Sobre as questões econômicas da formação aeronáutica: por que o que vale para os EUA não vale para o Brasil?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Recebi do amigo Fábio Otero a indicação para ler mais um artigo publicado na imprensa especializada americana sobre o ‘pilot shortage’ (“apagão de pilotos”). Blá blá blá e a demanda é maior que a oferta, blá blá blá e há um profundo desinteresse pelos jovens americanos pela carreira na aviação, mas… Esperem aí! Vejam porque esse desinteresse existe, de acordo com a matéria:

Though pilot pay is on the rise, the return on investment remains staggeringly low. Many aviation programs charge up to $100,000 to be certified to fly commercial aircrafts. Some recent graduates make as little as $20,000 each year, with significant raises only offered after years in the industry.

Então, está explicado: o sujeito gasta US$100mil para se formar para, depois, ganhar US$20mil/ano (que, no contexto americano, é salário de trabalhador braçal sem qualificação), então esse desinteresse faz sentido econômico. Mas, esperem aí de novo! E no Brasil? Por acaso a situação não é semelhante? Na verdade, aqui seria até pior: gasta-se mais de R$150mil para um curso completo de PP+PC/MLTE-IFR+Faculdade+Jet+ICAO-4+ e, depois, o sujeito vai para um aeroclube ganhar R$500/mês como instrutor em alguns casos (e com chances incertas de, um dia, chegar à linha aérea, onde os salários médios de entrada também estão em baixa). Porém, aqui no país, estamos muito longe de um “apagão de pilotos”, pelo contrário: a relação de oferta e demanda não para de se alterar em direção ao aumento da oferta de pilotos disponíveis (especialmente os recém-formados). Então, porque isso acontece? Por que a carreira na aviação continua atraindo gente, apesar de as perspectivas econômicas serem tão desfavoráveis? Tenho algumas hipóteses.

A primeira é a crença de que ser piloto profissional é a melhor alternativa para quem tem “paixão por voar”. Já discutimos este assunto aqui, mas eu não sei se esta é uma hipótese que se sustenta, pois em algum momento no processo de formação de piloto, eu acredito que o sujeito entenda, de uma maneira ou de outra, a diferença entre a profissão e a atividade de pilotar uma aeronave. Mesma coisa em relação à história de os aeroclubes e as escolas de aviação “venderem o sonho” de um futuro brilhante na aviação, o que até acho que pode atrair alguns incautos para começar o PP – mas, tanto quanto a crença citada no início deste parágrafo, acredito que “caia a ficha” da realidade do mercado antes de o sujeito se formar PC.

Se as hipóteses acima explicam só parcialmente o comportamento do brasileiro em relação aos aspectos econômicos incoerentes da sua decisão pela carreira de piloto, então deve haver alguma outra explicação complementar.E qual seria ela? Eu tenho cá comigo uma tese, mas antes de revelá-la, gostaria de saber a opinião dos estimados e perspicazes leitores deste blog:

Na sua opinião, porque a carreira de piloto continua atraindo tanta gente, apesar de seus aspectos econômicos tão desfavoráveis?

 

 

 

 

20 comments

  1. Hainner
    3 anos ago

    Vocês apresentaram suas opiniões, todas de uma certa forma ”negativa”, mas a conclusão que vocês dão para este acaso seria que a remuneração salarial está baixa?, tendo em vista que o valor gasto para se tornar um piloto é alta, e o seu mercado de trabalho só desvaloriza anualmente? E que o ”prazer de voar” tende a ser maior que o retorno monetário?

    Tenho vontade de me tornar piloto, tenho 16 anos e curso o 3°Ens. Médio, o curso é caro, então estou pedindo a ajuda de vocês que já tem uma ampla visão sobre o assunto, para ajudarem !

  2. Bruno Ribeiro
    4 anos ago

    Olá meus caros, vou falar resumidamente minha história.
    Meu nome é Bruno Ribeiro, 26, sou PC MLTE IFR Recém Checado, cheguei até aqui com muita dificuldade, isso porque ainda pude contar com à ajuda de muitas pessoas, pois venho de família humilde. O sonho de voar começou quando eu ainda era muito pequeno, Mas uma coisa eu vos falo, para que você possa realizar um sonho, você simplesmente deve fechar os olhos e imaginar que você está chegando até a linha de chegada. Sabe o que é isso? Ter fé. Muitos me diziam que não iria conseguir devido não ter uma estabilidade financeira que me proporcionasse isso. Bom consegui chegar aqui. O que quero mostrar é que comer “marmita em baixo de uma asa” como foi falado em outro comentário, e comer um filé ao molho madeira, ou até mesmo estar com sua família o tempo todo. O fato é que a forma de lidar com toda essa situação é bem simples, basta você ver de que forma quer levar sua vida. Finalizando eu pergunto à você, o que é melhor? chegar em casa do escritório sabendo que não deu tempo de terminar um serviço, ou chegar em casa após um longo voo e poder dizer o que tem pro jantar, sabendo que a missão daquele dia foi concluída. Pense bem. Dinheiro só nos prejudica se você colocar ele em primeiro lugar em sua vida.

    Bruno Ribeiro.

