A nota da ANAC corrigindo a reportagem do G1 sobre o treinamento dos pilotos do PR-AFA – e o que faltou ser dito

By: Author Raul MarinhoPosted on
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A ANAC publicou ontem em seu portal uma nota corrigindo informações veiculadas pelo G1 na matéria “Ninguém no país possui habilitação específica para pilotar jato de Campos“. Na verdade, nem a reportagem nem a nota tocam no ponto mais importantes sobre o assunto – até que ponto a suposta falta de treinamento teria influenciado no acidente especificamente -, e tampouco cita o fato explicado ontem, neste post – vide o trecho abaixo reproduzido:

Em meados de 2014, tivemos uma Copa do Mundo no Brasil, lembram-se? (Ok, ninguém quer lembrar do 7 X 1, fazer o quê…). Naquela época, a ANAC alocou toda a sua capacidade operativa para não deixar acontecer algo vergonhoso para o país, como um acidente, ou um caos aéreo. Parte disso foi conseguido mantendo boa parte da aviação geral no chão, e outra parte foi fruto do abandono das atividades cotidianas da Agência para alocar pessoas ao atendimento e fiscalização nos aeroportos das cidades-sede dos jogos. Assim, os checadores de pilotos e os técnicos que analisavam processos no setor de habilitações deixaram de checar os pilotos e de conferir seus processos para prestar atendimentos nos aeroportos. Mas, aí, as habilitações vencidas se avolumaram, e para “resolver” a questão, a ANAC prorrogou o vencimento de todas elas por 90 dias. Não adiantou, e ela prorrogou por mais 90. Tem gente que vai estar voando com a habilitação vencida (e prorrogada) até março deste ano por causa disso (e não se assustem se vier uma nova prorrogação). Então, é preciso esclarecer aos que ficaram horrorizados pelo fato de os pilotos do PR-AFA não estarem com a habilitação “correta” na época do acidente que, por causa do “sucesso da ANAC” na Copa, nenhum piloto do mesmo modelo de aeronave está voando com a habilitação do XLS+ até hoje. Ou seja: se o avião do Campos caiu por causa da falta dessa habilitação, então há 14 aeronaves condenadas ao mesmo destino trágico voando hoje em dia.

(Obs.: é claro que eu fui irônico na conclusão do parágrafo anterior; por outro lado, faz sentido a ANAC prorrogar essa exigência repetidamente devido ao “sucesso” de sua atuação durante a Copa?)

Onde quero chegar é no seguinte ponto: o tal do “sucesso” da ANAC na gestão da atividade aérea/aeroportuária durante a Copa do Mundo repercute negativamente até hoje na aviação brasileira. Estamos pagando (e caro!) por esse “sucesso” – que, é claro, só pode ser grafado entre aspas, porque sucesso não foi.  

2 comments

  1. Henrique Uchôa
    3 anos ago

    Eu fico triste ao ver uma nota como essa que a ANAC solta, sem passar pela revisão de pessoas que tenham mais experiência dos que a produziu. Alguns pontos eu queria aprender com quem escreveu essa nota, como:

    1) “Ou seja, o registro dos treinamentos realizados deve ser mantido na CIV do próprio piloto, caderneta que ele DEVE PORTAR em todos os voos que realizar.” (texto retirado do segundo parágrafo da nota da ANAC com grifo meu)

    – Quero aprender, pois posso estar desatualizado e saber onde está a obrigatoriedade de portar a CIV?

    2) “Uma vez que a comprovação do treinamento específico estaria na CARTEIRA que deveria estar com os pilotos na hora do acidente, não podemos afirmar se eles haviam ou não realizado o treinamento exigido para operar o modelo XLS+. Como informado, desde julho de 2014, a Agência passou a exigir que essa informação presente na CARTEIRA passasse a ser registrada também na Agência no momento da sua renovação.” (texto retirado do último parágrafo da nota da ANAC com grifo meu)

    – Onde está essa nova definição de CIV que insistem em chamar de “carteira” no último parágrafo? Que deveriam estar portando na hora do acidente, onde está escrito isso? A obrigatoriedade é da CHT, documento que eles querem explicar que não fica registrado o treinamento de diferenças para aquela família de tipo de aeronaves.

    3) Acredito que no quinto parágrafo, eles tenham tido a intenção de se referir a IS 61-005A e não a IS 61-004 que não cita CIV nenhuma vez sequer.

    Teria muitas outras contestações para fazer a respeito do assunto, mas por motivos particulares e em respeito aos mortos prefiro o silêncio.

    ANAC entregue a confecção destas notas para quem conhece do assunto e não para secretárias e burocratas politicamente postos em função de Gerência.

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Excelentes observações!
      Parabéns!

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