Considerações sobre as ‘selfies’ de pilotos em voo

By: Author Raul MarinhoPosted on
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2014/15 será lembrado no futuro como “a era dos ‘selfies’ – e, certamente, seremos ridicularizados pelos nossos filhos por termos, um dia, comprado um “pau de ‘selfie'”. Mas, enquanto estivermos imersos nela, essa mania de tirar fotos de nós mesmos para postar nas redes sociais parece banal e inofensiva, até bacana. Eu, pessoalmente, não gosto, e nem tenho equipamento para tal (meu celular não tem câmera frontal), mas isso não faz do ‘selfie’ algo perigoso, em princípio. O problema é que, na medida em que tirar ‘selfies’ se torna corriqueiro, parece “normal” fazer isso em qualquer situação. Esses dias, vi um rapaz tirando ‘selfies’ enquanto pedalava numa ciclovia (v0cês conhecem a largura de uma ciclovia paulistana?). No Facebook, volta e meia aparece gente tirando ‘selfies’ dirigindo carros ou pilotando motos. E, como não poderia deixar de ser, os ‘selfies’ chegaram à aviação: estou me referindo aos pilotos tirando ‘selfies’ enquanto pilotam aeronaves.

Algum tempo atrás, publiquei um post com uma enquete que perguntava: “os instrutores devem permitir que os alunos usem filmadoras do tipo ‘GoPro’ nos voos solo?”. Dos 377 leitores que responderam, 271 (mais de 70%) disseram que sim – “Eu acho que tudo bem, não há problemas em utilizá-las” -, e uma minoria de menos de 1/3 disse que não – “Eu acho que é uma fonte de distração a ser evitada, e deveriam ser proibidas”. (Em pesquisa semelhante realizada pelo BoldMethod nos EUA, esse número superou 80%). Ok, eu sei que filmar um voo com uma GoPro não é a mesma coisa que tirar ‘selfies’ com celular, mas ambos são atos de auto-exposição que, em minha opinião, deveriam ser evitados. Mas falaremos mais disso à frente; antes, quero entrar num ‘trending topic’ do momento.

Ontem, veio a público a informação de que um acidente ocorrido em 31 de maio do ano passado nos EUA, com um Cessna-150 em que duas pessoas morreram, teve como fator contribuinte justamente o fato de o piloto estar tirando ‘selfies’ durante o voo – pelo menos é o que a imprensa está dizendo, como nesta matéria do USA Today: “NTSB: Selfies caused fatal Colo. plane crash“. O relatório da NTSB não é tão categórico assim quanto às ‘selfies’, mas conclui que:

The pilot’s loss of control and subsequent aerodynamic stall due to spatial disorientation in night instrument meteorological conditions. Contributing to the accident was the pilot’s distraction due to his cell phone use while maneuvering at low-altitude.

Na  verdade, havia uma GoPro a bordo, com ‘selfies’ de outros voos, e evidências de uso de celular no dia do acidente – vide este trecho da matéria do USA Today:

“During the climb-out portion of flight, the pilot uses his cellphone to take a self photograph. The camera’s flash was activated and illuminated the cockpit area,” NTSB investigators reported. “During the climb-out phase, the pilot was seen making keyboard entries to his cell phone and additional keyboard entries on a portion of flight consistent with the downwind leg.”

Singh landed safely after that flight, picked up another passenger, and took off again, crashing a few minutes later.

NTSB investigators said the evidence suggests that Singh got distracted, then disoriented, stalled the plane, and crashed. Singh also lacked certification for flying at night with instruments and for carrying passengers at night.

Embora não haja um nexo de causalidade tão forte entre as ‘selfies’ e o acidente, como a imprensa está a dizer – tirou as ‘selfies’ e, por causa disto, o acidente aconteceu -, parece-me evidente que o comportamento do piloto, que voava tirando ‘selfies’, gravando vídeos, e usando seu celular de variadas maneiras o tempo todo, de fato contribuiu para o acidente. E é aí que eu queria chegar: faz sentido um piloto tirar ‘selfies’ e/ou filmar o voo com uma GoPro da vida?

Primeiro, gostaria de falar sobre a questão das ‘selfies’ na fase de instrução. Em minha opinião, tudo o que for distração deve ser evitado nessa fase. “Ah, mas eu quero ter uma foto ou vídeo comigo pilotando!”. Ok, então, depois da missão, faça um voo local só para filmar/fotografar, com o INVA no comando, e você se divertindo. Mesmo não sendo uma ‘selfie’ de celular – ex.: uma GoPro montada no avião (que distrai também!) -, num voo de instrução é fundamental que o aluno tenha 100% de concentração na missão. Mas o principal é a disciplina de voo, que começa a ser construída na PS01 ( o primeiro voo da fase pré-solo do aluno). Se o aluno começa achando que não tem problema ter uma GoPro fixa a bordo, daqui a pouco não vai ter problema “dar tchauzinho prá câmera”, depois levar uma câmera de mão, e em pouco tempo, o sujeito já está tirando ‘selfies’ com o celular. E depois, para tirar o mau hábito, é quase impossível.