  3. Sergio Roberto Santos
    4 anos ago

    Eu concordo com as opiniões sobre o salário de um piloto ser relativamente baixo para a sua formação, mas alto para os padrões nacionais.
    Mas esta não é uma realidade apenas para os pilotos, e sim para todas as profissões de nível superior, como engenheiros e médicos. É uma questão de oferta e procura. A oferta de cursos de pilotagem aumentou menos do que a oferta de pilotos, por isso os custos da formação de um piloto diminuíram menos do que os salários pagos.

  4. Enderson Rafael
    4 anos ago

    Eu tenho a impressão de que a questão é mais trivial. Nos EUA o salário de piloto nas regionais é baixo pra renda média do país. No Brasil, por mais que venha caindo, com emprego semelhante, você ainda estará nos 10% da população com renda mais alta. Ou seja, somos um país essencialmente pobre, então já que você precisa trabalhar e se manter, que seja voando.

    A segunda razão é mais simplória: voar um Cessninha pra onde você quiser, com quem você quiser e na hora que você quiser é bem mais prazeiroso que atravessar o país de madrugada amarrado em procedimentos enfadonhos numa pilotagem que é quase pura programação de computador. Mas enquanto um americano com um emprego bom pode comprar um Cessna e voar no final de semana, um brasileiro que tenha exatamente a mesma profissão e cargo dificilmentr poderá fazê-lo. Então, temos que arrumar um jeito de sermos pagos para voar. Junte-se a isso que alguns de nós realmente gostamos da vida de linha aérea e está montada a receita pro shortage de lá não funcionar aqui.

    • raulmarinho
      4 anos ago

      Minha “opinião secreta”, que vou revelar em breve, é mais ou menos por aí mesmo…

      • Enderson Rafael
        4 anos ago

        I like when we think likewise :-)

      • Gustavo Carolino
        4 anos ago

        Esse debate esta muito bom!

      • Gustavo Carolino
        4 anos ago

        Olhem o piso de “comandante” e “copiloto” (que nem são profissões, mas sim cargos tecnicos), ai te pergunto: ~1300 reais…. quanto ganha uma empregada domestica (faxineira) em SP, no RJ e em BH?

        Não há de haver mais proteções e debates sobre o digno exercicio profissional?

    • Gustavo Carolino
      4 anos ago

      Ei Enderson, compreendi o que quis passar. Imaginei um farmaceutico ou Educador fisico… eles também sofre. Porém essas formações estão amplamente disponiveis nas faculdades não pagas. O piloto ou Aviador ainda possui esse empecilho, da falta de investimento do Estado na aviação, onde eles também compõe. Nada justifica a desvalorização do profissional. E a valorização da máquina sobre ele.

      Poré,. veja que você poderia fazer um curso técnico de SAP que custa 4-5 mil reais e em alguns meses estar disponivel para a função de consultor SAP, ganhando pelomenos 3 mil reais por mês. Recupera-se rapido o investimento. Ninguém deve se contentar em se enrrolar em prejuizo, nem os pilotos. Entretanto,com grande chance, a falta uma “Ordem” e talvez sejam os próprios pilotos e aviadores que “matam” a digna remuneração do setor não?

      É triste ver uma Convenção Coletiva de Trabalho que não se estabiliza e que vê o piso salarial cair todo ano. Veja que isso ocorre pelo interesse “coletivo”… será possivel?

      Alias, o piso de um Aviador, varia em a função de comandante ou copiloto e veja bem: entre o tipo de operação que ele se encontra (91, 135, 121…). Desconheço isso em qualquer outro tipo de profissão algo assim. A responsabilidade geral é a mesma.

      Imagine uma norma onde um enfermeiro seja assegurado receber X se trabalhar em um ‘hospital pequeno”, Y se trabalhar num “Hospital mediano” e Z se trabalhar num “Hospital das Clinicas da vida”, fazendo as mesmas funções com as mesmas responsabilidades em seu cargo horizontal em TODOS esses!

      O Trabalho é o mesmo, oras. A aviação e a operação aérea que assume é o nosso meio de trabalho.

      • Gustavo Carolino
        4 anos ago

        Complementando:

        O piso deveria ser em função do salário minimo domestico vigente no país! Assim como as outras profissões.

        Então porque não haver interesse publico e mobilização para por isso em Lei Federal, como nas outras? Por que não garantir que, em qualquer tipo de empresa ou operador, haja por exemplo um piso salarial da categoria (aviador) de 6 vezes o salario minimo vigente no país? Para os Engenheiros é assim que funciona, para quaisquer outras profissões é assim que funciona.

        Tem Ordem, tem Conselho Profissional, para proteger os trabalhadores… de… quem prejudica a profissão, as atividades deles, o desenvolvimento seguro e digno das atividades.

        Por que não aproveitar projetos como o Projeto Aviador anunciado aqui, e enviar sugestões nesse sentido? É possivel.

        A aviação precisa funcionar direito e não sucateada (digo da equipagem humana, e não só sucata material).

