E o Estadão ainda insiste em informar incorretamente o leitor sobre as investigações do PR-AFA

By: Author Raul MarinhoPosted on
1084Views4

Na 6ª feira, o Estadão publicou uma reportagem “vazando” o que seria o resultado da investigação do CENIPA sobre o acidente com o avião em que estava o então candidato à presidência Eduardo Campos, o Cessna Citation 560XLS+ de matrícula PR-AFA. No mesmo dia, eu publiquei um post informado que, de acordo com o CENIPA, as informações publicadas pelo jornal estavam incorretas e, a partir da noite de 6ª feira, pelo menos 2 telejornais (o “Jornal da Cultura – 2ª edição”, da TV Cultura, e o “Jornal das 10”, da GloboNews) já falavam do assunto no futuro do pretérito: “o piloto teria feito tal coisa”, “a investigação teria chegado à conclusão de que…”, etc.

Pois muito bem. Esperar-se-ia, então, que o Estadão se retratasse na edição de sábado, pelo menos corrigindo as informações flagrantemente incorretas – como a de que o piloto não teria relizado treinamento em simulador – e adotando uma postura mais cautelosa. Mas qual o quê! Na sua edição do dia posterior, o jornal não só manteve seus erros, como os reforçou, conforme veremos a seguir. Nos trechos em vermelho, seguem minhas críticas ao texto da reportagem publicada sábado, obtida do Aeroclipping do SNA.

O Estado de S.Paulo
Sábado, 17 de janeiro de 2015

Famílias de vítimas e PSB questionam hipótese de falha humana em acidente
Após 5 meses.

Parentes dos pilotos do jato usado na campanha de Eduardo Campos e partido do então candidato querem mais explicações para conclusão de que comandante teve ‘desorientação espacial’ e para o fato de a caixa-preta não ter feito gravações
Daiene Cardoso
Isadora Peron / BRASÍLIA

Familiares de vítimas e representantes do PSB questionaram ontem o resultado da investigação da Aeronáutica que apontou a sucessão de falhas humanas como causa do acidente aéreo que matou o então candidato ao Palácio do Planalto e presidente da legenda, Eduardo Campos, e outras seis pessoas em 13 de agosto de 2014, durante a campanha eleitoral daquele ano.

Que “resultado da investigação da Aeronáutica”? Cadê o relatório? O que existe é uma reportagem em que o jornal alega ter esse resultado, nada mais que isso…

Conforme revelou o Estado ontem, a apuração do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que o piloto Marcos Martins não tinha treinamento para a aeronave Cessna 560XL, que ele falhou no uso do “atalho” para acelerar o procedimento de descida e que sofreu “desorientação espacial”, inclinando o jatinho em direção ao solo quando acreditava estar voando para cima. As investigações não apontaram indícios de falhas técnicas ou de operação do sistema aeronáutico.

Novamente, essa “apuração” que o jornal cita não é confirmada pelo CENIPA. E o piloto tinha, sim, o treinamento para comandar a aeronave. Mais uma coisa: vamos colocar o nome correto do avião? Tem um “+” a mais: trata-se do C560 XLS+. “Ah, é preciosismo!” Não é não: o modelo com o “+” é diferente do sem o “+”, e exige treinamento diverso.

Surpresos com a conclusão da Aeronáutica, líderes do PSB cobraram explicações para o desligamento da caixa-preta de voz e querem saber a razão pela qual o piloto sofreu a “desorientação espacial” sem que os aparelhos do moderno Cessna Citation ou o copiloto Geraldo Magela Barbosa percebessem que o jatinho estava em movimento de descida, e não de subida. “Era preciso que os dois (piloto e copiloto) entrassem em desorientação. Mas até onde sei, os aparelhos não desorientam”, afirmou o vice-governador de São Paulo, Márcio França (PSB).

Pois é, surpreso até o CENIPA ficou. E, de fato, os questionamentos fazem sentido – coisa que a reportagem não respondeu. Será que é porque ela não teve, de fato, acesso ao tal relatório?

Os dirigentes duvidam que um piloto com a experiência de Martins – e que havia sido elogiado por Campos – cometeria os erros apontados pela Aeronáutica.“Pode até ser, mas falha humana é uma conclusão simplista”, disse França. Procurada, a candidata derrotada à Presidência Marina Silva alegou não ter conhecimentos técnicos para se pronunciar.

Simplista mesmo! Dizer que o acidente teve “falha humana” significa, basicamente, dizer que não houve falha mecânica. O que, convenhamos, não explica nada…

O PSB contratou um técnico em acidentes aeronáuticos para acompanhar as investigações e avaliar o resultado da apuração oficial. O partido vai pedir acesso aos relatórios do Cenipa – que serão divulgados a partir de fevereiro –, mas aguardará a conclusão do inquérito para se posicionar oficialmente.

