Um comentário revelador sobre a realidade dos exames psiquiátricos para obtenção de CMA

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Alguns dias atrás, publiquei o post “Tirando a depressão do armário da aviação” em que concluía o seguinte:

Então, o que temos é que a profissão predispõe o piloto a contrair doenças mentais e, por outro lado, pune quem apresenta tais distúrbios; daí, qual a consequência lógica? Ninguém revela seus problemas, o que agrava ainda mais o quadro! E depois, quando um caso sai do controle, como no recente desastre da Germanwings, é aquele espanto generalizado… Mas não era justamente isso o que se poderia esperar dessa “fábrica de loucos que criminaliza a loucura”?

Ocorre que ontem recebi um comentário ao post “Reprovações por ‘ansiedade’ no exame para obtenção de CMA” que revela a triste realidade dos exames psiquiátricos para obtenção de CMA e confirma o que segue acima – pelo menos quanto à parte em que eu falo que “ninguém revela seus problemas”. Leiam o que escreveu o leitor “Zé” (cujo nome eu alterei para não o prejudicar):

oi Raul olha fui reprovado no haco na psiquiatria com diagnostico f 90 ele me perguntou se ja tinha tomado algum remédio controlado, eu disse que algum anos atras tinha tomado ritalina e ele me reprovou depois de noventa dias voltei la me reprovaram de novo so falava no tal do remedio .mas e agora como devo proceder ? isso fica registrado ? fui consultar uma psiquiatra e não tenho problemas com atenção trabalho com periculosidade (acesso por corda, eletrotécnico)
obrigado

“Diagnóstico F90”, é o código para Transtornos hipercinéticos, cujo distúrbio mais popular é o “Transtorno de déficit da atenção com hiperatividade” (também conhecido pela sigla TDAH), que faz parte da família de “Transtornos do comportamento e transtornos emocionais que aparecem habitualmente durante a infância ou a adolescência” – e a Ritalina (metilfenidato), o medicamento mais largamente utilizado para quem sofre de tal problema. Quem tem crianças pequenas em casa deve estar familiarizado tanto com a TDAH quanto com a Ritalina, mas para nivelar as informações, reproduzo abaixo um trecho do verbete Ritalina da Wikipedia (os grifos são meus):

Generalização do uso e controvérsia

No começo dos anos 1960, a droga popularizou-se no tratamento de crianças com TDAH. Ao mesmo tempo, a Ritalina® ganhou grande atenção da imprensa, pois era usada por celebridades do mundo político e científico, tais como o astronauta Buzz Aldrin, e o matemático Paul Erdős.

Nos anos 1970, entre 100.000 e 200.000 crianças usavam Ritalina®, nos Estados Unidos. Nos anos 1990 a prescrição de psicotrópicos para crianças aumentou significativamente, e, em 1995, o International Narcotics Board, ligado à Organização Mundial da Saúde, alertou para o fato de que 10 a 12% dos meninos norte-americanos de 6 a 14 anos estariam sob efeito da Ritalina®. Segundo a US Drug Enforcement Agency (DEA), a produção da droga crescera 50%, entre 1990 e 1995. Em março de 2000, seria instaurado o primeiro processo judicial contra a Novartis, empresa fabricante do medicamento, e contra a Associação Americana de Psiquiatria – ambas acusados de orquestrarem a mediatização do TDAH, para aumentar as vendas de Ritalina®.

Quando os médicos começaram a prescrever a Ritalina, seus efeitos secundários eram, ainda, mal conhecidos. Posteriormente, médicos e pais constataram o medicamento podia interferir no crescimento das crianças, causar depressão ou transtorno obsessivo-compulsivo. Articula-se então o debate em torno de questões tais como:
– O que é o TDAH, para cujo tratamento se prescrevia a Ritaline ?
O TDAH é uma verdadeira doença ou seria uma perturbação “montada” no intuito de vender um medicamento como sua suposta cura?
– Por que teria aumentado tanto o número de diagnósticos de TDAH nos últimos anos?
Teria realmente crescido o número de doentes ou estaria havendo menos tolerância em relação às crianças consideradas “agitadas” ou “desobedientes” ?

Atualmente, aproximadamente um em cada cinco adolescentes e 11% das crianças norte-americanas foram diagnosticadas como portadoras de TDAH, segundo dados do governo federal. Isto equivale a 6,4 milhões de pessoas entre 4 e 17 anos de idade – um crescimento de 16% em relação a 2007 e de 41% em relação à década de 2000. Cerca de 2/3 dessas crianças e jovens são tratadas com estimulantes como Ritalina® ou combinações de sais de anfetamina, como o Adderall – medicamentos que podem causar drogadição, ansiedade ou mesmo psicoses.