        (Desculpe os erros de digitação na primeira responta)

  5. Victor
    4 anos ago

    Não sei quanto a maioria, mas posso falar por mim. Penso que assim como as milhares de pessoas que se formam professores nesse país, onde, segundo o ministro da educação deve-se tornar professor pelo amor à carreira e que se quiser bons salários façam medicina e blá blá blá…muitos profissionais se tornam pilotos porque não se veem fazendo outra coisa senão voar, mesmo sabendo das dificuldades e baixas remunerações. Eu mesmo, com a minha atual profissão e qualificação, tenho oportunidade de ganhar salários muito melhores que o salário de um piloto, porém, estou cursando meu PP e vou tentar ir até o fim, me tornando um PLA no futuro…com fé em Deus!!!

    • Reinaldo
      4 anos ago

      Mas será que compensa viver em um ambiente inóspito como da Aviação ganhando pouco? Isso não traz prejuízos para a segurança? Uma hora o piloto vai lembrar das contas, da família, ou vai reclamar de estar comendo uma marmita sob a asa de um avião. Ainda mais em uma profissão que demanda tanto estudo e investimento, e que é responsável por vidas e bens materiais. Não é escolher outra profissão, mas se começar todos pedir carteira assinada ou serem MEI, já ajudaria a fiscalizar a fara dos patrões.

      • raulmarinho
        4 anos ago

        Só um detalhe: um piloto ser contratado via MEI não é regular em termos trabalhistas.

  6. gustavocarolino
    4 anos ago

    Raul:

    Em se tratando daqueles que amam o que fazem e o que produzem com o seu trabalho: o profissionalismo. A vontade de fazer aquilo que gosta e de pertencer a uma categoria que, ainda, é vista como muito responsável pela engrenagem que movimenta a aviação, a vontade de querer crescer e fazer a diferença.

    O Profissional Real, “real” no sentido de não se mascarar atrás de uniformes ou titulos, não se deixa perder qualidade em função de recompesas, mas faz isso para si mesmo, como forma de ser, de ser feliz inclusive.

    Há ainda aqueles que aspiram profissionalismo, aspiram profissão. “Que enfrentam a tempestade voando acima dela”. Esta é a minha opinião.

    Gustavo Carolino

  7. Drausio
    4 anos ago

    Outro dia um amigo piloto me descreveu uma cena emblemática, cinematográfica eu diria.
    Estava ele visitando o Morro do Pão de Açúcar enquanto o Santos Dumont operava na 02. Os turistas embevecidos com a paisagem estonteante ficaram ainda mais impressionados ao assistir seguidas vezes widebodys voando abaixo do seu ponto de observação, no apertado segmento visual da aproximação para pouso. Um senhor comentou: “Puxa, mas esses caras são bons mesmo!” Ao que sua filha, uma jovem mulher, respondeu: “Também, eles ganham milhões pra fazer isso.”
    Queria ver essa cena filmada! Alguém dos audiovisuais se habilita?

    • Drausio
      4 anos ago

      onde se lê: widebody
      leia-se: narrowbody
      please.

    • raulmarinho
      4 anos ago

      …E se fosse verdade que eles ganhassem milhões, isso os deixaria menos habilidosos?
      Lógica estranha a desse povo, não?

  8. Pacelli Francesco
    4 anos ago

    Renato Sorriso, o gari do Rio que ficou famoso nos desfiles de escolas de samba, uma vez deu uma entrevista falando que gosta do que faz, mas muitas pessoas chegam pra ele e falam, “com tanta fama que você tem porque não arruma um emprego mais digno”, ora se ele gosta do que faz tem que mudar de profissão só porque não é uma profissão tão valorizada. Já quando você fala que está fazendo curso para piloto, tem duas reações, uma de admiração outra de inveja. As pessoas dão mais valores aos títulos (Cmte) que vão ter, do que aquilo que elas realmente gostaria de fazer.

  9. LAGE
    4 anos ago

    Acredito que aviação tem sim o “q” de diferença ainda para a sociedade brasileira, atualmente, trabalho em empresa americana e tenho muitos colegas de trabalho que possuem na família um aviador, nos USA é muito normal isso o que aumenta e muito o conhecimento dos filhos e netos que sucedem o aviador, eles sabem muito bem o que é a aviação, diferentemente, da nossa sociedade onde quando fala a palavra “aviação” tudo ainda é muito novo e glamoroso. Dai onde muitos novatos caem de cabeça.

    Lembro quando fazia o PPH no ACSP, não existia nenhum outro aluno buscando uma segunda formação e sim procurando uma maneira de ganhar mais do que o atual emprego, pelo jeito esses alunos eram os “novatos” citados acima.

    Pessoalmente falando… eu escolhi aviação como uma segunda carreira profissional para obter um PLANO B caso seja necessário, porém, na medida que fui voando e tirando as carteiras eu fui contaminado pelo vírus e hoje gostaria muito de fazer a aviação o PLANO A e a atual carreira o PLANO B, porém, me formei no momento onde será necessário muito paciência e persistência, e para isso estou disposto..

  10. Paulo
    4 anos ago

    Status.
    A sociedade ainda “brilha o olho” quando se fala que é piloto. No senso comum, a profissão de piloto ainda é “Ganhar para se divertir”.

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