“Como morto não fala, tudo o que se imputar a quem morreu pode resolver para alguém, mas para nós não resolve”, disse o líder do PSB na Câmara dos Deputados e vice na chapa de Marina Silva, Beto Albuquerque. O deputado enfatizou que voou algumas vezes na aeronave e nunca soube de atritos ou indisposição entre piloto e copiloto, como apontou o relatório da Aeronáutica.

Antônio Campos, irmão de Eduardo Campos, considerou que a investigação da Aeronáutica é “prematura”, uma vez que os laudos existentes são inconclusivos e o inquérito não foi encerrado. “Os laudos da Aeronáutica e do Cenipa tratam de possibilidades quanto a causa de acidentes e não são conclusivos”, afirmou Antônio Campos por meio de nota divulgada no Recife. “O Cenipa não está fazendo todas as perícias do caso e não pode ter uma visão global do acidente.”

Ele informou que os inquéritos policial e civil ainda dependem do resultado de algumas perícias para serem concluídos. A expectativa é que a conclusão oficial seja anunciada em fevereiro, conforme promessa do procurador da República responsável pelo caso, Thiago Nobre.

Coitado do CENIPA… Ele não está sendo prematuro nem deixando de fazer nenhuma perícia. É a reportagem que está revelando algo que ainda não se tem certeza sobre.

Uma pessoa próxima à família de Campos disse que eles não desconsideram que tenha havido falha humana, mas acreditam tratar se de um tema delicado, porque uma queda de avião sempre acontece por uma série de motivos.

Bingo!

Relatórios. O primeiro relatório do Cenipa terá recomendações de segurança para que os mesmos erros não se repitam e causem novos acidentes. Depois, será divulgado um relatório detalhado com todos os dados do voo e as conclusões sobre as causas da queda. “A investigação não trabalha com prazos durante sua realização. O processo segue a seu tempo para o benefício da prevenção e é proporcional à complexidade do acidente”, informou ontem a Força Aérea Brasileira (FAB) em nota. Oficialmente, as investigações “ainda não foram concluídas”.

“Oficialmente”, não: as investigações não foram concluídas. Ponto.

Conforme apurado pelos investigadores, Martins não estava treinado para o Cessna 560 XL, uma aeronave sofisticada e nova, concluída em 2010. Ele nunca tinha passado pelo simulador.

Essa é a pior parte! Como assim, “não estava treinado”? Temos que concluir, então, que a ANAC foi inconsequente ao habilitar o piloto na aeronave? E, conforme já comprovado, o piloto relizou treinamento em simulador, sim. Quanto a isso não há a menor dúvida!

O jato caiu em Santos, no litoral paulista, por volta de 10h, Além de Campos, que estava em terceiro lugar na corrida presidencial, e dos pilotos, morreram quatro assessores do candidato.

Durante a campanha, surgiram dúvidas sobre a propriedade do jatinho e suspeitas de que a aeronave teria sido paga com recursos de caixa 2. Oficialmente, três empresários pernambucanos, com ligações diretas e indiretas com o ex-governador, se apresentaram como compradores do jato Cessna Citation.

Pois é, essas são as questões que o repórter deveria ter isso atrás, e não foi. A propriedade do avião, ou ele estar realizando ou não uma operação de TACA (táxi pirata) é o que o jornalista poderia checar, e deixar as questões técnicas de investigação de acidentes para… Os técnicos!

4 comments

  1. Fred Mesquita
    4 anos ago

    O melhor da escrita em vermelho foi: Bingo!… Adorei !

    O que esses meios de comunicações medíocres querem é prever o futuro, publicando algo sem a mínima responsabilidade nos fatos. Se no RF aparecer falando algo já dito nessas reportagens, eles vão falar que a própria matéria publicada já sabia de tudo, antes mesmo do laudo ser publicado no CENIPA.

    Pelo menos descobrimos que em alguns meios jornalísticos já se usa uma Bola de Cristal.

  2. Amgarten
    4 anos ago

    Pois é, alguém “vazou” isso para o repórter que por sua vez caiu como um patinho. Mas no caso dele como carreira, deu certo, afinal causou repercussão. Porém quando analisado sob aspecto de profissionalismo, escorregou feio. Voltar atrás e admitir que erraram? Não farão isso, deixarão como está. Se no relatório oficial final for concluído pela falha humana, vão dizer “…conforme apontou em primeira mão a reportagem do Estadao…” Caso haja outro fator causador do acidente, aí todo mundo terá esquecido e fica tudo bem.

    • raulmarinho
      4 anos ago

      E que haverá menção á falha humana no RF, isso é óbvio. Mas não quer dizer absolutamente nada, por si só…

Deixe uma resposta