Do festival de besteiras que a imprensa está publicando sobre o acidente com o PR-AFA

By: Author Raul MarinhoPosted on
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É impressionante o despreparo da maioria dos órgãos de imprensa para noticiar as informações preliminares que o CENIPA divulgou hoje acerca das investigações do acidente do PR-AFA, que vitimou o então candidato á presidência Eduardo Campos, em agosto de 2014. Do que eu vi até agora, porém, uma reportagem praticamente sintetiza todos os demais equívocos: a matéria “Piloto e copiloto não tinham habilitação para tipo de avião de Campos“, do Valor Econômico – a começar pelo título.

Não existe isso de “piloto e copiloto”: ambos são pilotos – só que um exercia a função de comandante do voo, e o outro, de copiloto. E quanto a eles “não terem a habilitação para pilotar a aeronave”, a ANAC já esclareceu esse equívoco nesta nota. Desta forma, a informação de que “o tenente-coronel aviador Raul De Souza, responsável por investigar o acidente que matou o ex-presidenciável Eduardo Campos (PSB), afirmou nesta segunda-feira, ao divulgar um relatório parcial, que o piloto e copiloto do avião não tinham a habilitação requisitada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para pilotar aquele tipo de aeronave” é falsa – ou porque o meu xará não disse isso (o mais provável); ou porque, se disse, estava equivocado.

Mas o principal, o repórter nem se atreveu a tocar. Quais eram as diferenças entre o C560XLS e o C560XLS+? Elas poderiam realmente ter alguma coisa a ver com o acidente? O piloto treinado no XLS teria dificuldades para arremeter o XLS+? É essa linha de investigação que realmente faz sentido.

Ah, e por favor, é “treinamento de diferença”, e não “treinamento de referência”.

9 comments

  1. Então…
    Eu acompanhei a parte final da apresentação que o CENIPA fez, mas peguei a coletiva integralmente.
    Foi um “show de horrores”. Digo isso porque já trabalhei em uma emissora de Tv local e estudei meio curso de jornalismo para entender que a imprensa quer porque quer que qualquer um bata na mesa e fale algo concreto, mas o tipo de coisa que renda uma boa matéria.

    O tenente-coronel Raul em nenhum momento afirmou nada sobre se os pilotos tinham feito ou não o treinamento de diferença. O que todos os três responsáveis pela apresentação deixaram muito claro – ainda mais porque setenta por cento das perguntas foram sobre a habilitação do piloto e copiloto – é que eles enviaram um pedido para que a ANAC observasse o que é pedido pelo FAA. Que como, desde 2009, era uma exigência nos Estados Unidos – país de origem do avião – que esse treinamento fosse feito, nosso órgão regulador deveria abrir o olho para essa situação já que PODERIA, TALVEZ, QUEM SABE, ter sido um dos fatores responsáveis pela queda do avião, já que o fator material, até agora, não se mostrou responsável pelo acidente.
    O Brigadeiro (desculpe -me, mas esqueci o nome do sujeito) chegou a interromper por uns cinco minutos a coletiva, que já estava quase na metade talvez, para explicar de uma vez por todas que não cabia ao CENIPA afirmar que os pilotos estavam habilitados ou não, que a exigência do treinamento passou a vigorar aqui em julho e que, óbvio, existe um tempo de transição para que a tripulação se adequasse. De qualquer forma o que foi passado é que o CENIPA simplesmente alertou a ANAC sobre a situação e que quem quisesse saber sobre a habilitação que fosse perguntar a ela. Mas em meio a algumas outras perguntas a questão da habilitação voltava à tona. Teve até um senhor que perguntou ao tenente-coronel Raul de ele entraria em um voo no qual ele visse que a tripulação não tinha a habilitação necessária para pilotar aquela aeronave. Eis que a resposta foi simples: Se a ANAC entende que a habilitação necessária era aquela que eles apresentavam, então, sim.

    A coletiva foi marcada por uma questão que os investigadores não sabiam se era determinante e que nem competia a eles dizer se a tripulação estava dentro da regulamentação ou não. Que essa informação viria posteriormente com a verificação de todos os documentos da tripulação e que seria responsabilidade da ANAC. Mas a imprensa não aceita ir a qualquer lugar sem sair com algo concreto. Então a estratégia adotada tal qual a de um investigador que quer que o suspeito solte qualquer informação que o incrimine. No caso, que o CENIPA afirme algo para que os meios de comunicação deem a notícia e que qualquer equívoco eles simplesmente falem que foi fulano ou ciclano quem disse. Teve até gente tentando comparar habilitação de carro e moto para tentar entender a situação. Não me surpreenderia se em algum lugar tenha surgido uma explicação como essa.
    Sou um mero amante da aviação, não sei muito sobre detalhes técnicos, etc, mas até eu com meus dois neurônios consegui entender que o que o CENIPA fez foi apresentar novos dados que eles estavam trabalhando na investigação e que de concreto só tem que eles não podem dizer ainda o que levou o avião ao acidente. Poucas foram as perguntas interessantes e que se notou uma tentativa de melhor compreensão da apresentação dos dados.

