A “Carta do seu piloto” – quem causou o acidente da Germanwings era um PTM/MPL (pelo menos na essência)?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O portal Disciples of Flight publicou um artigo chamado “A Letter From Your Pilot: the Germanwings Tragedy – The person responsible for this tragedy was not a pilot“, argumentando que, na verdade, o tal copila suicida que jogou o avião contra uma montanha não era um “piloto de verdade”, etc. e tal. O texto é muito bem escrito, poético, e aplicável à realidade aeronáutica de qualquer lugar do mundo… Até o penúltimo parágrafo, quando dá uma guinada para defender um ponto de vista mais polêmico, focado na baixa experiência do copiloto alemão, e do fato de os copilotos americanos terem um mínimo de 1.500h de voo. Vou reproduzir este trecho a seguir, para depois retomar meus comentários.

So please remember, we are pilots, but the person who did this was not a pilot. With 630 hours, he had not been exposed to enough experience. He slipped through the cracks of a foreign carrier, which means there are seams in the transition. In the U.S., you will not find anyone with less than 1500 hours in the right seat of a commercial airliner – and the majority have thousands more than that. They will have been exposed to experience and filtered more thoroughly. It doesn’t mean it can’t happen, but it reduces the already miniscule odds. The stats don’t retract the tragedy, but as you read these words, there are 5,000 U.S. flights in the air. There are 3 million passenger in the world today that will get to their destinations safely. Every one of those passengers had the benefit and trust of another person’s experience as a pilot.

Em minha opinião, há um certo equívoco aí. Nos EUA, há até muito pouco tempo era permitido que um copiloto de linha aérea tivesse os mínimos para a carteira de ‘Commercial Pilot’ (aproximadamente 250h) e, em diversos países (Brasil incluído), há pilotos recém formados na poltrona da direita das aeronaves comerciais. Apesar disto, não houve casos como o da Germanwings nem nos EUA pré-2014, nem com os “novinhos” do Brasil ou de outros países que permitem copilotos menos experientes. Mais do que isso, será que o sr. Andreas Lubitz mudaria de comportamento ou seria impedido de voar nas suas próximas 870h de voo? Pode até ser que sim, mas também pode ser que ele cometeria o mesmo desatino quando atingisse as 1.500h mágicas, e que chegasse até lá sem ser detectado como um sociopata em potencial. Enfim, eu acho que não dá para afirmar que  somente pelo fato de os copilotos americanos terem mais de 1.500h, então os passageiros das companhias dos EUA têm uma apólice de seguros anti-copilotos suicidas (lembrando que os copilotos americanos com nível superior podem chegar às cabines de aeronaves de linha aérea com 1.000h de voo, de acordo com a regulamentação da FAA).

Por outro lado, eu li o parágrafo acima reproduzido como uma crítica velada à MPL, a tal da “Licença de PTM-Piloto de Tripulação Múltipla” (na sua versão brasileira), que foi “inventada” na Alemanha e não foi (e nem vai ser) incorporada à regulamentação americana. Pelo que li até agora, não seria este o caso específico do sr. Lubitz – que, inclusive, era piloto de planador, exatamente o tipo de habilidade oposta ao que requer a MPL -, sendo de fato um PC “comum” mesmo. Mas quando o artigo da Disciples of Flight fala que o tal sujeito não era um “piloto de verdade” e que ele “escorregara pelas engrenagens de uma carreira estrangeira”, eu achei que o autor do texto estava se referindo especificamente a este tipo de profissional, formado não como um “piloto de verdade”, mas como um “operador de computadores que auxilia o comandante”, que é a lógica da MPL. Aí a crítica faria sentido, pois não seria somente a baixa experiência que estaria em jogo, e sim toda uma metodologia de formação aeronáutica, repudiada pela escola americana.

 

7 comments

  1. Kadu Lemes
    3 anos ago

    Conforme o relatório preliminar do BEA (http://www.bea.aero/docspa/2015/d-px150324.en/pdf/d-px150324.en.pdf), o sujeito era sim um MPL, embora também possuísse licença de PP.

  2. anônimo
    3 anos ago

    Auburn Calloway era F/E voava dc10 na Fedex, tinha 42 anos e algumas mil horas de voo e durante um voo, atacou os pilotos com golpes de machadinha.
    Querer colocar requisitos técnicos mínimos para balizar o comportamento de alguém é cômico.