O número de diagnósticos de TDAH ainda pode aumentar nos próximos anos, pois a American Psychiatric Association planeja ampliar a definição do transtorno, de modo que muito mais pessoas possam ser diagnosticadas e medicadas. Vários médicos, entretanto, advertem que milhões de crianças saudáveis podem estar sendo medicadas desnecessariamente, com drogas psicoativas, a partir dos 4 anos de idade. Essas suspeitas aumentam quando se sabe que o diagnóstico do TDAH é baseado em avaliações subjetivas, sobretudo entrevistas com os pais e professores, que muitas vezes querem apenas que seus filhos e alunos se tornem mais dóceis. Enquanto isso, as vendas de estimulantes para tratamento do TDAH mais do dobraram entre 2007 e 2012, passando de 4 bilhões para 9 bilhões de dólares, segundo informações da IMS Health, empresa especializada em consultoria para a indústria farmacêutica.

Vocês entenderam o problema da Ritalina e do TDAH? Agora voltemos ao “Zé”.

O sujeito tomou Ritalina “alguns anos atrás”, possivelmente quando ainda era adolescente, e agora está tendo problemas para ser aprovado no exame para CMA – apesar de sua psiquiatra atestar que ele não tem mais nenhum problema mental (se é que teve um dia). Esta é a realidade dos exames psiquiátricos para obtenção de CMA, e é por isso que ninguém diz que tomou antidepressivos ou qualquer outra medicação para transtornos mentais na aviação. Quem fala a verdade acaba como o “Zé”, tendo que provar que seu transtorno não mais existe (se é que existiu), e que hoje é uma pessoa “normal”. Essa abordagem “ultraconservadora” nos exames acaba tendo o efeito contrário ao desejado: ela faz com que as pessoas omitam seus problemas e dificultem uma avaliação correta, e quem tomou Ritalina na adolescência cai na mesma vala comum do sociopata que joga um avião lotado contra uma montanha.

Será que não está na hora de mudar essa abordagem?

 

10 comments

  1. Rodrigo Alves
    3 anos ago

    Fiz o exame de 2ªClasse recentemente e notei que ao falar sobre ‘problemas psicológicos’ antigos (como a morte do meu pai e extrema indecisão profissional por estar sempre tentando fazer algo que não me agradava) o examinador insistiu em perguntar diversas vezes : “mas você já ta melhor né? não vai mais no psicologo né?”

    Claro que sou leigo no assunto mas, na minha visão, frequentar um psicologo significa o mesmo que frequentar um nutricionista. Da mesma forma que você precisa manter seu corpo saudável, você também precisa manter sua mente saudável. Entretanto, já percebi que para tirar o exame de primeira classe, terei que abandonar o psicologo ou mentir.

  2. Marcos Véio
    3 anos ago

    Vocês esqueceram do “Dunha”. Aquele sujeito que não tem “tempo” na agenda para fazer os exames. E que paga uma propina para não ter que passar pelos mesmos.

  3. Camila Rocha
    3 anos ago

    Raul, fiz meu CMA inicial no HFAB a poucos dias e confesso que percebi também o outro problema oposto ao do amigo ´´Zé“ se tratando da psiquiatria. Quero dizer que no meu caso me vi numa avaliação onde nem cheguei a conversar com a psicóloga separadamente, e os testes não passaram de desafios de raciocínio e uma ficha -bem longa no entanto- a ser preenchida com perguntas pessoais. De fato todos temos que assinar um termo afirmando sinceridade durante todo o teste, mas a questão é que ao ver perguntas óbvias como ´´ você já pensou em suicídio?“, fica claro que marcar o ´´não“ significa passar e ´´sim“ reprovar. E assim, com poucas ressalvas, ao longo do teste qualquer um pode formar o perfil de aprovação sem ser questionado. No segundo dia de exames perguntei com incômoda curiosidade à psicóloga como ela fazia o julgamento com testes como o que temos que desenhar traços na folha e nada muito mais que isso. Ela disse que montava da melhor maneira possível o perfil do candidato. Bom, não achei aquilo muito eficiente, mas me preocupei mais em passar naquele momento. Reconsidere novamente que fiz o CMA na junta especial de Brasília (cidade coração da anac), portanto aquele hospital deve ser o destino de milhares de aeronautas durante o ano.
    Agora com o tema em discussão, como você já pautou aqui nos posts me parece que se por um lado temos um sistema que ´´criminaliza“ uma das doenças mais características da profissão, por outro também há consideráveis falhas para julgar quem é apto e quem não é. São pessoas saudáveis ou com problemas controlados sendo reprovadas, e loucos como o piloto alemão pilotando normalmente.
    O testes não devem se tornar apenas mais rígidos, mas de fato eficientes. E acima de tudo precisamos de um sistema que aceite que a depressão é sim uma realidade entre os pilotos e reprimi-los só os fará esconder o problema e abrirá uma brecha para que o pior aconteça. Uma vez aceitando o problema será mais fácil criar os parâmetros que permitirão tantos ´´Zés“ seguir o seu sonho com segurança, e deverão barrar com eficiência os malucos que possam estar entre nós.
    Depois de um grande acidente aéreo sempre temos as mudanças de procedimentos que devem garantir que nada igual se repita certo? Eu só espero que parem convergir para a ideia de modificar a porta dos pilotos ou inserir um terceiro tripulante na cabine, essa não é a solução. Que não sejam aplicadas as correções erradas para um problema maior…