    Desculpe-me se em algum momento falei algum termo não usual ou se me confundi em alguma terminologia, mas quis apenas acrescentar a opinião de quem já presenciou essa técnica de, na minha opinião, jornalismo porco no dia a dia de trabalho e que fica decepcionado em como tal assunto possa ser noticiado de maneira tão ridícula. Ainda falei com a minha esposa: – “Dez contos, casados no chão, que algum veículo vai falar que piloto e copiloto não tinham a habilitação necessária!” Não deu outra.

    • Drausio
      3 anos ago

      João Pedro, parabéns pelo discernimento, bom senso e profissionalismo. Seu texto demonstra que você compreendeu perfeitamente a situação, tanto com relação à habilitação dos tripulantes quanto com relação à má fé dos jornalistas nesta entrevista.
      Sobre estes maus hábitos da imprensa, penso que ela própria se prejudica e perde muita credibilidade com isso. Conheço muita gente de bom caráter e competência técnica que simplesmente não fala com a imprensa. Pode até parecer arrogância, mas fica claro que quem adota esse cuidado está evitando ter o seu nome e a autoridade a ele associada endossando besteiras e non senses que algum jornalista afoito e irresponsável queira publicar só para tentar ganhar 30 segundos de fama.
      Há que se reconhecer, contudo, que existem (poucos) jornalistas competentes e responsáveis. Exemplo disso pode ser visto nesta reportagem do Jornal da Globo: http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-da-globo/t/edicoes/v/aeronautica-apresenta-relatorio-sobre-acidente-que-matou-eduardo-campos/3920699/

      • Luciano Cavalcante
        3 anos ago

        Pegando um gancho com meu amigo Drausio, concordo com voce sobre a escassez de bons jornalistas quando o tema envolve assuntos aeronauticos no Brasil. Mas tenho que tirar o chapeu quando colocam o Willian Waack para fazer os comentarios. Direto, objetivo, rico em detalhes que enriquece o assunto e claro, com um toque de quem entende do assunto por se tratar de um piloto que sabe o que esta falando e deve se imaginar no lugar dos pilotos naquele momento fatidico e de como deve ter sido os minutos finais e quais acoes foram tomadas por eles…

        • raulmarinho
          3 anos ago

          WW é a exceção que só confirma a regra.

  2. Gastão Coimbra
    3 anos ago

    Há 5 anos sou instrutor de Ground School da Linha Cessna e Beechcraft, pelo menos era, até setembro do ano passado, formei a segunda tripulação do avião em questão, que esta viva, e voava o avião de outro modelo com a candidata Marina, o ponto é, que a carteira é uma só para todos os aviões denominados 560, oque sempre considerei um absurdo no caso do XSL plus, porque o cockpit é totalmente diferente, o avião é externamente igual, mas o que conta para o piloto para adaptação é o cockpit, o mesmo acontece com o CJ 4, avião a que fui o único a ministrar Ground School no Brasil, quem voa CJ, pode voar qualquer CJ, outro absurdo, principalmente no caso do CJ 4, cockpit totalmente diferente e sistemas também, infelizmente é ruim para o piloto e para as empresas, mas cada um desses modelos tem que ter o curso e a carteira específicos para eles, porque uma pequena confusão no cockpit pode levar a uma situação crítica ou mesmo um acidente.

    • Exatamente por isso que o CENIPA tinha avisado a ANAC sobre o cuidado que deveria ter na regulamentação e na habilitação das tripulações que estão voando o XLS+. Mas os jornalistas queriam mesmo é que o CENIPA afirmasse com todas as letras que ESSE foi o fator determinante do acidente. E o CENIPA não vai dar esse mole assim. Mas claro que mostraram como é muito diferente a parte de aviônicos, mostrando até uma foto comparativa do XLS com o XLS+.

  3. elton
    3 anos ago

    acabou de falar na globo e na record que os pilotos nao tinham feito o treinamento em simulador pra pilotar o xls+. foi um cara da aeronautica.

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