  3. Tem muito mais angú nesse caroço do que só um copiloto suicida jogando um A320 contra o “paliteiro”. Talvez um dia a verdade apareça. Ou não.

  4. Enderson Rafael
    3 anos ago

    O texto é excelente, mas esse trecho causou polêmica e foi duramente criticado mesmo na página original. Faltou CRM à autora de consertar, inclusive rebatendo os comentários veementemente. Essa é uma parte da minha posição enquanto autor. Mas minha posição enquanto piloto é mais ferrenha. Não fosse o promotor linguarudo talvez nem soubéssemos ainda que o copiloto jogou a aeronave – e tanto ele sabia pilotar que a velocidade foi ajustada na descida para não exceder a máxima estrutural do avião – deliberadamente contra a montanha. Ou seja, pilotos com 630 horas são tão pilotos quanto quaisquer outros, e esse argumento já apareceu antes, num artigo muito bom da Vanity Fair sobre o AF447, em que é criticado que o copiloto tinha pouca experiência de voo manual. Ora, é claro! Qualquer piloto de linha aérea desenvolve outras habilidades – em especial com relação ao gerenciamento da inércia de dezenas ou centenas de toneladas – mas pilota na mão muito pouco, coisa de um ou dois minutos por etapa se tanto. A aviação tem várias especialidades, e para cada uma delas o profissional desenvolve melhor uns ou outros fundamentos.
    Enfim, o argumento de que com 630h ele não era piloto é totalmente furado. Que ele não pensasse como piloto concordo, um legítimo piloto não se mata levando centenas de pessoas inocentes, muito pelo contrário. E nem tudo é tão preto e branco assim: no cinza tem gente desde o colega que liga o piloto automático e se filma no fundo do avião até outros não tão comprometidos assim com a segurança fazendo manobras irresponsáveis para colocar no youtube – afinal, ser um bom piloto vai muito além de pé e mão. Mas o principal motivo pelo qual o argumento – um tanto “FAA cêntrico” da autora, uma vez que ela só demonstra viver a realidade americana, e ela mesmo talvez tenha ido pra direita de um jato antes de 1500h, pois a lei é recente e baseada num acidente com um comandante com 5000h – é falho é que o caso da GermanWings não foi o primeiro. Pelo contrário. De tempos em tempos alguém resolve se despencar matando todo mundo, e o último caso foi em 2013, menos de 2 anos atrás, com um Embraer 190, em que o comandante (que tinha certamente mais de 630h) resolveu entrar chão adentro na África. Boa parte dos suicidas – talvez a maioria na verdade – são comandantes. E aí? Não dá para ser muito mais piloto que um comandante de um jato comercial, né? O argumento foi infeliz, e estragou um texto ótimo. Uma pena. De resto, o frenesi é por conta desta vez ter sido na Europa, com uma companhia respeitável. Só isso.

    • Drausio
      3 anos ago

      Acho que o argumento central da autora (o texto foi escrito por uma mulher, Erika Armstrong – seria ela filha do Armstrong? – por sinal bem bonita a despeito da idade) é de que o que define a essência de um verdadeiro piloto é a auto-entrega pessoal ao longo de toda uma vida à profissão que ele abraçou. Quando ela diz “Eu me tornei um piloto e tudo em mim irá mantê-lo em segurança: esta é a crença de um piloto”, ela talvez esteja tentando dizer que ser piloto é algo transcendental, como uma experiência religiosa. Muitos pilotos já tentaram expressar essa mesma idéia, essa mesma sensação, em muitos outros lugares. Você não reconhece essa mesma mensagem neste vídeo do Canal Baixado e Travado (https://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=ySQlkG8Cdj8 )? “Faço o meu trabalho como quem cumpre uma missão. Quem seguiu a vocação de estar onde o homem não vai. Conduzir aves de prata … que encurtam distâncias a aproximam pessoas”. “Sou mais que piloto, carrego sonhos. Comandante? Não. Eu levo gente, eu trago gente. E cruzo os céus com gente…” “… a vida é feita de caminhos, e cada um deles reflete com precisão nossas escolhas. Essa é a minha escolha. Essa é a minha vida, minha vocação…” Soa familiar, não?

    • Edynardo
      3 anos ago

      Concordo com o TEXTO Em genero nunero e grau um co pila com experiencia pifia de 630,nao deverei sentar em um avia comercial sobre hipotese alguma,gracas a deus que NOS EUA isto esta banido,espero que em breve as autoridades brasileiras sigam o exemplo do FAS.

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