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Na verdade, o que vc relatou é o mesmo problema que eu escrevi, só que, ao invés da Ritalina, está a pergunta sobre o suicídio… Se vc, num momento difícil da vida – qdo tomou um chifre da namorada, perdeu o emprego, e morreu o cachorro -, chorou e pensou que não valia mais a pena viver, e citar isso na entrevista, pronto, será taxado para todo o sempre como um suicida em potencial; igual ao sujeito cujos pais deram Ritalina na adolescência porque era um “moleque levado”, entende?

  4. Hubner
    3 anos ago

    Tem aquele sujeito, gente boa, o Tonho, que não passou no CMA porque disse que bebia cerveja de vez em quando e o avaliador classificou ele (sei lá qual o código) como pessoa que abusa de álcool.

  5. Marcius
    3 anos ago

    Tem também o “Jão” (amigo do Zé acima) que nunca teve nada de errado. Sempre foi um cara normal, sociável e interessado pela vida.
    Até um dia decidir tornar-se piloto.
    Á partir daí o Jão foi conhecendo a ANAC e, aquele rapaz que era saudável psicologicamente e cheio de planos, acabou ficando louco.

  6. Marcos Véio
    3 anos ago

    “consulta com psiquiatra, mas também de um exame com uma psicóloga clínica, aplicando baterias de testes psicotécnicos.”

    Mas isso acontece. Ou não mais? Faz dois anos que não revalido minha licença médica.

  7. Augusto Fonseca da Costa
    3 anos ago

    Caro Raul Marinho
    Como você sabe sou médico psiquiatra além de piloto e gostaria de dar uns pitacos:
    O ideal seria que o exame de sanidade para CMA fosse feito não só através de uma consulta com psiquiatra, mas também de um exame com uma psicóloga clínica, aplicando baterias de testes psicotécnicos.
    A ANAC em 2010 iniciou junto ao Conselho Federal de Psicologia uma pesquisa entre os psicólogos para credenciá-los para esse fim, mas não sei no que resultou – ver em http://site.cfp.org.br/anac-realiza-pesquisa-com-psiclogos-que-atuam-no-sistema-de-aviao-civil/.
    Valeria a pena incluir o exame psicodiagnóstico nas avaliações para CMA, evitando inclusive a injusta estigmatização de profissionais da aviação sem critério técnico.
    Quanto à Ritalina, é de fato um escândalo mundial a hiper-prescrição ainda com o absurdo aval da Associação Americana de Psiquiatria, certamente cooptada pelos laboratórios farmacêuticos.
    O Rivotril (Clonazepan) tem tido o mesmo problema: hiper-prescrição, uso abusivo, dependência e tolerância (doses cada vez maiores).
    É o que chamo de programa de milhagens que alguns laboratórios e alguns médicos praticam: Quanto mais o médico prescreve determinado medicamento, mais ganha viagens pagas a congressos com hotel incluído.

    • Erich
      3 anos ago

      Caro Dr. Augusto, testes psicotécnicos JÁ SÃO aplicados em todo exame inicial para nova licença!!
      O sr. Não disse que é piloto? Como não sabe disso?

      Está se fazendo um carnaval sobre um ato isolado colocando toda uma profissão em dúvida, apesar do já pesado nível de controle e observação.
      Não existe, nem sequer na medicina, sua prática, um profissional mais controlado, testado, xixi em copinho, mechas de cabelo, testes teoricos e praticos a cada 6 meses, basicamente o sujeito se “requalifica” a cada 6 meses.
      Sem falar em todos os métodos de controle e monitoramento inerentes à atividade de transporte aereo, que é por isso mesmo uma das mais seguras maneiras de ir de A para B.
      Se há algo errado, é o excesso de zêlo causado por reações exacerbadas por algum evento de grande cobertura na mídia, que daqui alguns meses ninguém mais se lembra, mas que todos os profissionais acabam tendo que carregar mais um peso nas costas.

      • V
        3 anos ago

        Concordo com o Erich

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