Ler relatórios de acidentes aeronáuticos: um hábito que, infelizmente, nós não temos

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O portal Piloto Policial publicou no último sábado (14/03) um excelente artigo sobre como os Relatórios de Acidente de Helicóptero podem salvar vidas – que, evidentemente, é 100% aplicável à aviação de asa fixa. Na minha opinião, não existe ação com melhor custo/benefício para reduzir acidentes aeronáuticos do que ler, estudar, debater, discutir, refletir, e pensar sobre (no sentido mais amplo possível do termo) as ocorrências descritas nos relatórios de acidentes aeronáuticos. É o que o autor do texto acima escreve: “não há novas formas de provocar acidentes” – ou seja: se um dia você se envolver em um acidente, ele será igual a algum que já aconteceu; logo, quanto mais você souber como ele pode ocorrer, mais fácil evitá-lo ou mitigar suas consequências.

Os Relatórios Finais (RFs) do CENIPA estão disponíveis para serem pesquisados e baixados gratuitamente no Portal da entidade responsável pela prevenção e investigação de acidentes aeronáuticos do Brasil. Apesar disso, eu nunca vi algum aeroclube ou alguma escola de aviação promovendo um encontro para discutir RFs com seus alunos (pode até ser que exista uma entidade de formação aeronáutica que faça isso, mas eu desconheço). A propósito, nos diversos eventos promovidos pelo CENIPA que eu compareci até hoje, jamais eu presenciei uma discussão de RF… “Ah, mas ler RF é uma ação individual”. Sim, claro! A leitura pode ser individual, mas o debate não! Tanto é que eu já publiquei dezenas de RFs aqui, e em todos os casos surgiram debates muito interessantes nos comentários. Fora isso, há o problema do hábito: se não se estimular as pessoas a ler RFs, lendo junto, explicando e debatendo, nunca se criará o costume de ler RFs entre os pilotos.

 

 

9 comments

  1. Marcius
    3 anos ago

    No dia 26 de fevereiro, na PREMIER ESCOLA DE AVIAÇÃO CIVIL – Várzea Grande/MT, nós apresentamos uma palestra para nossos alunos de PP sobre um RELFIN abordando “Colisão em voo com obstáculo”, o qual teve uma duração de duas horas e meia.

    Nossa próxima apresentação será o RELFIN abordando um CFIT.

    Como eu sempre digo: “Na aviação, depois da escola de pilotagem, o estudo de um Relatório Final é o melhor aprendizado.”

    • raulmarinho
      3 anos ago

      É por isso que eu sou seu fã, Marcião! Só lamento que este tipo de atitude seja tão rara no cenário da instrução aeronáutica do Brasil.

    • Há alguma associação ou entidade do tipo que congregue as instituições de ensino de aviação civil (tanto no plano técnico – aeroclubes e escolas de aviação -, quanto no nível de graduação – Aviação Civil e Ciências Aeronáuticas)?

      • raulmarinho
        3 anos ago

        Em operação, nenhuma.

        • Pergunto pois seria uma boa (talvez) para que houvesse uma maior padronização na questão do ensino e instrução, sei lá.

  2. Márcio Lira
    3 anos ago

    Diria que o problema é maior: Ler, um hábito que gradualmente vai desaparecendo.

  3. Fred Mesquita
    3 anos ago

    Um hábito que antigamente era comum, mas com o passar do tempo está sendo deixado de lado. Pior ainda é tentar debater um acidente baseado em um relatório, somos quase que linchados em praça pública.

  4. Marcelo
    3 anos ago

    Raul, eu sou fascinado por os relatórios e gostaria de acrescentar algumas opiniões: – os relatórios da aviação geral do cenipa são simplificados, por vezes não trazem recomendações; – além dos rfs sigo e assisto todos os episódios do “mayday desastres aéreos” apesar de serem meio demorados, eles te fazem a avaliar e pensar o que pode ter acontecido baseado nas simulações antes da conclusão, também trazem um ambiente rico que geralmente – não sempre – exploram várias hipóteses e colocam a junção de fatores contribuintes. É interessante porque você se coloca como os pilotos no evento, as reações e equívocos, muitas vezes por partes deles. Apesar de não ser piloto comercial, e nem pretender, posso imaginar o quão importante e educacional pode ser este conteúdo para um piloto que vive isso diariamente. Neste momento acabei de assistir um de um acidente no norte do Canadá em que devido principalmente a falha do piloto, mesmo o copiloto tendo alertado 18 vezes acabaram caindo a 1 km da pista em uma aproximação. – eu também gostaria de ter acesso nos rfs dos dados dos gravadores, tem alguns acidentes que mesmo com toda explicação deixam dúvidas.

    Resumindo, na aviação não se pode cometer erros seguidos, então aprender com os erros dos outros é importantíssimo.

    Ps: por incrivel que pareça os dois episódios que no meu ver deixaram a desejar e cheguei a ler os rfs também me deixou com dúvidas, até por eu não ser piloto, foram o da Tam em congonhas e o da air france no oceano!

  5. Na linha regular e mesmo na operação 135 (táxi aéreo) – nos cursos periódicos de CRM e/ou de SEP (Safety & Emergency Proc’s – Part I & II), q são mandatórios para que se possa exercer as prerrogativas das licenças – é praxe os relatórios finais de acidentes (ainda que na forma de filmes ou projeções PPt) serem utilizados como “case de estudo” para que se possa explicar o porquê das melhores práticas. Da mesma forma, se você pagar do seu bolso um type rating, é parte integrante do curso, ainda que ministrado sob o Programa de Treinamento “Genérico” do CTAC e que fundamenta a sua homologação pela autoridade.

    “O melhor dispositivo de segurança e prevenção de acidentes a bordo de uma aeronave é uma tripulação bem treinada.”

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