A partir do momento em que o piloto se forma, e começa a voar profissionalmente (ou não, no caso de PPs que não pretendem prosseguir para o PC), não há mais INVA a bordo (ou supervisionando o voo, se for solo) para dizer se pode ou não tirar ‘selfies’ ou filmar o voo com uma GoPro. E é aí que entra o tal do “bom senso” – que, como sabemos, NÓS temos de sobra, mas OS OUTROS nem sempre… Recentemente, escrevi sobre o caso do piloto que amerrissou no oceano com um Cirrus, tirando ‘selfies’ enquanto a aeronave descia em segurança, presa ao paraquedas da aeronave. O piloto não se feriu, e as ‘selfies’ não agravaram o acidente, mas… Pôxa, não quero parecer rabugento, mas acho que um piloto que se preocupa em tirar ‘selfies’ no meio de uma  emergência grave como aquela não mostra profissionalismo. Sempre há trabalho numa emergência: refazer o check-list de abandono, rechecar o equipamento de sobrevivência, falar no rádio, acionar o ELT… Enfim, no mínimo, ficar atento para alguma ocorrência extraordinária que possa estar acontecendo. Não é porque naquele caso não houve agravantes que se pode dizer que a atitude foi correta (quando o Latino se sentou na poltrona do comandante num voo da TAM, o avião não caiu, mas nem por isso o comandante agiu certo).

Então, concluindo, eu acho que essa história dos ‘selfies’ em voo tem a ver com os três eixos que esse blog se propõe a abordar:

  • Em termos de formação aeronáutica, eu acho que deve ser evitado para não educar errado em termos de disciplina de voo;
  • Em termos de empregabilidade, eu acho que pega mal, pois denota falta de profissionalismo; e
  • Em termos de segurança, é obviamente ruim, como demonstrado no relatório da NTSB do link acima.

E, a não ser em casos especialíssimos, deve ser evitado. (Que casos são esses? Bem, aí vai depender do bom senso do piloto…).

 

5 comments

  1. Salinas
    4 anos ago

    A selfie é um ato de exibicionismo e concordo que deve ser evitada principalmente por pilotos em instrução. Não tenho conhecimento se a ANAC já se pronunciou sobre o assunto, mas acredito que se houvesse alguma diretiva oficial, escolas, aeroclubes e invas poderiam se posicionar de maneira mais assertiva em favor da proibição; Ninguém vai ser contundente em relação ao tema se o órgão regulador não se pronunciar primeiro, pois a relação comercial aluno satisfeito X escola tem peso grande. Acho também que o assunto selfie e seus riscos associados assim como todo o tema de segurança de voo precisa ser mais discutido nos cursos teóricos e práticos. Por mais que agora me pareça um problema óbvio, durante minha época de instrução nunca fui alertado sobre esse risco ou possíveis consequências – tbm conheço vários alunos que tiram e compartilham fotos e tem-se isso como uma coisa normal corriqueira.

    Sobre o uso da GoPro, entendo os pontos levantados mas concordo em partes. Durante a minha instrução, principalmente durante as aulas de TGL e aproximações em pane, usei câmeras (com permissão dos invas) posicionadas no para-brisas e no estabilizador horizontal (instaladas conforme orientação da GoPro para uso aéreo) e o meu propósito era assistir e revisar arredondamentos e toques depois das aulas. Elas foram úteis para entender melhor o posicionamento da acft no toque e as referências em relação ao solo. Inclusive recebi algumas boas dicas assistindo os vídeos junto com os invas pois tinha a tendência de achar que estava mais baixo do que realmente estava e fiz alguns toques duros… depois melhorei bastante :-). As imagens também serviram para melhorar nivelamento e curvas de pequena e média nos exercícios de coordenação e 8 sobre marcos e acredito que podem ajudar em outras manobras tbm.

    Meu ponto é que além de servir para gravar o voo e mostrar para os amigos, seu uso pode se tornar uma ferramenta útil para a análise de voo no debrief contribuindo para a formação do piloto. Nesse caso, escolas e aeroclubes podem definir seu uso e até adota-las como uma ferramenta oficial do processo de ensino, incluindo nos checklists como atividade rotineira do processo de acionamento e corte. Não preciso nem dizer que ficar manipulando, mexendo e dando tchau para a câmera durante o voo deve ser totalmente proibido para evitar perda de foco.

    Espero ter contribuído com a minha visão sobre o assunto.

  2. Henrique Mylius
    4 anos ago

    Muito bom o post Sr. Marinho e muito bem colocado.
    abraço

  3. Wassall
    4 anos ago

    Vocês estão certíssimos, ou pilota ou fotografa, filma, faz careta, enfia o dedo no…nariz etc…

  4. Southpilot
    4 anos ago

    Raul, quando eu estava dando instrução (passado recente) convivi com diversos tipos de alunos querendo gravar seus voos com go pro ou querendo tirar alguma foto. É um assunto um pouco polêmico porque varia de pessoa pra pessoa mas meu veredicto é que de um modo geral tira atenção sim, principalmente quando o aluno não sabe manipular direito o equipamento (câmera). Já começa na fase do pre-flight onde ao invés de se preocupar em fazer uma inspeção externa bem feita, o aluno se preocupa em montar a parafernália e “agiliza” a externa. Durante o voo é frequente a preocupação em ver se está gravando ou não. Alguns levavam um pequeno controle para o voo e ficavam mais concentrados em apertar os botõezinhos certos do que em executar o voo corretamente.
    Duas situações complicadas que passei:
    – Aluno na curta final, desestabilizado e com o controle na mão, olhando para baixo, preocupado em ver se estava fazendo o procedimento correto para acionar a câmera.
    – Aeronave no ponto de espera, a torre nos autoriza a ingressar, alinhar e decolar sem parada devido a um Boeing na final (Questionaram se era possível inicialmente). Ao ingressar na pista o aluno freia a aeronave até a sua parada e solta a seguinte pérola: – Ai, minha câmera não está ligando…
    Nas duas situações assumi o comando e após o voo escrevi relatórios para a direção da escola recomendando a proibição do equipamento. A escola proibiu apenas para voo solo e manteve para voos de instrução com a justificativa de que não poderíamos ser tão chatos e que proibir poderia diminuir a “alegria” de voar para alguns alunos (Consequente diminuição de $ para a escola).

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