As notícias cada vez mais estranhas sobre as habilitações dos pilotos do PR-AFA (e uma sugestão para os repórteres)

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O G1 publicou uma matéria hoje com o título “Ninguém no país possui habilitação específica para pilotar jato de Campos“. Ok. Se ninguém está habilitado, então ninguém está voando nessa aeronave, certo? Mas o que dizer do 2o, parágrafo da reportagem: “Atualmente, voam no país 14 jatos desse modelo”? Estariam essas aeronaves voando de maneira irregular? Na reportagem,  explica-se que os pilotos habilitados à família do C560 só passaram a ter a habilitação específica do C560 XLS+ exigida a partir da renovação da habilitação, se ocorrida após a entrada em vigor da tal IS 61-004, em jul/14, mas… Será que TODOS os pilotos que operam o XLS+ estão, coincidentemente, com os vencimentos de suas carteiras por acontecer?  Note-se que o próprio comandante do voo acidentado em Santos teria a sua habilitação vencida em janeiro deste ano…

É aí que entra um detalhe que deve ter escapado aos repórteres (que, realmente, é muito sutil): a ANAC vem prorrogando o vencimento de habilitações de pilotos desde junho de 2014, primeiro com a Resolução No.329, depois com a Decisão No.157 – e sabem qual a razão alegada para essas prorrogações? A necessidade de alocar os esforços da ANAC para a gestão da atividade aeroportuária durante a Copa do Mundo! Então, é preciso que fique claro que os pilotos do C560 XLS+ em atividade no país estão voando com as habilitações “erradas” não por coincidência, ou por fraude, e sim porque a própria ANAC assim determinou. E isto se deve ao “sucesso da ANAC” na gestão aeroportuária durante a Copa. Vou explicar melhor, pois o assunto é complexo.

Em meados de 2014, tivemos uma Copa do Mundo no Brasil, lembram-se? (Ok, ninguém quer lembrar do 7 X 1, fazer o quê…). Naquela época, a ANAC alocou toda a sua capacidade operativa para não deixar acontecer algo vergonhoso para o país, como um acidente, ou um caos aéreo. Parte disso foi conseguido mantendo boa parte da aviação geral no chão, e outra parte foi fruto do abandono das atividades cotidianas da Agência para alocar pessoas ao atendimento e fiscalização nos aeroportos das cidades-sede dos jogos. Assim, os checadores de pilotos e os técnicos que analisavam processos no setor de habilitações deixaram de checar os pilotos e de conferir seus processos para prestar atendimentos nos aeroportos. Mas, aí, as habilitações vencidas se avolumaram, e para “resolver” a questão, a ANAC prorrogou o vencimento de todas elas por 90 dias. Não adiantou, e ela prorrogou por mais 90. Tem gente que vai estar voando com a habilitação vencida (e prorrogada) até março deste ano por causa disso (e não se assustem se vier uma nova prorrogação). Então, é preciso esclarecer aos que ficaram horrorizados pelo fato de os pilotos do PR-AFA não estarem com a habilitação “correta” na época do acidente que, por causa do “sucesso da ANAC” na Copa, nenhum piloto do mesmo modelo de aeronave está voando com a habilitação do XLS+ até hoje. Ou seja: se o avião do Campos caiu por causa da falta dessa habilitação, então há 14 aeronaves condenadas ao mesmo destino trágico voando hoje em dia.

(Obs.: é claro que eu fui irônico na conclusão do parágrafo anterior; por outro lado, faz sentido a ANAC prorrogar essa exigência repetidamente devido ao “sucesso” de sua atuação durante a Copa?)

A propósito, sobre essa história dos pilotos do PR-AFA não estarem corretamente habilitados, vejam este trecho da reportagem do G1:

O major Carlos Henrique Baldin, que participa da investigação do acidente de Campos no Cenipa, nega que a falta de treinamento específico para o Cessna 560XLS+ desqualificava os pilotos de Eduardo Campos para operar o avião.

Leram isso, repórteres do Estadão?

 

 

3 comments

  1. Depois que eles publicaram na minha página que eu tinha PA-31 (um avião em cujo cockpit jamais sentei, nem para tirar fotografia), não duvido de mais nada…

  2. Cmte Brasil
    4 anos ago

    Meu Deus. Todo essa “bafafa” por conta das mudanças de habilitação que a ANAC publicou e não propagou no sistema de consulta? Quem lembra quando ocorreu o mesmo com os Kings? Que do dia pra noite apareceram algumas habilitações a mais nas carteiras dos pilotos para cobrir BECH? Sei exatamente o que está acontecendo, e os jornais aproveitadores, explorando isso de forma errada. Os artigos deveriam ser em cima da ANAC, que mudou a regulamentação e não propagou as habilitações no sistema de consulta. Se usarmos essa mesma “óptica”, todos os pilotos de Phenom 100 e 300 do Brasil estão irregulares, pois na citada IS, que especifica as habilitações de aeronaves TIPO, consta que as habilitações do 100 e 300 foram unificadas, e os pilotos permanecem voando com as habilitações “antigas”. Poupe-nos, jornais Brasileiros! Queremos ler notícias de qualidade. Aviação não é lugar pra sensacionalismo!

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