com os próprios erros, não é verdade? Daí que, se você viver na pele do Índio a situação em que ele decidiu decolar mesmo com o motor superaquecendo, o efeito será muito semelhante a passar pelo que eu passei no relato acima, com a óbvia vantagem de que, daquela maneira, o ensinamento irá para o seu DNA sem que se corram riscos. Esta é a grande vantagem deste livro: como ele mexe com as emoções, o aprendizado ocorre num nível muito mais profundo da mente, diferente do que acontece com lições explicadas racionalmente.

O Marcelo é um excelente contador de causos, narrando de uma maneira que você se sente vivendo a situação. O leitor sabe exatamente como é o Índio ou o seu copiloto recém-formado, o Eduardo. Dá para descrever as pessoas, o avião, o hangar, tudo em detalhes: você tem a impressão de ter estado lá, de ter visto aquilo tudo acontecer, dá até para sentir o cheiro de óleo queimado. Mas há capítulos em que não há causos – um exemplo é o que empresta seu nome ao título da obra: “Comandante na íntegra da palavra”. Nestes, entretanto, a narrativa também é bastante pessoal, e você tem a impressão de que está conversando com um companheiro de viagem, não aprendendo uma lição com um mestre (apesar de o autor o ser). O resultado é que, também nestes casos, o aprendizado acontece de maneira muito eficiente, porque prazerosa.

Nos últimos anos, estamos vivenciando uma transformação muito grande no cenário das instituições de formação aeronáutica do Brasil. Os aeroclubes estão perdendo cada vez mais espaço para as escolas empresariais de aviação, e os que restam são cada vez menos clubes de aviadores e mais escolas com composição societária não empresarial. Com isso, está ficando cada vez mais difícil transmitir os valores tradicionais da aviação para as novas gerações de aviadores. Ensinar Aerodinâmica, Regulamentos de Tráfego Aéreo, ou treinar uma glissada são tarefas possíveis neste novo cenário, mas e ética ou cultura aeronáutica? Isto não está previsto nos manuais de instrução das escolas de aviação de hoje – na verdade, nunca estiveram, mas antigamente havia a presença de aviadores mais antigos nos aeroclubes, que transmitiam esses ensinamentos no ambiente de instrução. Daí a importância cada vez maior de uma obra como esta, em minha opinião imprescindível para uma boa formação de aviador. Ou, então, contente-se em ser simplesmente um piloto.

6 comments

  1. Wagner
    3 anos ago

    Grande Comandante! Realmente é o “O Comandante na Integra da Palavra”. Tive o prazer de conhece-lo e também de ouvir uma breve palestra dele, o que me motivou muito.

  2. Rodrigo
    3 anos ago

    Já estou ansioso esperando o lançamento. Após ler um pouco do que vou encontrar nele, a ansiedade foi lá em cima!!

  3. Denis Rodrigues da Silva
    3 anos ago

    Tive a grande satisfação de conhecer pessoalmente o Marcelo Quaranta à 03 semanas atras voando no interior de Goias e ver de perto a missão que lhe é desempenhada para o voo de aerolevantamento geofísico. Parabéns pela edição do livro! No aguardo (2)

  4. Márcio Lira
    3 anos ago

    No aguardo!!

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